Vidas para meninos
Quando eu era miúda, havia em Portugal muito pouca coisa que pudéssemos ler, sobretudo se tivermos como termo de comparação o excesso que hoje existe. Lembro-me de irmos com a minha avó a uma papelaria chamada Perdiz na rua onde morávamos e de o senhor nos aconselhar, a mim e ao meu irmão mais novo, algumas leituras. Num dos últimos sábados, recordei, de resto, com detalhe uns livrinhos de capa cartonada ali comprados, que eram uma série de biografias de homens e mulheres ilustres, destinadas sobretudo a rapazes, mas que – provavelmente por as preferir às histórias que me cabiam em sorte – também eu li na infância. E dessa colecção faziam parte Pasteur ou Marie Curie, mas também os presidentes Washington e Lincoln (tenho ideia de que eram traduções de edições americanas). Ora, foi justamente por ter ido nesse sábado ver o filme de Spielberg, Lincoln (gostei muito), que de repente me vieram à memória algumas coisas que lera nesse velho livro do meu irmão (salvo erro de capa arroxeada) e comecei a tentar compor na minha cabeça a colecção completa. Tive então, sei lá porquê, saudades desse tempo em que a avó nos levava à Perdiz e tudo parecia mais fácil, especialmente porque éramos pequenos e das dificuldades se ocupavam naturalmente os crescidos. E, de repente, perguntei-me se hoje os miúdos ainda lêem biografias de gente inspiradora (que também são contos de proveito e exemplo) e têm ídolos que não sejam figuras de duas dimensões retiradas dos ecrãs de TV e dos jogos da PlayStation.
Não tenho qualquer dúvida que os tempos são outros, claro que não lêem biografias de gente inspiradora, claro que, a maioria, passa os tempos na PlayStation, claro que a maioria não lê nada de nada, mas é assim, os tempos são outros e efectivamente não se pode parar o tempo com as mãos...certamente outras mais valias terão que nós não tivemos, sobretudo a facilidade de lidar com as novs tecnologias -uma absoluta mais valia- quer se queira quer não.
ResponderEliminarApesar de um ser um pouco mais nova do que a Maria do Rosário Pedreira - ainda não cheguei aos 30 - recordo-me perfeitamente desses livros, se é que estamos a falar dos mesmos.
ResponderEliminarRecordo-me de ter chegado a eles porque uma professora de português ocupava uma das aulas semanais com uma leitura em voz alta e que o livro escolhido tinha sido uma biografia ficcionada da Florence Nightingale. Achei a história interessante, olhei com atenção para a capa, decorei o nome da editora e na próxima edição da feira do livros de lisboa, lá andava eu atrás do livro. No quiosque da editora, encontrei alguns (poucos) da colecção "Quer saber?" em promoção, já como fundo de catálogo e comprei do Pasteur, Beethoven e Marie Curie.
É muito pertinente o seu post, como aliás quase todos, a fazer-nos pensar na necessidade de atrair as crianças para as histórias de vidas de pessoas que em diversas áreas foram grandes marcos da história, à semelhança do que a MRP fez recentemente com a Amália.
Muito obrigada por esta viagem no tempo que me permitiu recordar aqueles três livros que lá tenho em casa religiosamente guardados.
A capa do livro da Florence Nightingale pode ser vista aqui: http://catalogo.bmel.pt/plinkres.asp?Base=BMG&Form=COMP&StartRec=0&RecPag=5&NewSearch=1&SearchTxt=%22AU%20Livraria%20Civiliza%E7%E3o%2C%20trad.%22%20%2B%20%22AU%20Livraria%20Civiliza%E7%E3o%2C%20trad.%24%22
Nós íamos à Feira do Livro e tínhamos rédea solta para comprar os livros que quiséssemos (além dos que a Mãe punha numa lista de obrigatórios). Era como um rally paper anual que eu e a minha irmã fazíamos com a cara mais alegre deste mundo. Na verdade, aqui em Portugal, não havia grande escolha tirando a Feira do Livro. Valia-nos as viagens do meu Pai e o chegar sempre carregado de livros para cada uma denós. Os meus favoritos eram, realmente, aqueles sobre personagens históricas (coleccionei tudo o que havia sobre o Marco Polo, até crescer e usá-lo na tese de mestrado) e invenções da humanidade.
ResponderEliminarGostei muito deste texto.
Que bom ter-me feito recordar as visitas à Feira do Livro da minha adolescência ! O gosto com que eu me atirava às tardes de caçada, avenida acima avenida abaixo, de livros baratos e interessantes. Era um rito de Primavera aguardado com alguma ansiedade (contava os dias que faltavam para a inauguração). Na primeira ronda fazia a seleção dos stands, assentando números e localização, aproveitava para pedir os catálogos das editoras que me interessavam. Depois fazia uma pausa em banco de jardim para analisar em detalhe a informação recolhida e planear o percurso da segunda renda de modo a fazer um uso equilibrado do dinheirinho que tinha no bolso (começava por comprar os livros com a classificação de indispensáveis, depois se veria aonde chegariam os escudos que sobravam). E isso era só a estratégia da primeira vez que ia à feira porque regressava várias vezes com os olhos posto no "livro do dia" (por vezes anunciados previamente nos jornais). A velhice tudo transforma: agora nunca memorizo quando a Feira do Livro abre e encerra e só lá vou à noite...
EliminarAinda tenho o do Pasteur, de capa cor de laranja com uma moldura de arabescos.
ResponderEliminarLembro-me de dois livros que me marcaram bastante. Ainda os tenho, estão na casa da aldeia, para onde foram os livros que os meus irmãos e eu lemos na infânica e adolescência. Um deles, 'Vidas de grandes mulheres', foi comprado na papelaria da minha rua, onde eu adorava ir porque, para além de material de escrita e desenho, havia livros juvenis, banda desenhada, e os 'tios Patinhas' ainda em português do Brasil. O outro, publicado pela Verbo Juvenil, integrava uma colecção que, se não estou em erro, se intitulava '15 vidas de...'. Ofereceram-me as '15 vidas de grandes Mulheres'. Entre um e outro pude conhecer tantas biografias de mulheres... Escritoras, cientistas, religiosas,rainhas, missionárias, sufragistas, artistas, etc. O meu irmão teve direito a '15 Grandes Exploradores', que também li. Ontem fui ver Lincoln ' (gostei muito do filme) e lembrei-me, nas cenas em que o presidente conta histórias cómicas, da biografia que li em miúda numa dessas edições juvenis, do escritor Mark Twain , também ele famoso por contar boas anedotas! Tive saudades desses tempos e desses livros, das lombadas, das cores e das ilustrações...
ResponderEliminarPenso que hoje as solicitações da tecnologia desviam os miúdos da leitura, o que é pena...
Marta (45 anos)
Um destes fins de semana vou confirmar: também tenho esses livros na aldeia, misturados com os mais de três mil que herdei do meu pai, alguns já herdados por ele, mais os infantis das minhas filhas e outros que para lá levei entretanto. Lembro-me das capas coloridas, salvo erro com um riscado vertical. Será? Anos 50 ou 60, não mais.
ResponderEliminarMR , pelo menos no espaço infantil Zig Zag da RTP 2 temos emitido uma rubrica chamada biografia onde temos tentado contar a história da vida de muitas figuras portuguesas e do mundo.E olha que com bastante sucesso. E tencionamos continuar.Um abraço,Teresa
ResponderEliminarPeço me desculpe o atraso…
ResponderEliminarNão concordo mesmo nada consigo!
Tenho uma estante cheínha de umas centenas de livros infantis e juvenis, que vêem desde a minha mãe (nascida em 1933)... Júlio Verne, Salgari, Condessa de Ségur e tantos autores de obras que eram na época leitura para crianças e jovens, Dumas, W. Scott, Pinheiro Chagas, e claro Júlio Dinis! E já do meu tempo e de minha irmã mais velha, tantas colectâneas de várias Bibliotecas dos Rapazes, e das Raparigas, de diversas editoras e edições da Verbo Juvenil, além da inevitável Enid Blyton e da Odete de Saint-Maurice, a série Brigitte… sei lá, são centenas, repito!