Livros com bichos
Todas as crianças gostam de ler livros com bichos, é um facto. E não falo apenas de fábulas, mas de histórias que, no fundo, são sobre pessoas que tomam o corpo de ursos, patos, cães e gatos, representando o papel de pais e filhos humanos na perfeição. Mas não são esses que hoje contemplo neste post; falo – isso, sim – de obras maiores que, mesmo usando os animais como personagens, são alegorias das sociedades humanas e só podem ser inteiramente entendidas por adultos ou, vá lá, adolescentes mais ou menos despertos para o real. O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, é o melhor exemplo que conheço, e tenho a certeza de que todos os leitores deste blogue sabem do que se trata, pelo que não me alongarei com explicações desnecessárias. Porém, publiquei há uns anos uma trilogia intitulada As Crónicas do Corvo (A Revolta; A Peste; O Julgamento), de Clem Martini (se não me engano, um autor canadiano), que era verdadeiramente aliciante para leitores novos e velhos e passou, ao que sei, bastante despercebida. Tomando bandos de corvos inimigos (as gralhas também ajudam) e descrevendo as migrações forçadas e os regressos à pátria, as revoltas e a luta pelo poder, as questões morais e a crise de valores, estes três livrinhos revolucionários valem muito a pena e podem até ser vistos como uma introdução à política para os adolescentes. Na minha juventude, a obra deste tipo que mais se lia era o mais xaroposo Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, cujo sucesso mundial justificou inclusivamente uma adaptação cinematográfica com banda sonora de Neil Diamond. Tudo livros que falam das coisas sérias dos homens vestidos com pele de bichos.
Lembro-me de ter ficado fascinado com os bichos do Miguel Torga, surpreendi-me a mim mesmo ao constatar que essas leituras foram algures no século XX...
ResponderEliminarPor coincidência, vou agora mesmo à biblioteca requisitar um livro que me recomendaram e sei que existe lá. Outro que me recomendaram, com o qual fiquei muito curioso, mas que a biblioteca não tem e não faço ideia se um dia conseguirei encontrar chama-se "o piolho viajante". Não deixa de ser um bicho, pois não?
Bom fim-de-semana,
Rui Miguel Almeida
Pode ler O Piolho Viajante aqui
Eliminarhttp://pt.wikisource.org/wiki/Anexo:Imprimir/O_Piolho_Viajante
Muito obrigado!
EliminarJá agora... O aventuroso O Deus das Moscas, de William Golding; a prece Por Favor Não Matem a Cotovia, e a sequência óbvia, Mataram a Cotovia, ambos de Harper Lee; o impenetrável Memória de Elefante, de Lobo Antunes e a certeza Os Elefantes Não Esquecem, de Abel Coelho, são apenas exemplos, os dois últimos engraçados pois os próprios autores acumulam nomes de animais.
ResponderEliminarTudo isto só prova que não somos assim tão diferentes deles.
ResponderEliminarE o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
ResponderEliminarNo alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!
P(ess)o(a)e
Já agora, talvez valha a pena acrescentar, para quem não saiba, e não será esse seguramente o caso do Paulo Oliveira, que esta estrofe é uma tradução do poema "The Raven" do Poe, quiçá a descrição poética mais inspirada da depressão.
EliminarOuso transcrever a tradução integral do poema de Poe feito pelo FP.
O CORVO *
(de Edgar Allan Poe)
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu queria a madrugada, toda a noite aos livros dada
Para esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
EliminarPara dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demónio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a
Peço desculpa pela minha má decisão de fazer a transcrição completa do poema que ocupa demasiado espaço no blog. Teria sido mais inteligente da minha parte simplesmente transcrever o endereço onde o poema está disponível na rede. Não voltará a acontecer: respeitarei o limite de palavras de cada post.
EliminarÉ isso. Para bom entendedor , uma estrofe basta.
EliminarSem desprimor para os sapos, os meus favoritos são os gatos.
ResponderEliminarCreio, porém, que na Literatura há poucos.
Na poesia – porque são propícios, macios, misteriosos – vamos indo, lá encontramos alguns.
Sophia deu a um livro de poemas o nome do seu gato – Coral.
E sobre a curiosidade de Coral escreveu:
Ia e vinha
E a cada coisa perguntava
Que nome tinha.
Mas, diz-me a experiência, quem melhor captou o enigma que eles guardam foi Alexandre O’Neill:
Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?
Temos este poema encaixilhado na cozinha, junto com uma reprodução de um quadro mostrando um gato (tal e qual a nossa Nikita, a mais velha das quatro) que, com a sorrateira pata, rouba um croquete de uma travessa sobre a mesa dos distraídos donos, seus servos.
Manuel António Pina era igualmente um poeta apaixonado por gatos. Confesso a minha ignorância, não sei se escreveu sobre eles. Mas deixou-se fotografar com eles, por isso sei que os amava ;)
EliminarEstava também a pensar no Pina e neste curto poema:
EliminarOs gatos
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos.
Sim, Cristina e Artur – os gatos fazem parte indissociável da identidade de M.A.Pina.
EliminarE este poema de Pina, se formos a ver, verso a verso, está no mesmo registo daquele do O’Neill.
É o misterioso comportamento dos gatos – que parecem ser a morada de uma obscura força – que, desde os nossos primórdios, nos encaminha para o seu endeusamento.
Não por acaso, ambos os poetas se referem a isto.
É porque os gatos – morada de uma obscura força, cúmplices de um medo ainda sem palavras, sem enredos – governam o mundo efémero onde estamos de passagem, onde somos intrusos, bárbaros amigáveis.
Mas isto – este mundo efémero onde somos intrusos, esta obscura força que nos mantém sem palavras, sem enredos, apenas com nervos, ausências, pressentimentos – tem sido por nós abordado, timidamente, metaforicamente, clandestinamente, conspirativamente apenas na poesia.
E a restante Literatura?
Não é, afinal, sua obrigação vencer aquele nosso ancestral medo ainda sem palavras, sem enredos?
Não (nos) alcança ela a maneira de ultrapassar a barreira que a (nos) separa daquele mundo efémero em que somos intrusos, onde estamos de passagem?
Afinal, como é?
Não descobriu ainda a Literatura como decifrar o deus único e secreto que existe em cada gato inconcreto?
Por outras, rudes palavras: continua a Literatura a dar-se por satisfeita apenas com o pueril Gato das Botas?
(Declaração de interesses: escrevi este texto com a Nikita e a Maya no meu colo, enquanto, conspirativamente, ouvíamos Pink Floyd, The Dark Side Of The Moon)
Cara Cristina
Eliminarveja, por favor, aí abaixo, o comentário que faço a propósito do poema do Pina, propositadamente proposto pelo Artur Águas.
Belo texto sobre gatos, poesia e as várias formas de escrita, algumas indevidamente apelidadas de literatura !
EliminarCaro Joaquim
Eliminarjá li tudo. Ainda bem que o Artur Águas trouxe para aqui o poema de M. A. Pina. E fico, mais uma vez, a pensar que não estamos assim tão longe dos outros animais. Fomos criando uma grande civilização, com uma tecnologia fantástica (ou não seria possível estarmos aqui a "conversar"). Mas, no fundo, somos tão frágeis como todos os animais. Nunca dominaremos as forças da Natureza, estamos à sua mercê.
E ainda não tinha lido o Mar dos Aflitos, ali mais abaixo ;)
Eliminarpois eu que sou de gatos e os entendo, gostei dos poemas de O'neill e Manuel Pina. E agradam os poemas mais que os links. Bebe neles a vista e descansa a alma. E o poema de Poe está muito bem, um comboio de mercadorias cheio de flores perfuma a linha onde passa. Obrigada.
ResponderEliminarBFS
Aos livros com bichos - Corvos, Porcos, Jibóias, somos bichos em alguns momentos e talvez, por isso o tenhamos de pagar - respondo com o Mar dos Aflitos.
ResponderEliminarVivemos novamente o mar dos aflitos;
A espuma cruza este nosso navio
Repousando a quilha entre o fundo e o infinito.
A verdade corre o nosso convés
Nem por isso nos fazendo arrepiar caminho.
Mas a cada onda o mar destapa,
Varrendo as amuradas,
Os dejectos,
De que não nos soubemos aligeirar,
Impendendo sobre os nossos conveses,
A tragédia,
Como um descartável lastro
Que nos fixa ao fundo.
E no cesto da gávea,
O capitão afunda-se intranquilo
No seu próprio medo,
Como um aprendiz de marinheiro
A quem lhe falta mão no leme
E peso na âncora,
Temente de fazer cruzar a barca
Por mar tão pouco chão
E tão pouco clemente,
Aos nossos olhos.
Clemência, a nós?,
Que açoitamos tanto,
E tão impiedosamente a natureza
Merecendo castigo!
Gente boa do meu coração!!! Tenho estado afastado desta coisada toda!! (Com muita pena minha e vossa!!) Mas ando doido (depois explico melhor). Estou a fazer um facebook só para material literário ou quase: http://www.facebook.com/pages/J-M-Courinha/496420757065767 Desculpe tia, mas tinha que plug my business aqui no meio dos meus amigos espertos! Beijos a todos!
ResponderEliminarJá agora falo do que estou a ler: Magia. Um livro de poesia de Yeats de onde destaco este poema que nos envergonha a todos enquanto deixamos que a baba nos escorra pelo queixo:
ResponderEliminarI passed along the water's edge below the humid trees,
My spirit rocked in evening light, the rushes round my knees,
My spirit rocked in sleep and sighs; and saw the moor-fowl pace
All dripping on a grassy slope, and saw them cease to chase
Each other round in circles, and heard the eldest speak:
Who holds the world between His bill and made us strong or weak
Is an undying moorfowl, and He lives beyond the sky.
The rains are from His dripping wing, the moonbeams from
His eye.
I passed a little further on and heard a lotus talk:
Who made the world and ruleth it, He hangeth on a stalk,
For I am in His image made, and all this tinkling tide
Is but a sliding drop of rain between His petals wide.
A little way within the gloom a roebuck raised his eyes
Brimful of starlight, and he said: The Stamper of the
Skies,
He is a gentle roebuck; for how else, I pray, could He
Conceive a thing so sad and soft, a gentle thing like me?
I passed a little further on and heard a peacock say:
Who made the grass and made the worms and made my feathers gay,
He is a monstrous peacock, and He waveth all the night
His languid tail above us, lit with myriad spots of light.