Zona de conforto

Todos aqui sabem que trabalho maioritariamente com autores em princípio de carreira e, por isso, com obras de estreia – e essa é uma situação delicada, porquanto, se estou a lançar para o mundo um autor perfeitamente desconhecido, só posso realmente contar com a minha opinião. Tenho a consciência de que, apesar de ser uma leitora experiente e conhecer relativamente bem o mercado, há sempre um lado subjectivo na selecção que faço; e, portanto, de cada vez que ponho um destes livros «na rua», sinto um calafrio e muito receio de não acertar. Este ano, porém, dois dos autores que publico pela primeira vez – Carlos Campaniço e Cristina Drios – fizeram-me uma boa surpresa que me coloca, à partida, numa zona de conforto. O primeiro, enquanto eu revia as provas do seu romance, ganhou com ele (chama-se Os Demónios de Álvaro Cobra) o Prémio Literário Cidade de Almada, que é para inéditos; a segunda, de quem eu lera há cerca de ano e meio um pequeno livro de contos intitulado Histórias Indianas (que achei muito bonito, mas muito difícil de comercializar, daí tê-la estimulado a escrever um romance), ganhou também com essa colectânea o prémio «Novo Autor, Primeiro Livro» do Teatro do Campo Alegre. Assim, sabendo que há efectivamente mais gente a concordar comigo quanto à excelência destes autores, acabo por me sentir mais segura de que, pelo menos nestas duas opções, fiz o que devia. Um dia destes, falarei obviamente com mais pormenor nos livros de ambos.

Comentários

  1. Se há pecha que a MRP não tem é a da falsa modéstia; e também sabe muito bem o que vale e não tem pejo em falar disso. Estas duas ou três qualidades não são muito portuguesas, serão mais dos povos do norte da Europa, os que têm sucesso. Isto para dizer que não acredito que precise minimamente dessa zona de conforto para se sentir segura :). Apenas para sentir que o seu trabalho é devidamente valorizado, o que é imensamente humano.

    Os autores que escolhe, MRP, são todos bons. Mas às vezes gostaria de ser mosca para saber aqueles que não lhe foram agradando em todos estes anos e que no entanto também são bons (com sucesso ou não, isso é outra questão). Claro que saber nomes era coscuvilhice pura, também imensamente humana, mas o que aqui está em causa é que até imagino saber mais ou menos do que gosta mas não faço a mais pálida ideia do que não gosta.

    Os mesmos critérios que percebo serem da MRP (estrutura e linguagem originais, originalidade da linguagem, história bem montada e apresentada) poderiam, caso outros editores e com outros gostos tivessem capacidade para tal, aumentar os tipos de ofertas. Houvesse mais bons profissionais como a MRP.

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  2. Nestes tempos dificeis em que tudo parece fechar, desanimar, morrer, é bom ouvir que há qualquer coisa de novo que persiste em surgir, em nascer, em brotar ...em ganhar vida!
    ...ai, ai , essa dores do parto...

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  3. O trabalho da Rosário não é mesmo nada fácil.
    Este «postal» faz-me pensar na virtude maior destes posts , a de nos ouvirmos interiormente, para além da intenção secundária de arrasto de promover leituras como quem LeYa.
    Quando leio a Rosário vejo quase sempre só a divulgadora, a pedagoga, a poeta, não a editora ousada que gostaria eventualmente de o poder ser mais - a que o sol em cima das nuvens lhe permite.
    Poeta maior que é, e assalariada que «somos», perdoo assim este redireccionamento, e haverá alguma coisa a perdoar para além de «editar-se» pouco? Isto leva-me a pensar, como tantos, que se tem de replicar «Rosários» a outros nichos de interesses e tipos de leitura: nem sempre a poética interior nos convoca, ou a beleza estética de uma escrita mais hermética, burilada, vestida de saias com rendas, nos apela.
    O acordar para o real, também necessita de espaço, mau grado nos alienarmos mais facilmente num ficcional poético interior. Só mesmo nesse confronto poderemos valorizar a beleza.
    A massificação da escrita, a explosão de nichos, as novas formas de publicação, e-books incluídos, a sombra devastadora «Amazónica», para as editoras, pode rapidamente triturar grupos editoriais. Paradoxalmente, ou talvez não, nascem quase como cogumelos - hoje mais lentamente, que os ambientes estão mais secos.
    A escrita hoje tornou-se cada vez mais um produto descartável, um quase colectivo despido de autoria que absorve tudo e todos por osmose – a escrita hoje parece cada vez menos uma expressão do individual e cada vez mais um síntese do colectivo. Nessa perspectiva o olhar do editor já não descortina grande virtude numa escrita, que não seja quase um novo abrir de caminho. A percepção tida é a de que um autor para ser hoje considerado autor fora de si, necessita de ser um escalador de degraus, uma espécie de «cortador» epistemológico de 1º grau.
    O problema para os autores, hoje, já não é (só) assim tanto a divulgação - que é, quer se queira, quer não, a suprema motivação da necessidade de afecto e reconhecimento humano, mas a atenção pela diferenciação, seja esta consequência de uma precocidade de género, de genialidade, de uma estrelinha, ou de uma máquina orientada bem oleada.
    No limite, os autores podem aspirar a um reconhecimento tardio como Rentes de Carvalho, ou à ressurreição em morte.
    E essa, é outra forma, de habitar uma zona de enorme conforto.

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  4. A MRP está para os livros como os técnicos da academia do Sporting para o futebol: descobrir talentos. Só que isso não chega, o talento, apenas, não nos leva longe. Vem a-propósito de bons livros que não chegam ao grande público por mera falta de divulgação. Está bem claro na Clarabóia de Saramago: só há pouco chegou ao público e só foi possível porque, entretanto, se tornou famoso, graças à Ed. Caminho. Tenho a certeza de que se aparecer alguém desconhecido com um texto daqueles, não haverá editor interessado. Por isso, faz falta uma MRP que aposte em obras distintas e de qualquer autor, desde que seja susceptível de servir o leitor e a cultura lusófona. Gostei tanto de Clarabóia e certamente não fui só eu o "atrasado"...

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  5. Reparei que, no caso do Campaniço, foi aceite a sua obra pela MRP, estando esta a rever as provas na altura em que foi atribuído ao autor um prémio; no caso da Cristina, não foi bem assim: as Histórias Indianas - que é uma colectânea de contos - não entrou no gosto da Rosário, pois tratava-se (ou trata-se ainda) de um livro difícil de comercializar, o que não impediu esta autora de ganhar um prémio literário.
    Como se verifica, nem sempre se acerta. Provavelmente o Histórias Indianas será mais comerciualizável do que o romance que entretanto a autora depositou, desta vez com agrado, nas mãos da Rosário.
    Há coisas que nos parecem ser sem o ser...

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  6. Mesmo as pessoas competentes e confiantes gostam de sentir que o seu trabalho, as suas escolhas, são as mais corretas!

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  7. Aposta em novos autores é sempre fora da zona de conforto. Mas as apostas que conheço da MRP, são devastadoramente boas. Pergunto-me às vezes se outros editores leram e não viram a qualidade. E porque já ouvi o Zé Luís Peixoto falar disso, sei que, pelo menos no caso dele, viu recusado o seu trabalho. E não uma vez.
    Mas deve haver um crivo a que se interroga a malha enquanto se espera pelo sucesso da aposta. Acredito.
    Se cada um dos autores recebeu um prémio literário, talvez que lá no fundo uma vozita a afogar reticências e temores de malha larga (ou outros), eu sabia, eu sabia...
    BFS

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  8. Não está em causa o trabalho e as escolhas da Dra. Maria do Rosário Pedreira, porque se eu pensasse assim, dizia-o. Mas, ou é impressão minha, ou tenho a impressão que há livros que só vivem de prémios. O prémio, "per si", é sinonimo de qualidade. Prémios e mais prémios. Prémios para lá e para cá. Parece que há um círculo de "qualidade" que se lê a si próprio em circuito fechado, e que se adora a si próprio. É como dizem os suecos: “os adoradores dos adoradores”.

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