A língua da música
Todos os autores adoram ver os seus livros traduzidos noutras línguas e a circularem pelo mundo. A internacionalização chega a ser, de resto, chave para o sucesso no país em que os autores foram originalmente publicados, mais ainda se estivermos a falar de Portugal, onde, sei lá porquê, tendemos a dar sempre mais importância ao que se diz lá fora. Não sei se os romancistas portugueses acompanham a par e passo as traduções dos seus livros – imagino que não o possam fazer com certas línguas como o sérvio ou o japonês – mas tenho ideia de que o façam, pelo menos, com as línguas que conhecem; contudo, estou convencida de que nunca as acham tão «estrangeiras» como os poetas quando lêem as traduções dos seus poemas. Quando escrevo uma letra para um fado, por exemplo, faço-a com uma determinada música na cabeça, que não é obviamente a que ouvirei depois; e, mesmo que o resultado final (letra + música) seja francamente melhor do que o que estava na minha cabeça, há sempre uma espécie de desconforto inicial por causa dessa disparidade. Assim também, sempre que verifico traduções de poemas meus, a impressão é estranha, porque, ainda que tudo bata certo em termos do sentido, que não haja realmente nada a criticar, basta um verso mais comprido do que o original para fazer do poema outro poema completamente diferente. Porque a música também muda de língua para língua.
Eish... mais um post para os nacionalistas cavalgarem o toiro, esfarraparem os joelhos até Fátima e aclararem a garganta na defesa do cante. Vou esperar pelo Tsunami (tomem lá um estrangeirismo que já almoçaram!) de murros no peito verde e vermelho e já cá venho para a briga!
ResponderEliminarJá agora, antes que me acusem de falta de amor ao que se passa no interior de uma qualquer linha definida há alguns séculos atrás, acuso-vos eu lassa dispersão de amor! Ah pois! Alguns são Europeus, maganos dum raio que não amam o país, outros são nacionalistas maganos dum raio que não amam a cidade (vou abandonar agora a parte dos maganos, uma vez que já se percebeu a ideia), outros ainda são Lisboetas ou Eborenses, há os que se definem como freguesianos , temos também os desvelados amantes do seu bairro (os criminosos são pródigos nesta modalidade). Eu fui mais fundo, mais cultural que bócêzes todos juntos, mais apaixonado por determinada delimitação geográfica, tornei-me amante do meu quarto. Infelizmente no meu quarto só há duas opiniões, sendo uma delas feminina e como tal subjugada à minha (esta parte é só para enervar ainda mais), assim, tenho a dizer que, no meu quarto, a corrente mandante consiste em procurar a qualidade no mundo, sem barreiras artificiais, sem a veleidade de achar que em dez milhões se produz tanta ou mais magia do que em sete biliões. Eu gostava de pensar de outra maneira, mas tenho que ser fiel à tradição que sempre conheci, no meu quarto, entenda-se.
ResponderEliminarAmigo Courinha , deixe-se de mari ... deixe-se de medos e meta-se num avião.
EliminarJoão:
Eliminar«linha definida há alguns séculos atrás»
pois
linha definida há alguns séculos adiante seria difícil, impossível mesmo.
Escritor também é redundante às vezes.
Claro! Então não é uma figura de estilo? Não estava a ser redundante, mas antes pleonástico que tem muito mais estilo. :D
Eliminar1- Confesso que nunca tinha pensado em como se escreve um poema destinado a ser letra! E menos ainda que se escrevia com "a música na cabeça". Mas faz sentido se pensar que um fado, ou canção sobretudo se num dado género tão específico (e lembro-me do blues por exemplo), seja um poema com música!
ResponderEliminar2- Atrevo-me a acreditar que a tradução pode ser dolorosa para o autor! Porque se há que buscar sobretudo o sentido, tal pode alterar detalhes como a rima, e, com todo o jogar de palavras que o autor usou. Afinal escrever poesia é fazer malabarismo com as palavras, não é?
3- Mas se calhar depende muito da qualidade do tradutor, será? Traduzir um romance é capaz de ser muito mais simples, mas para um poema se calhar convém que seja um poeta?
Estes posts são interessantes! Põem-me a pensar naquilo em que normalmente não penso, confesso.
Saudações do campo do bairro ribatejano!
No que respeita à poesia, há quem diga "verter" em vez de "traduzir". É sempre uma recreação, e tal como há poemas que perdem com a "tradução", por certo que com alguns acontecerá o contrário. Verter poesia entre línguas deve ser uma atividade fascinante.
EliminarVerter... é um termo poético! Não acha?
EliminarE bonito, melhor do que traduzir, sem dúvida porque traduzir dá-me a sensação de que só se transcrevem palavras, verter dá-lhe um outro sentido!
Grato pela sua observação!
Pode até ser uma recreação, mas eu queria dizer recriação. Quem diz verter (Poemas Vertidos...) é Herberto Hélder: poético, certamente.
EliminarA música da Língua!... Também por vezes me desiludo quando ocasionalmente acedo aos originais escritos por autores estrangeiros que conheci já traduzidos.
ResponderEliminarA língua da música, a melodia.
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