Maturidade

Há muitos anos, mais de vinte, traduzi um livro absolutamente notável de Primo Levi. Tinha o italiano ainda fresquinho e disponibilidade para me dedicar a um trabalho moroso e mal pago nas poucas horas que tinha livres. A obra chamava-se O Sistema Periódico e foi publicada no início dos anos 90, numa altura em que os romances de Levi fizeram sucesso (o lançamento do livro foi, de resto, no Instituto Italiano em conjunto com o de Se Isto É Um Homem). Recentemente, foi decidido reeditar esta autobiografia que se lê como um livro de contos, usando a minha velhinha tradução. E, porque tenho amor à pele, pedi um tempo para a rever com mais vinte anos de leituras e vivências em cima. E ainda bem: porque, apesar de o revisor ter dito que estava óptima, a verdade é que encontrei bastantes marcas da minha falta de maturidade, a maior das quais ter tido medo de usar a palavra «judeu» no livro inteiro, usando em vez dela «hebreu» porque os italianos usam «ebreo»... E, entre outras parvoíces, deixei Richiamo alla Foresta numa passagem que falava justamente de uma personagem de O Apelo da Selva, de Jack London. Claro que muita gente acha que o livro deveria chamar-se A Tabela Periódica, e não o Sistema – e pensam que isso foi também má tradução; mas a verdade é que se Levi quisesse ter-lhe chamado «Tabela» tinha a palavra italiana para tal. Não sei se, desta feita, ainda ficou muita coisa imperfeita, espero que não. Em todo o caso, deu para ver que envelhecer tem um lado positivo, afinal de contas. Do livro falarei um dia destes, quando estiver à venda.

Comentários

  1. Cara MRP,

    Tem toda a razão quanto ao título. Tabela Periódica e Sistema Periódico não são a mesma coisa. A Tabela Periódica não passa de uma tabela onde os elementos químicos são dispostos de acordo com um conjunto de teorias/perspectivas/pressupostos que formam o Sisstema Periódico.

    Infelizmente, ainda não li esse livro de Primo Levi, mas o autor era químico e sabia muito bem dessa diferença. Diga-se, aliás, que o título que ele escolheu parece-me ter muitas mais potencialidades que o de Tabela Periódica.

    Nuno Serrano

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  2. vinte anos é realmente muito tempo.

    (nesse tempo onde andaria a poetisa?)

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  3. Que grande surpresa! Desconhecia que a Maria do Rosário Pedreira também era tradutora. Safa! Que mais competências tem guardadas na manga, hein?:)
    Excelente novidade! O Primo Levi é um dos escritores que mais me marcaram. É impossível ficar-se igual após a a leitura da trilogia composta pelos "Se isto é um homem", "A Trégua" e o "Os que sucumbem e os que se salvam". Gostei particularmente deste último porque faz uma análise muito lúcida dos mecanismos que possibilitaram e existência daquele horror. Sempre me intrigou a chamada "zona cinzenta". E ele analisa-a muito bem. Infelizmente o livro não perdeu atualidade : o mundo continua com muitas zonas dessas.

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  4. Este post recordo aquele programa em que na vinheta suspiram e dizem: Ah! Literatura...


    Ah! Maturidade...




    Um bom descanso a todos! Ah, sexta-feira.

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  5. Claro que envelhecer tem um lado positivo. Tem vários. Cito Tenessee Williams: "Em vez de aproveitarmos a sabedoria da idade para resolvermos os nossos problemas, transformámos o envelhecer em problema".

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  6. Adorei ler este post.
    É uma aula de edição, edição literária e, acima de tudo, de humildade, de reconhecimento de erros que se cometeram. Não é comum os autores (os tradutores também são autores) classificarem as suas próprias acções como parvoíces, ainda que as possam emoldurar na inexperiência. Por norma os autores não se classificam a si próprios como 'inexperientes' mas referem-se antes a 'uma fase da sua escrita' ou da sua vida onde, obviamente, não há lugar para parvoíces, louvados sejam!
    Sabermos rir de nós próprios é um sinal de inteligência de pura. Parabéns.

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    Respostas
    1. Para conseguir fazer este reconhecimento é necessário saber muito, é preciso muita, muita experiência mas fundamentalmente muita sabedoria e claro, ter nos genes a humildade qb

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  7. O melhor livro do Primo Levi!

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  8. Já li o livro duas vezes, o que não é muito comum em mim. Não me apetece comentá-lo, só digo que quem não o leu está a perder uma obra do outro mundo. Essa de as traduções serem um trabalho mal pago devia ser transmitida ao tradutor da Chiado Editora, que me pediu 8000 euros para traduzir 200 páginas. Agora vou de viagem, logo à noite escrevo mais, para gáudio das vossas pessoas.

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  9. António Luiz Pacheco20 de abril de 2012 às 09:12

    Sei que é um assunto sensível, mas a tradução é fundamental para a apreciação da obra.
    Eu dou-me ao trabalho de anotar, entre outras coisas, comentários à tradução, em que há frequentemente asneiras e grandes!
    Não sei se a razão é por serem mal-pagos , ou por ignorarem a sua falta de saber, se por falta de senso e traduzirem à letra, não pelo sentido.
    Se calhar essa é a grande diferença entre ser Mª R.P . a traduzir, ou um atrevido qualquer que fala uma língua!

    Nos livros temáticos, essa diferença faz-se notar ainda mais, e creio que há autores (Hemingway?) que serão mais difíceis de traduzir que outros. A tradução da sua obra "Verdade ao amanhecer" (D. Quixote) é das mais ruins que já me apercebi, feitas a este autor!

    A este propósito, não posso deixar de citar a excelente tradução de "John Carter" (Saída de Emergência) feita por João Seixas, que leva o seu interesse e profissionalismo ao ponto de nos dar uma belíssima introdução à obra e a Edgar Rice Burroughs .

    Uma mais valia, que julgo as editoras deveriam seguir, quando se trate de autores clássicos, com vasta obra e de culto. Isto sim seria cultura!
    Penso que Primo Levi estaria nessas condições por ser uma figura de grande interesse!

    Enfim, penso eu...

    Bom fim de semana!
    Amanhã vou até à cidade, enfim... Oeiras!

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  10. Há pouco tempo um ortopedista dizia-me que ainda não tinha encontrado uma única coisa positiva na velhice. Fiquei desconcertada e sem resposta. Mas tenho pensado nisso quase todos os dias, desde então, e acho que há muito de positivo no passar dos anos - biologicamente está comprovado que podemos continuar a aprender, pelo que vamos sabendo mais e melhor e se soubermos tirar partido disso podemos viver a vida com mais serenidade, creio (talvez seja a tal maturidade de que fala).
    Quero felicitá-la pela franqueza com que nos revela as suas fraquezas. Só alguém forte o saberia fazer assim.

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  11. Cuidado,olhe que quanto mais maduras mais imperfeitas nos achamos...

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