Un chico Almodóvar

Gosto muito do cinema de Pedro Almodóvar, embora nem todos os seus filmes me tenham deliciado do mesmo modo. Há, porém, na sua obra uma característica que me agrada especialmente e que se prende com a dignidade que consegue emprestar a figuras que, à partida, estariam nas margens e seriam desqualificadas pela maioria de nós – entre outras, o travesti de Tudo sobre a Minha Mãe e o enfermeiro que tem relações sexuais com a bailarina em coma em Fala com Ela (e de quem não conseguimos deixar de gostar). Encontrei há uns meses num romance de Juan Marsé, Rabos de Lagartixa, um adolescente que faria as delícias do realizador; mas há um autor português que consegue a proeza de Almodóvar com as suas personagens, trazendo para o «plateau» duas mulheres-a-dias irresistíveis em O Apocalipse dos Trabalhadores, um garoto pobre de espírito que perdeu a mãe e pinta céus para ver se a encontra em O Remorso de Baltazar Serapião (Prémio Literário José Saramago) ou, mais recentemente, uma prostituta anã e um «homem maricas» perdidos da vida em O Filho de Mil Homens. Como disse o humorista Pedro Vieira num post do seu blogue Irmão Lúcia, «ninguém como ele maneja a insustentável leveza da crueldade». Chama-se valter hugo mãe e, até há uns meses, não usava maiúsculas. Mas é para ler com todas as letras. O nosso chico Almodóvar.

Comentários

  1. Juan Marsé foi uma boa descoberta: "Rabos de Lagartixa" e o "Feitiço de Xangai"! Espero agora pela edição portuguesa de "A Caligrafia dos Sonhos":)

    Cristina

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  2. E tudo, penso eu, porque Valter Hugo Mãe consegue não deixar de ser menino, com tudo o que isso acarreta. Ser menino é, também, ter uma crueldade ingénua que apenas os "grandes artistas" conseguem manter ao longo da vida e, com isso, revolver a meninice que vamos, fomos, perdendo ao longo da nossa civilizada vidazinha.
    Leiam-se igualmente as suas crónicas. A do último JL, por exemplo.
    valter hugo mãe é VALTER HUGO MÃES.

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    1. E tudo, penso eu, porque Valter Hugo Mãe consegue não deixar de ser menino, com tudo o que isso acarreta. Ser menino é, também, ter uma crueldade ingénua que apenas os "grandes artistas" conseguem manter ao longo da vida e, com isso, revolver a meninice que vamos, fomos, perdendo ao longo da nossa civilizada vidazinha.
      Leiam-se igualmente as suas crónicas. A do último JL, por exemplo.
      valter hugo mãe é VALTER HUGO MÃE.
      )Peço desculpa mas tenho o defeito de publicar sem rever. Daí o S a mais)

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    2. Obrigado Joaquim Gonçalves - é que às vezes pensava para mim mesmo (envergonhadamente), continuo a ser um menino!

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  3. Caríssima ana b.

    Que feliz coincidência, não parece que este post foi feito à nossa medida? Ainda há 2 dias falávamos do hugo valter mãe!!!
    Sim, ele é definitivamente nosso!!!
    Isabel

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    1. Caríssima Isabel.

      É verdade! Que grande coincidência! Ou não...:) Se calhar, a nossa Anfitriã inspirou-se nos nossos comentários. Eheheheh .

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    2. ups! Já inventei outro nome ao VALER HUGO MÃE!

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    3. ups!!! Já inventei novo nome ao VALTER HUGO MÃE. Mil desculpas.
      Isabel

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    4. Cara ana b.
      Sendo assim, quem sabe se um dia não teremos um post sobre o "nosso" Mia Couto (ou Couto Mia, eh!eh!eh!).
      Ana b. o seu entusiamo pelo VHM reflecte-se de tal forma no seu texto que, sinceramente, se não o conhecesse já, teria de procurar rapidamente os seus livros.
      Isabel

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    5. A propósito do Mia Couto -na Feira do Livro do ano passado perdi a vergonha e, cara a cara, disse ao Mia Couto: o meu amigo é um escritor extraordinário, extraordinário, e ele, qual cara de menino: não exagere, não exagere.

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    6. Bem vejo que também gosta do Mia Couto. Que bom que tenha perdido a vergonha. Ele é genial, ele é genial!!!
      Isabel

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    7. Isabel: e que me diz do Philip Roth?

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    8. Caro Aseverino
      Tinha em casa 2 livros por ler, e tinha de começar nova leitura ontem. Sabe que mais? acabou por me dar um empurrão: "O feitiço de Xangai" de Juan Marsé terá de esperar, já que peguei em "a conspiração contra a América" de Philip Roth.
      Obrigada pela dica. Até porque aquele início é completamente envolvente. Estou a gostar.
      Isabel

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    9. Do Philipp Roth ainda não li um de que não tivesse gostado (muito); os dois últimos então são uma maravilha (HUMILHAÇÃO (uma pérola) e NEMESIS").

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  4. "O remorso de baltasar serapião " é um livro maravilhoso.
    As crónicas do vhm no JL são excelentes.

    Quanto ao Marsé estou a ler e a gostar de "Caligrafia dos Sonhos". Se tudo correr bem, irei falar com ele no fim do mês.
    Depois conto...

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    1. P.S também gosto do Almodovar. Conseguiu criar um universo próprio. Os filmes têm a marca do seu autor.

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  5. Bem visto , sim senhora!
    Confesso que nunca tinha feito essa associação mas, de facto, ambos são muito parecidos na forma como tratam as suas personagens. Fazem-no sempre com imenso carinho e afeto . E em ambos, o humor tem um papel essencial Embora essa característica seja unanimemente reconhecida nos filmes do Almodôvar, não é tão apontada na escrita do VHM . E eu acho que ele tem imenso humor. As cenas da Maria da Graça e da Quitéria, durante os velórios, no Apocalipse dos Trabalhadores, são típicas dos filmes do Almodôvar Acredito que ele adoraria filmá-las. Trata-se de um humor ternurento, que não ridiculariza. Antes, enaltece o personagem, humaniza-o. É essa capacidade que o VHM tem que me faz gostar tanto da sua escrita. Que me encanta, deveras!
    As suas crónicas são também magníficas. Leio-as sempre com imenso prazer; é a primeira coisa que leio mal abro o Jl. Deliciosas, todas! Desde o Salaõ Erótico de Gondomar, à duvidosa aurora boreal da Islandia, passando pelo crónica em que ele descreve o seu desapontamento pelo desaparecimento de um dos seus grupos musicais favoritos (Sonic Youth) até ao hotel em que, sistematicamente fica com o quarto com vista para o beco das traseiras, ele consegue prender e emocionar o leitor. Ele é fantástico, realmente. A minha admiração por ele é imensa!

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  6. Os Sonic Youth » desapareceram !! Não sabia isso!

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    1. Caro Mário Santos:
      Se não terminaram, pelo menos ameaçaram fazê-lo. Parece que, apesar do divórcio de dois dos seus membros, mantiveram-se unidos.

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    2. Bolas.
      Qualquer dia, dizem-me que os Velvet Underground já não estão juntos.:-))

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  7. ...estariam nas margens e seriam desqualificadas pela maioria de nós... Perante um conceito desta natureza poderíamos compartilhar do cinema, realista, entusiasta, e crítico, ou considerando que em especial apreciamos "como que distantes" com lente estóica ou, ainda de favorecer a abertura e assimilar diferenças. A cultura que retrata além de cíclica, ao que remete por entre uns e outros recicla.

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  8. Caramba, Juan Marsé "apanhou-me" bem com esse Rabos de lagartixa. É maravilhoso. Agora ando aqui à espera de oportunidade (talvez a feira) para deitar mão aos seus outros dois livros cá editados - a sinopse de Caligrafia dos sonhos promete dimensão semelhante à de Rabos de lagartixa.

    Quanto ao último de Valter Hugo Mãe, é pela galeria de personagens fantásticas que mais conquista, de facto.

    Boas leituras!

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    1. Carriço,
      Ainda vou no início do livro, mas estou a gostar muito. Há um episódio entre (quase) adolescentes que é um delírio.
      Abraço
      Mário

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    2. Na próxima semana, dia 26 de Abril, 5ªfeira, pelas 18h30m, teremos Juan Marsé em Lisboa a conversar com António Lobo Antunes na livraria LeYa na Buchholz.

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    3. Pena a distância... Ninguém sabe se virão ao Porto?

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  9. Estou a ficar super curiosa com esse livro do Juan Marsé Tenho o Rabos de Lagartixa na torre dos lazeres urgentes, há largos meses mas, infelizmente, o tempo escasseia. Que angustia...

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  10. Não resisto a deixar aqui um comentário que talvez não tenha nada a ver com literatura ou cinema. Há dias jantei nos «Alunos de Apolo». Quando passei pelo baile, deliciei-me com o ambiente. Senti-me figurina num filme do Almodóvar! Magnífico.

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