Excerto da Quinzena

O doce de ginja brilhava vermelhíssimo entre as vespas amarelas e pretas e o vento remexia os ramos dos carvalhos e as manchas do sol corriam sobre o musgo, sobre a erva suave e húmida e sobre a cara dos convidados e das Mulheres e dos Homens que estavam a fumar e a rir todos ao mesmo tempo. E brilhavam também os cálices azuis do Marie Brizard e os talheres de sobremesa. E os pontinhos de luz – os grandes perseguindo os pequenos – corriam sobre a toalha cheia de nódoas roxas de vinho e de migalhas. E à tarde havia tourada, e os homens tinham o rosto e as faces e o nariz brilhantes. E também brilhava o café, tão preto, com cinza de charuto à volta da chávena. E os homens riam-se meio de lado porque tinham um charuto na boca e falavam e riam-se como os velhos sem dentes, a deitar a ponta da língua de fora cheia de saliva, e tudo entre uma nuvem azulada de fumo. E era tão lindo ver como o fumo ia mudando de cor conforme lhe batia o sol. E, como era dia da Assunção de Nossa Senhora, nós, as crianças, tínhamos ido lançar pétalas de rosa à Virgem Maria e ouvir as gaitas, e os foguetes, e os violinos e a voz dos cantores já dentro da Igreja. E tudo cheirava a incenso, e a flores, e a roscas e a churros e à sidra que os homens estavam a servir no Campo da Igreja, e ao fato novo. [...]


 


Julian Ayesta, Helena ou o Mar do Verão

Comentários

  1. Já li e gostei muito. Embora confesso que me deixou uma boa lembrança mas poucas recordações do enredo.

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  2. António Luiz Pacheco10 de abril de 2026 às 01:50

    Não me recordava do nome do autor, de quem nunca mais ouvi o nome e nem nunca li mais nada dele.
    Li este "Helena" há muitos anos, andava ainda no liceu lá pelo 6º ano, entre 1972 e 73, veio na onda do nosso clube de leitura entre Hynes Johnson, James Jones, Grace Metalious, J. Steinbeck, Richard Wright e outros que fomos descobrindo na época.
    Tem razão, é um livro belíssimo e daqueles que marcam, sobretudo adolescentes recém-saídos de um estágio etário semelhante, ainda a cheirar a Verões e a primos.
    A maior saudade é a daqueles Verões, em que éramos juventude à solta e feliz, com as chamadas "férias grandes" que iam de meados de Julho ao início de Outubro! E tínhamos tempo, sobretudo tínhamos tempo, com aulas de manhã as raparigas e os rapazes à tarde, estudámos o bastante, e, tínhamos tempo repito, tínhamos férias e faziam-se coisas, fomos felizes sim!
    Este livro trouxe-me boas memórias e encerra da melhor maneira uma semana, se bem que amanhã seja dia de trabalho.

    Votos cá da Cidade Morena de um fim de semana cheio de boas leituras, que eu já pedi para me comprarem "Do palito à perdiz" pois terei brevemente portador.
    Tamusjuntus, como se escreve por aqui.

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