Excerto da Quinzena
Numa tarde de Junho, sol aberto, o Armando recebeu um recado de um conhecido para se encontrar com dois indivíduos que queriam falar com ele. Sobre o assunto da conversa, o outro apenas dizia que era do interesse dele e que seria melhor comparecer. Era um sábado e ficou aborrecido por não poder passar a tarde com a filha. Dir-se-ia que o Armando estava na fase que, no baloiço, corresponde ao impulso.
Perguntava-se o que quereriam dele; provavelmente, falar do desastre. Deviam ser jornalistas ou engenheiros disto e daquilo que andavam a tentar descobrir agulha em palheiro para exolicar a queda do Cessna. O Armando suspeitava sempre destes tipos, prontos a sacrificar qualquer um, para ficarem bem vistos nos seus cargos. Uma espécie de abutres em voo, planando à espera de que a vítima sucumba para descerem à terra. Foi com este sentido que o Armando me perguntou se eu não queria estar nas imediações. Respondi que sim.
A Arte Pendular do Baloiço, de António Tavares
“As pessoas não querem mais informação, escreve Annette Simmons, autora de um dos best-sellers de storytelling. Eles querem crer – em vocês, nos vossos objectivos, nos vossos sucessos, na história que vocês contam. É a fé que faz mover as montanhas e não os factos. Os factos não fazem nascer a fé. A fé precisa duma história para se sustentar – uma história significante que seja credível e que transmita fé em vocês.”.
ResponderEliminarDonde a importância das práticas de autolegitimação e de autovalidação, visto a fonte única da prestação dum guru, é a sua própria pessoa: é ele a fonte das narrativas úteis e dos seus efeitos misteriosos, é nele que se concentram as competências narrativas. Ele é o agente e o mediador, o mensageiro e a mensagem. Ele deve convencer-vos que tudo está em ordem, conforme ao bom senso, ao direito natural. Ele não vos ensina um saber técnico, ele transmite uma sabedoria proverbial, que cultiva o bom senso popular, faz apelo às leis da natureza e convoca uma ordem mítica.
excerto de Storytelling - La machine à fabriquer des histoires et à formater les esprits, de Christian Salmon (éditions la découverte)
tradução selvagem feita por leitor improvável a páginas 70
"Ivria Lublin fora o seu único amor. Mesmo quando o amor já tinha desaparecido e tinha dado lugar, ao longo dos anos, sucessivamente ou por turnos, a uma piedade mútua, à amizade, à dor, a rompantes de sensualidade, à amargura e ao ciúme e à raiva e de novo a verões de São Martinho vibrantes de centelhas de abandono sexual, e depois à vingança e ao ódio e novamente à piedade, um tecido de emoções entretecidas, alternadas e em permanente mutação, engolidas por composições inesperadas e estranhamente compósitas, como cocktails feitos por um barman lunático. Fosse qual fosse a mistura, nunca houve uma única gota de indiferença na bebida. Pelo contrário, com a passagem dos anos Ivria e ele haviam-se tornado cada vez mais dependentes um do outro. Mesmo quando discutiam. Mesmo nos dias de ódio, de humilhação e de fúria. Uns anos atrás, durante um voo para a Cidade do Cabo, Yoel lera um artigo popular na Newsweek sobre ligações telepáticas genéticas entre gémeos verdadeiros. Um dos gémeos telefona ao outro às 3 horas da manhã pois sabe que nenhum consegue dormir. Um gémeo grita de dor quando o outro se queima, mesmo estando num país diferente.
ResponderEliminarEra quase o mesmo entre Ivria e ele. Era também como ele interpretava para si as palavras do Livro do Génesis: «E o homem conheceu a sua mulher.» O laço entre eles era o conhecimento".
Amos Oz, Conhecer uma Mulher, tradução de Luísa Feijó e Maria João Delgado.