O que ando a ler
Como editora de jovens autores, ou de autores estreantes (o que não é exactamente a mesma coisa), interessa-me obviamente ler o que os meus confrades publicam nessa área; e, se ainda por cima conheço os autores, é natural que espreite com alguma urgência o que vai saindo. Nas Correntes d'Escritas, o Manuel comprou o romance de estreia de Inês Bernardo, jornalista que, durante vários anos, embora com interrupções, foi responsável, ao lado de José Mário Silva, pelo blogue Biblioteca de Bolso (no qual há muito fui entrevistada, por acaso, também nas Correntes) e que apoia outros blogues no jornal Público. Este primeiro romance, curtinho e com capítulos em geral de não mais de duas páginas, chama-se sugestivamente Agarrar a Faca pelo Gume e tem a qualidade de ser de facto agudo e penetrante. Os homens mal estão presentes, e a protagonista, que viveu até à idade adulta sem conhecer o pai, morou sempre com mulheres: a mãe, mas também as avós (a que chama com graça a Avó e a Outra Avó), sendo que as últimas pouco interferem numa educação de que, mesmo assim, são talvez as principais responsáveis. A vida destas três gerações faz-se a pulso e é sempre muito bruta, quase como se as personagens dissessem tudo umas às outras secamente e com maus-modos (ouço-as assim, pelo menos); mesmo quando se trata das cenas de «amor» da protagonista, o belo faz-se assustado, ignorante e um tanto feio (não na escrita, entenda-se, mas no que provoca em imagens na cabeça do leitor). Mas as coisas funcionam bem assim, porque agarrar a faca pelo gume comporta sempre o risco do sangue, e as relações de sangue nem sempre são as melhores, especialmente quando as mortes espreitam, iminentes. É uma boa estreia, fico à espera de mais.
Iniciei um tijolo de Javier Cercas - O Louco de Deus no Fim do Mundo - e ao fim de cem páginas já me pergunto por que estou aqui a gastar o meu tempo.
ResponderEliminarPosto de lado o Extraordinário (sem sombra de dúvida) "Camilo Broca", deitei mão a outro que havia comprado sem saber muito sobre ele mas tentado pela sinopse: "As mortes do meu pai" de Joaquim Arena, anunciado como vencedor de prémio literário Oceanos e para o que me estou nas tintas!
ResponderEliminarConfesso que não corresponde inteiramente ao que dele esperava, pois julguei que seria um romance histórico baseado na vida e actuação do guerrilheiro Miguelista conhecido pelo "Remexido". Uma personagem de fábula e muitas e controversas facetas.
Afinal é mais uma cronologia dos seus feitos ditos de guerra, perpetrados contra populações civis, massacres, mortandades, saques e malfeitorias diversas, com um violência que deita por terra (se alguma dúvida houvesse quanto a isso), ao mito criado pelo Estado Novo de sermos um povo de brandos costumes!
Paralelamente há a história de alguns dos seus homens de mão, tudo relatado pela filha.
Uma tentativa de análise psicológica do afamado e alegado guerrilheiro, entrando por campos que se podem considerar uma tentativa de redenção, género ele matava mas tinha pena e fazia-o por amor à causa... um selvagem, digo eu!
É a impressão com que se fica, de que eram malfeitores desapiedados e meros selvagens!
Se alguma simpatia possa ter pela causa Miguelista, ela fica bastante em baixo depois destes relatos... evidentemente que os abusos e desmandos pelos liberais não terão ficado muito aquém, mas fraca consolação constitui.
De qualquer modo, sem ser um grande livro é interessante e mais para quem, como é meu caso, goste do tema e da época. Talvez a mais negra da nossa história e que originou rancores ou situações que se estenderam até depois e sobretudo durante o PREC.
Fica a nota de leitura, ainda incompleta mas que já deu para falar um pouco.
Saudações cá da Cidade Morena.
Estou quase a acabar Os Buddenbrook de Thomas Mann, um tijolo de quase 700 páginas; depois da Montanha Mágica é uma obra notável, um dos 10 livros que Hemingwei aconselhava qualquer aspirante a escritor a ler sem demora.A seguir vêm Antares da Clara Pinto Correia e o Manual dos Inquisidores de Lobo Antunes para o Clube de Leitura da Portela.
ResponderEliminarVou espreitar essa novidade. Por aqui, estreia na Elizabeth Strout com "Olive Kitteridge"
ResponderEliminarAcabei de ler “Oculta” de Hector Abad Faciolince.Sem ser extraordinário,lê-se bem e dá-nos a conhecer outras realidades.Nao há nada pior que a violência e em certos países ela está lá
ResponderEliminarCaro António Luiz, da Morena Cidade
ResponderEliminarQuem pegue e opere num romance sobre a vida de José Joaquim de Sousa Reis, dito "O Remexido", certamente não poderá fugir às atrocidades próprias de um bando e do seu caudilho. Assim mesmo seria com O Bando do Caca, dos Marçais de FozCôa, do João Brandão de Midões e até do próprio José do Telhado. Digo isto porque, durante alguns anos, escrevi e desenhei no jornal "O Crime", estas e outras crónicas que envolviam páginas de sangue.
Compreendo, porém, a sua repulsa pelo conteúdo, como bem diz, arredado da fama dos "brandos costumes".
Confesso que, por vezes, estive tentado a ocultar certos episódios, mas estava a fugir à verdade. Para compensar, escrevia contos "cor-de-rosa" (ou até de cores mais escuras) na revista "Maria", que pretendo editar no conjunto através de nove volumes de 200 páginas, ou ainda alguns artigos mais suaves na revista "História" e na "Notícias Magazine"
Há muito que não vinha aqui comentar, embora leia estes diários apontamentos da Anfitriã, pelo que tinha de vir agora, para lhe enviar um abraço virtual através deste comentário, daqui, deste planalto ventoso.
Leio O REGRESSO DOS LOBOS de Sarah Hall . Rachel participa num projecto que visa a reintrodução do lobo no interior do país. Ela provém de uma família problemática e este projecto vai regenerar toda a sua vida.
ResponderEliminarA autora foi finalista do Man Booker Prize. Agrada-me muito a sua escrita e o enredo tão actual e cativante. Obra de ficção que aborda questões fundamentais da nossa existência, entre eles a maternidade.
O Louco de Deus de Javier Cercas foi o meu anterior livro. De facto nas primeiras 100 páginas deste grande livro, não se pode fazer ideia da obra, que considero um dos meus livros deste ano. Escrita e tradução impecáveis e só por isso vale a pena. E o mistério que percorre todo o livro, como se fosse um romance policial, a mesma técnica que nos deixa em suspensão até ao fim do livro.
ResponderEliminarJá tinha saudades suas, meu caro!
ResponderEliminarÉ sempre um prazer trocar opiniões consigo.
Tem toda a razão no que diz, e, sim não deixa de me chocar a violência acontecida nessa negra época, como lhe chamo. Até o meu bem-amado Zé do Telhado (de quem sou fã!) se pode acusar de tal, ao que parece no tempo em que andou no bando do Custódio Boca Negra e na sua passagem pelos Brandões, deve ter feito algumas. No entanto não lhe foram apontados crimes de sangue e nem violência gratuita, muito menos contra inocentes. Não que eu me recorde, eheheh, porém falo através do que li sobre ele pois pesquisei-o bastante. Brandões e Remexido, esses sim são célebres pela violência exercida sobre as populações.
Tenho pena de não conseguir achar nada sobre o Fernão Ferro... por acaso não me poderá indicar alguma obra ou onde possa saber sobre ele?
Este livro que ando a ler, é bem ilustrativo da falsidade do mito dos brandos costumes... olhe nós tivemos um caseiro, que eu conheci muito bem e de cujo filho meus pais foram padrinhos, é meu amigo assim como os netos um dos quais protegia o meu filho no liceu. Tudo gente rija e "má de assoar". O Agostinho Lázaro matou dois homens, em duas rixas. Era muito devotado a meu avô que o defendeu em tribunal, e minha avó recriminava o marido por manter um caseiro que já matara dois homens, "e sabe-se lá quando matará outro!", respondia o meu avô. Pois o Agostinho já bem velho, morava perto duma "extrema" da nossa quinta, com que o seu casal era colindante, O meu pai tinha na época uma demanda com um outro fulano que morava por ali e cujo filho (um moço drogado que depois cumpriu pena nas Caldas da Rainha por furtos) atravessava a propriedade nas suas deambulações suspeitas, só que o Agostinho nem por isso dormia a noite toda e dava fé de tudo. Um dia mandou recado ao meu pai que precisava de falar com ele, e quando lhe calhasse que o procurasse... eu teria então uns 35 anos, e a razão daquele encontro foi para mostrar ao meu pai o caminho de passagem do tal moço, que coisas boas não andava fazendo, caminho esse que passava por um grande e denso balseirão (silvado) na extrema da nossa horta. O Agostinho relatou as suas "auvservações" ao meu pai, e concluiu: O menino (eu) já pode ouvir isto, o sô coronel quer que eu trate disto?
São, ou eram, os nossos brandos costumes, de que eu sou bem ciente.
Devolvo-lhe o abraço com os votos de uma Santa Páscoa!
Também não sei nada sobre o Fernão Ferro, o que quer significar o desconhecimento absoluto sobre o assunto, para além do topónimo bem conhecido do Seixal. E olhe que me dediquei a este género realista/criminalista, não sendo de todo sobre sangue derramado, tais os casos de Alves dos Reis e da Giraldinha de Lisboa, entre outros 33 casos por mim "tratados".
ResponderEliminarA vida do Agostinho Lázaro daria um romance, pese embora o facto de fazer justiça pelas próprias mãos.
Boa Páscoa
Um abraço
É uma pena... sobre Fernão Ferro, ouvi dizer, que era um famoso bandoleiro, capitão de salteadores que operava ali na zona da Península de Setúbal, entre Tejo e Sado. Mas não consigo obter mais informação do que esta "lenda" que ignoro até se é verdadeira!
ResponderEliminarTerei de procurar lá na freguesia, quando estiver por aí e com tempo para isso.
Grande abraço e afinfe-lhe no anho!