Jornalista-escritora

É muito comum, em Portugal e no estrangeiro, jornalistas (não só culturais) escreverem livros de ficção: ora sobre histórias de que inicialmente foram os repórteres, ora sobre assuntos com que deram de caras numa qualquer investigação para outra coisa, ora porque descobriram o gozo da escrita e não resistiram a tentar a literatura. É agora o caso de uma jornalista bastante conhecida, Anabela Mota Ribeiro, responsável há anos por muitíssimos programas culturais (um dos mais recentes com entrevistas a jovens nascidos depois do 25 de Abril, que acompanhei com imenso agrado). Hoje mesmo irá para a livraria o seu primeiro romance, O Quarto do Bebé, que ainda não li, mas tem uma bela capa e suscita curiosidade. Diz a folha de divulgação enviada pela editora: «Escrito em grande parte durante o confinamento e a doença, e concluído após uma longa gestação, O Quarto do Bebé é um romance autoficcional em forma de diário íntimo [...] Com ecos do universo literário da recentemente nobelizada Annie Ernaux, uma das grandes referências da autora, O Quarto do Bebé é um relato cru e corajoso que revela uma nova e envolvente faceta de Anabela Mota Ribeiro.» Pois, lá vamos ter de ler. O lançamento público vai ser na terça-feira, no Palácio Galveias.


O Quarto do Beb�.jpg

Comentários

  1. A coisa mais normal do mundo é os jornalistas escreverem livros, pois o mundo das palavras e das histórias com pessoas, fazem parte do seu dia a dia.

    Mais próximo dos "fenómenos do entroncamento" (que também não são...), será um eletricista ou canalizador escrever um romance...

    Vou ler, por curiosidade, e também por gostar da escrita da Anabela.

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  2. António Luiz Pacheco18 de maio de 2023 às 02:45

    Ora essa! Um romance eléctrico! O poder das canalizações! Seriam temas para qualquer desses profissionais abraçarem a escrita! E já agora: Os muros na história, para um pedreiro...
    Acho que está a ser muito limitador caro Luis!!!! Tem de se abrir a janela das oportunidades!
    Eheheh!
    Abraço cá da Cidade Morena.

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  3. Por acaso também acho que vou ler, gosto da autora, acho que escreve lindamente e reconheço-lhe sensibilidade própria. Confio em que não me desiluda.

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  4. Pois estou, caro Pacheco. :)

    Se vivêssemos num mundo perfeito, a maior parte das pessoas faziam coisas que gostavam. Como não vivemos, é natural que até um varredor de rua possa ser um poeta, nas horas dele. :)

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  5. Não conheço a escrita da Anabela Mota Ribeiro, mas isso não vem ao caso, porque o que agora pergunto ao Luís M. é porque é que considera que "num mundo perfeito" um varredor de ruas não possa ser um poeta? António Aleixo, analfabeto e vendedor de cautelas foi um grande poeta popular num mundo que estava longe de ser perfeito mas não tenho dúvidas de que o continuaria a ser num mundo perfeito. Nas horas dele e nas horas de hoje, também.

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  6. António Luiz Pacheco19 de maio de 2023 às 06:04

    Bom ponto!!!!

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  7. Anabela Mota Ribeiro, uma sinfonia de perguntas em forma humana, caminha sobre a linha ténue que separa o conhecido do desconhecido. No seu olhar, reside o brilho de mil histórias não contadas, uma galáxia de curiosidades incessantes. Ela é uma jornalista tornada flor de papel, florescendo em campos de tinta e palavras. No vasto jardim da literatura, ela semeia as sementes do diálogo, provocando o crescimento de ideias onde antes havia apenas silêncio. Venha de lá este Quarto do Bebé!

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  8. É interessante e talvez demasiado previsível a concepção de que a literatura deve ser exclusivamente, ou pelo menos primordialmente, o domínio de jornalistas, académicos e outros profissionais directamente ligados à escrita e à comunicação. Este pensamento, apesar de compreensível, ignora a vasta gama de experiências humanas que podem alimentar uma voz literária singular.

    A possibilidade de um electricista ou canalizador produzir um romance não deve ser tão rapidamente descartada. As profissões que desempenhamos são certamente parte de quem somos, mas não nos definem por completo. A literatura é, na sua essência, uma reflexão sobre a experiência humana, e todos nós, independentemente da nossa ocupação, compartilhamos essa experiência.

    Tomemos, por exemplo, o caso de Charles Bukowski, um escritor americano influente, cuja obra reflecte as suas experiências como trabalhador numa fábrica de biscoitos para cães, carteiro, trabalhador num matadouro, empregado de uma estação de serviço, condutor e carregador de camiões, guarda, empregado de armazém, lavador de pratos, operador de elevador, etc. As suas experiências de trabalho no "mundo real" forneceram-lhe certamente uma perspectiva única e influenciaram a sua escrita.

    O mesmo se aplica ao autor Stephen King, que, antes de se tornar um dos escritores mais vendidos de sempre, trabalhou numa série de empregos menos prestigiados, incluindo um como operador de uma lavandaria industrial. Isso terá contribuído, sem dúvida, para a sua compreensão do “terror” do quotidiano -😉

    Do mesmo modo, Haruki Murakami, antes de se tornar um romancista de renome mundial, era dono de um bar de jazz em Kokubunji, na periferia ocidental de Tóquio, o “Peter-Cat”, longe da escrita e do jornalismo. Trabalhou muito para pagar as contas, a servir cafés e a fazer cocktails durante quase sete anos. Apenas vendeu o bar quando decidiu dedicar-se à escrita a tempo inteiro, após a publicação do seu segundo romance.

    Em suma, não podemos eliminar a hipótese de que um simples electricista ou um humilde canalizador venha a ser o novo génio das letras. Afinal, a literatura é uma representação de todas as vivências humanas, não só das que são vividas por jornalistas iluminados, por intelectuais no éter da sua imaginação, ou por filhos de pais endinheirados.

    Dito de outro modo, não consta que Camões tenha sido funileiro ou artífice de engrenagens, contudo, antes de escrever o épico que o consagrou como poeta nacional, serviu como soldado raso.

    (E, quem sabe, se Goethe tivesse canalizado mais tempo para as suas experiências com electricidade produzida por fricção num gerador electrostático, talvez tivesse exclamado “mais luz” não apenas como um anseio espiritual, mas também como uma dica para alguém ligar a máquina electrostática que lhe tinha sido presenteada pelo duque de Weimar, para tentar iluminar a sua própria passagem para a eternidade.)

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  9. Vocês sabem por que um canalizador jamais ousaria aventurar-se na escrita de um livro? Porque seria um verdadeiro 'fenómeno do entroncamento' literário! O enredo ficaria tão obstruído que até as personagens ficariam presas nos cotovelos narrativos, e as reviravoltas seriam tão complexas que até o autor teria de convocar um desentupidor mestre para desobstruir os encanamentos da história. E, vamos lá, com descrições minuciosas das torneiras, joelhos, uniões e flanges, não haveria espaço para desenvolver personagens verdadeiramente cativantes. Com capítulos como 'O Mistério da Válvula Travada', que ninguém seria capaz de resolver, ou 'O Enigma do Vazamento Invisível', cuja fonte permaneceria inatingível, não haveria extensões ou reduções que pudessem salvar o leitor de um completo entupimento cerebral. Além disso, uma obra desse calibre só poderia ter títulos como 'Aventuras de um Canalizador em Busca da Chave de Grifo Perdida', que, convenhamos, provavelmente só agradariam aos verdadeiros apaixonados por canos e sifões!

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  10. Ao invocar a imagem de uma biografia sofrida marcada pela história recente de Portugal, Anabela Mota Ribeiro parece estar pronta para assentar a argamassa da sua narrativa, uma base sólida que promete suportar a carga da exposição das fissuras e desequilíbrios do patriarcado. Como arquiteta familiarizada com as imperfeições de uma obra mal construída, percebo a potencial violência esculpida por tais palavras. Todavia, anseio para que a sugerida inspiração na repetição monocromática de Ernaux, qual ruído de fundo persistente, não comprometa o engenho da autora. Seria como tentar emparelhar a austeridade minimalista de Mies van der Rohe com a extravagância de um cenário barroco, um confronto que cria um desconforto ao olhar (sem desprimor para Mies ou para o Barroco).

    "O Quarto do Bebé", à luz da sinopse que li, promete uma incursão literária profunda na psique da sociedade portuguesa. Apesar da presença espectral de Ernaux, a bruma que ameaça o amanhecer promissor, aguardo que a edificação literária de Ribeiro seja um reflexo do seu trabalho jornalístico, um monumento de rigor, sagacidade e intimismo. Se o inconsciente coletivo é uma obra em constante construção, Ribeiro possui decerto a alferça literária necessária para escavar verdades ocultas e extrair significados profundos.

    Para aquelas como eu, que se sentem incomodadas com o manto opressivo de Ernaux, anseio que a escrita de Mota Ribeiro não se deixe levar pela corrente da autoficção imoderada. Espero encontrar a melodia da sua voz autêntica, sem a saturação de uma perspectiva exclusivamente pessoal e etnocêntrica. Espero que o livro nos permita uma introspecção, abrigando temáticas profundas da existência humana, sem confundir a preservação da memória com o reflexo vazio do narcisismo.

    Em breve saberemos...

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  11. Não resisto…
    «Sabem porque é que um eletricista nunca escreveria um romance tão incrível quanto os "Fenómenos do Entroncamento"?
    Porque apesar de todas as ligações que ele pudesse fazer, nunca conseguiria inventar uma história tão "chocante"!»

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  12. Porque é que os canalizadores e electricistas não escrevem livros? Eles argumentam que se o fizessem, as suas histórias proliferariam mais rapidamente do que maçarocas num pé de milho no Entroncamento. E quem quer ser responsável pela próxima saga interminável, certo?

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  13. Cara Maria João, não foi isso que disse.

    O que quis dizer foi que um mundo perfeito as pessoas eram aquilo para o qual estavam mais predestinadas, o que infelizmente não acontece com a maioria de nós, que fazemos coisas que estão longe de nos realizar, pessoalmente.

    Ou seja, num mundo perfeito, um poeta não tinha de ser varredor ou outra coisa pior...

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