Encontros poéticos
Têm vindo a Portugal nos últimos tempos muitos poetas latino-americanos, e alguns espanhóis, para divulgação das suas obras em Portugal, já que a poesia é provavelmente, a par do teatro, dos géneros menos traduzidos entre nós. Fazem-no no contexto dos Encontros Poesia Ibero-Americana, um ciclo organizado pela também poetisa Lauren Mendinueta, colombiana com vários livros publicados em Portugal, que assinou além disso uma antologia de poetas do seu país publicada há uns anos na Assírio & Alvim, com tradução de Nuno Júdice, intitulada Um País Que Sonha. Dentro deste ciclo, amanhã na Fundação José Saramago, pelas 18h30, terá lugar uma actividade ao vivo que incluirá os poetas Adriana Hoyos (Colômbia), Fernando Pinto do Amaral (Portugal) e Margarida Vale de Gato (Portugal) e terá a participação musical de Víctor Zamora (piano, Cuba), Nuno Rocha (guitarra, Portugal) e Edouard Rambourg (saxofone, França). A sessão conta com o apoio da OEI (Organização dos Estado Ibero-Americanos) e a entrada é livre, sujeita à lotação da sala. Vamos ouvir?
Ritmo Cruzado: Samba-fado de Lisboa
ResponderEliminarNas janelas das casas, que ecoam o som das notas alegres e tristes,
Ressurge o Brasil esquecido, nas memórias fugidias dos passantes.
Em cada rua, um samba vibrante, pintado de cores e palavras, em acordes cintilantes.
Ali, onde o Tejo se embriaga de saudade, num gingado de desejo desafiante,
Ele desenha suas marés em linhas invisíveis, um poema inquieto,
Saga de amores cruzados, na dança perene do aqui e do distante.
E em cada rosto, uma história se revela como um rio transbordante,
Corpos com leveza nas pedras da calçada, carregam um poema alado.
Lágrimas salgadas, sorrisos doces, fazem de cada praça uma gente.
Numa Lisboa vestida de samba, danço na sombra do Castelo que me acolhe, balanço ligeiro,
Ecoa o coração verde-amarelo, batuque inconfundível, compasso mensageiro.
Encontro no olhar de uma nostalgia infinita, o Brasil, imortalizado na face de um violeiro.
Enxergo sombras de cronistas, trovadores, que tecem o passado em versos quentes,
Em cada esquina, um conto. Em cada rosto, um conto. Em cada praça, um conto.
Nesta fusão de dois mundos, sendo diferentes, juntos, somos um todo.
De espumas de mares saudosos às montanhas de Minas Gerais,
Cruzo o Atlântico num sopro, onde origem e destino se dissolvem e encontram,
Entre os encantos de Portugal e o eco dos ecos tropicais.
Sorvo do vinho da memória, em taça de sol e mar, um licor envolvente,
Aqui sou poeta, forjada na fornalha de duas culturas, sempre presente,
Dançando ao ritmo deste samba-fado, no palco do presente, eu sou, permanentemente.