O que ando a ler

Andamos em arrumações na nossa biblioteca. Não só porque já não encontrávamos nada (e às vezes tínhamos de voltar a comprar um livro que sabíamos ter), mas também porque tivemos de deixar-nos de manias e alienar algumas coisas para que outras pudessem entrar. Ora, nos montes que se iam formando no chão com escritores de determinadas nacionalidades, apareceu um pequeno romance que eu nunca tinha lido, intitulado A Última Escala do Tramp Steamer, de Álvaro Mutis. Peguei-lhe e estou a terminá-lo. Mutis é, como alguns saberão, o escritor colombiano que fica nos antípodas de García Márquez. Os seus textos estão cheios de referências literárias e a sua prosa é claramente europeizada, como acontece, de resto, neste livro. Europeizada também é a jovem libanesa dona do cargueiro que atravessa toda a história e que marca, nos portos onde vai atracando, os encontros dela com o capitão, um basco que sabe que a sua relação só durará enquanto o velho Tram Steamer tiver casco para navegar e que é, na verdade, quem contou a sua história ao narrador que, ao longo da sua vida, se terá cruzado várias vezes com o cargueiro Alción. Com uma linguagem levemente enfatuada para o meu gosto, é apesar de tudo uma bela história e o livro que catapultou Mutis para o sucesso e reconhecimento dos pares, embora o texto merecesse uma tradução mais cuidada (Amberes, por exemplo, é a palavra espanhola para Antuérpia e deveria ter sido traduzida).

Comentários

  1. Acabei de ler "Crónica de África" de Manuel S. Fonseca.

    São as suas memórias de África, da infância e adolescência, escritas de uma forma viva, que quase nos coloca nas ruas de areia vermelha, com aquela gente boa (é um livro positivo e ainda bem...), que fazia esquecer o mundo que já se vivia...

    Como de costume, o autor, como homem do cinema que é, não deixa de "colar" uma fita, um actor ou uma actriz, oferecendo alguma magia aos episódios que nos conta, daquela Luanda, que até parece multicultural...

    Aconteceu-me também uma das coisas que eu gosto, que foi tirar notas, viajar dentro da minha memória, graças às memórias e à "maneira de contar" do Manuel.

    Continuo a ler poesia. Ficou...

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  2. Comecei a ler o Diário do Escritor de Dostoievski, A Aldeia das Almas Desaparecidas de Richard Zimler, Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro de Susana Moreira Marques; estou a acabar Longe da Multidão de Thomas Hardy..

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  3. "MISERICÓRDIA" - Lídia Jorge. Não estou entusiasmado, talvez esperasse mais.
    De qualquer modo é um livro que nos dá, embora muito ligeiramente, a solidão e o ambiente de um LAR de idosos.
    É um diário de uma mãe que sobrevive na escuridão de um dia a dia num ambiente que nos põe a pensar no amanhã...

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  4. António Luiz Pacheco2 de maio de 2023 às 04:21

    Ora parece que andamos todos sintonizados quanto à qualidade de algumas traduções!
    Ainda bem, haja esse critério e faça-se esse lóbi, os livros merecem e os autores agradecem.

    Ando a ler o inevitável "D. Perdigote" do nosso não menos celebrado e Extraordinário Paulo Moreiras, do que eu já andava à espera deste há qu'anos!
    Estou a adorar, como também era de esperar e não me desiludiu ainda em nada, era mesmo aquilo que previa. Ainda bem que a minha mulher me o trouxe.
    A forma de escrever do Paulo é um tratado e uma delícia, se bem que para algum leitor possa pedir quase tradução (ahahahah!).
    É uma escrita elaborada, floreada, rica e até a pedir alguma cultura, que tem de ser lida com vagar, saboreando como a um vinho velho,isto a água-pé é que se bebe de golo!
    Porém a história flui a bom ritmo e prende-nos com as descrições vivas das agruras e dos azares do herói, a quem o autor rogou uma valente praga e faz arrastar penosamente página após página num enredo de trapalhadas e casos que até nos fazem dó. Coitado.
    Mas ao mesmo tempo rimos das situações, aliás previsíveis, dado que sua nabice temperada com ingenuidade e tontice logo nos faz antever o mau desfecho dos seus empreendimentos. Também os demais personagens compõem ambiente e são eles mesmos figuras que se equivalem à ginja dentro do bombom!
    Grande romance, grande Paulo Moreiras!
    Deve ser bom saber escrever assim, quem me dera.
    Um grande abraço cá desde a Cidade Morena.

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  5. Estou precisamente a ler o "Misericordia" de Lidia Jorge e tambem nada entusiasmada.
    Comprei-o no Natal e ainda so li meia duzia de paginas.Nao corresponde as minhas expetativas.

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  6. António Luiz Pacheco2 de maio de 2023 às 06:41

    É recente? Não ouvi falar, mas despertou-me a atenção. Gostaria de ler também.
    Abraço.

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  7. É. Foi lançado no final de Fevereiro, caro Pacheco.

    Gostei bastante de ler estas crónicas. :)

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  8. Um livro de um autor que, não sendo nada do outro mundo, é um bom exemplo da literatura inglesa: "Servidão Humana", de Somerset Maugham. Esperou anos a sua oportunidade de ser lido e cá vai naquele estilo fácil de leitura.

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