Excerto da Quinzena

O meu irmão teria precisamente nove anos aquando da morte de Jorge VI (eu tinha seis e andava na mesma escola, mas não me lembro nada do discurso de Mr. Ebbets nem dos fumos pretos). O meu abandono final do que restava, ou da possibilidade, de uma religião aconteceu depois, com outra idade. Adolescente, curvado sobre um livro ou uma revista na casa de banho familiar, dizia de mim para mim que Deus não podia certamente existir, pois a ideia de Ele me observar enquanto eu me masturbava era absurda; ainda mais absurda era a noção de que todos os meus antepassados mortos também podiam estar na fila a ver. Eu tinha outros argumentos mais racionais, mas o que acabou com Ele foi esse sentimento poderosamente convincente e também egoísta, é claro. A ideia da avó e do avô a observarem o que eu fazia ter-me-ia desencorajado seriamente.


Julian Barnes, Nada a temer, tradução de Helena Cardoso

Comentários

  1. [...] Asle depois entra no Ancoradouro e empacota tudo o que lá há em dois fardos e em seguida sai e põe-se a caminhar ao longo da praia com os dois fardos sobre os ombros e o estojo do violino na mão e lá ao loge, no mar, vê o homem que é dono do Ancoradouro vir a navegar no seu barco e Asle sobe o Penhasco e carrega tudo o que possui em dois fardos sobre os ombros, além do violino dentro do estojo, que segura numa das mãos, e passado um bocado avista Alida, que caminha ao encontro dele e lhe diz que não podem ficar a morar com a mãe Herdis, porque acha que Herdis nunca gostou dela, a sua própria filha, [...] que sempre tinha gostado mais da irmã Oline e ela nunca compreendera a razão por que assim era, por isso não quer ir lá para casa, ainda mais agora que o ventre lhe cresceu tanto e por tudo o mais, diz ela [...], portanto vão ter de conformar-se e perguntar se podem ficar algum tempo na casa de Herdis do Penhasco, diz ele e Alida diz que se é o que eles têm de fazer, então terá de ser ele a perguntar, ela não o fará, ela prefere dormir onde quer que seja, diz ela e Asle diz que se tem de ser ele a perguntar que ele o fará [...].
    Jon Fosse - Trilogia
    Tradução do norueguês de Liliete Martins

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    1. Decididamente, a forma de escrever "nórdica", não é a minha favorita!
      Sem desprimor para a obra que aqui nos é trazida.
      Compare-se com o trecho de J. Barnes, a fluidez é completamente diferente.
      Enfim, são gostos, claro!

      Abraço!

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  2. "Viviam Ursus e Homo ligados por estreita amizade.
    Ursus era um homem, e Homo era um lobo.
    Entre as disposições naturais dos dois estabelecera-se convencional harmonia. Fora o homem quem baptizara o lobo........

    "O HOMEM QUE RI" do gigantesco escritor do planeta terra VICTOR HUGO.

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  3. Extraordinário Pacheco,
    "gostar" também não gosto. Ainda que as situações sejam humanamente ricas, o modo de as expressar é que é literariamente pobre, com muitas repetições como se as personagens só soubessem dizer aquilo, à beira de um discurso gutural. Mas é de propósito, claro. O que me faz pô-lo numa sequência em que figuram Joyce, Celine, Saramago, por exemplo, respeitando sempre as diferenças. Ou, por outras palavras, onde o modernismo pode levar!.

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    1. Sempre um prazer "oulê-lo", não sei onde é fui buscar esta, mas vi por aí... eheheh!
      Sabe o que lamento? Hoje, que se fala de literatura, de livros, não há nem anónimos nem identificados a comentar! Fôra um post desses polémicos e fracturantes, eia bem... caiam aí comentadores dos que estão na sombra, à espreita, que até ferviam!
      Lamento, parece que a crise caiu também sobre nós apreciadores da leitura...
      Porque não postei nenhum trecho? Ora, e para quê?
      Pensemos nisso, aproveitemos o fim de semana para matutar!

      Saudações matutantes cá da cidade morena!

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  4. Quando era criança, tinha muitas vezes dificuldade em adormecer. Ficava deitado no meu berço, atormentado pelo silêncio. Era algo como ter um pesadelo e estar acordado ao mesmo tempo, enquanto os meus pais continuavam as suas atividades, falando em voz baixa. O silêncio parecia um som, a ribombar dentro da minha cabeça. Dessas noites em que estava deitado sozinho, enquanto me virava e revirava na cama, não sou capaz de recordar um único pensamento consolador.
    No entanto, o silêncio também pode ser uma presença consoladora. Um consolo e uma fonte de enriquecimento poderoso.
    [...] Quando estamos sós no meio do oceano, podemos ouvir a água; na floresta, o balbuciar de um riacho ou ainda os ramos a balouçar ao vento e, na montanha, escutamos pequenos movimentos entre as pedras e o musgo. Estas são as alturas em que o silêncio é reconfortante. Procuro isso no meu íntimo. Minuto após minuto.
    [...] Desligarmo-nos do mundo não consiste em virar as costas ao que nos rodeia, mas o oposto; é ver o mundo mais claramente, mantendo o rumo e tentando amar a nossa vida.
    O silêncio, em si, é rico. É algo de exclusivo e luxuoso, Uma chave para abrir novas maneiras de pensar. Não o encaro como uma renúncia ou algo espiritual, mas como um recurso prático para viver uma vida mais rica.
    Erling Kagge, "Silêncio na Hora do Ruído", Tradução de Miguel de Castro Henriques

    Manuel Dias da Silva

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  5. O título do livro é "Silêncio na Era do Ruído" e não "Silêncio na Hora do Ruído"
    Manuel Dias da Silva

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