Excerto da Quinzena

Dez anos após a sua morte:


Manolo o Cigano abriu os olhos, observou a luz ténue que se infiltrava pelas frestas da barraca e levantouse procurando não fazer barulho. Não precisava de se vestir porque dormia vestido: o casaco cor de laranja que lhe oferecera no ano anterior Agostinho da Silva, de alcunha Franz o Alemão, domador de leões desdentados do Circo Maravilhas, servialhe ao mesmo tempo de casaco e de pijama. Na luz fraca do alvorecer procurou aos apalpões as sandálias transformadas em chinelos que usava como calcado. Encontrouas e calçouas. Conhecia a barraca de cor, e podia moverse na semiobscuridade respeitando a geografia exacta dos míseros trastes que a mobilavam. Avançou calmamente em direcção a porta e foi entao que o seu pé direito bateu no candeeiro de petróleo que se encontrava no chão. Merda de mulher, disse entredentes Manolo o Cigano. Fora a sua mulher que na noite anterior tinha querido deixar o candeeiro de petróleo junto a enxerga com o pretexto de que o escuro lhe provocava pesadelos e que sonhava com os seus mortos. Com o pavio no mínimo, dizia ela, os fantasmas dos mortos não se atreviam a visitá-la e deixavamna dormir em paz.


Antonio Tabucchi, A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro, tradução de Theresa de Lencastre

Comentários

  1. Senhores da Guerra

    «Vinde, senhores da guerra
    Vós que construís todas as armas
    Vós que construís os aviões da morte
    Vós que construís as grandes bombas
    Vós que vos escondeis atrás de muros
    Vós que vos escondeis atrás de secretárias
    Eu só quero que vocês saibam
    Que consigo ver através das vossas máscaras

    Vós que nunca fizestes nada
    Senão construir para destruir
    Vós brincais com o meu mundo
    Como se fosse o vosso brinquedinho
    Vós colocais-me uma arma na mão
    E escondei-vos dos meus olhos
    E virais as costas e fugis para bem longe
    Quando voam as balas velozes

    Como o Judas de outrora
    Vós mentis e enganais
    Uma guerra mundial pode ser ganah
    Vós quereis que acredite
    Mas vejo através dos vossos olhos
    E vejo atrvés da vossa mente
    Como vejo através da água
    Que se escoa pelo cano abaixo

    Vós firmais os gatilhos
    Para os outros dispararem
    Depois recuais e ficais a ver
    Quando a contagem de mortes se eleva
    Vós escondei-vos na vossa mansão
    Enquanto o sangue dos jovens
    Lhes escorre dos corpos
    E se enterra na lama

    Vós lançastes o pior dos medos
    Que alguma vez se pode proferir
    Medo de trazer filhos
    Ao mundo
    Por ameaçardes o meu filho
    Por nascer e sem nome
    Não valeis o sangue
    Que vos corre nas veias

    Quando é que eu sei
    Para falar o que não devo
    Vós podeis dizer que sou ignorante
    Mas uma coisa há que eu sei
    Ainda que seja mais novo que vós
    Nem mesmo Jesus jamais
    Perdoaria o que fazeis

    Deixai-me fazer-vos uma pergunta
    O vosso dinheiro é assim tão bom
    Comprar-vos-á o perdão
    Achais que poderia
    Penso que descobrireis
    Quando a vossa morte vier cobrar o seu direito
    Que todo o dinheiro que ganhastes
    Jamais vos resgatará a alma

    E espero que vocês morram
    E a vossa morte chegue depressa
    Seguirei o vosso caixão
    Na pálida tarde
    E ficarei a ver até vos baixarem
    Ao vosso leito de morte
    E vou vigiar a vossa campa
    Até ter a certeza que estai mortos»

    Bob Dylan, em «Canções» Volume I, Relógio d’Água, Setembro de 2006, tradução de Angelina Barbosa e Pedro Serrano

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Realmente... como é que foram atribuir o Nobel da Literatura ao cantor fanhoso, que é um Extraordinário poeta?
      Pois é...
      Muito bem recordado e trazido à liça!
      Abraço cá da Cidade Morena.

      Eliminar
    2. Arrepiante, fala diretamente com Putin! Os textos intemporais são assim.
      Miguel Henriques

      Eliminar
  2. Incontornável Pessoa:

    A guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
    É o tipo perfeito do erro da filosofia.

    A guerra, como tudo humano, quer alterar.
    Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
    E alterar depressa.

    Mas a guerra inflige a morte.
    E a morte é o desprezo do Universo por nós.
    Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
    Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.

    Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.

    Tudo é orgulho e inconsciência.
    Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
    Para o coração e o comandante dos esquadrões
    Regressa aos bocados o universo exterior.

    A química directa da Natureza
    Não deixa lugar vago para o pensamento.

    A humanidade é uma revolta de escravos.
    A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
    Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

    Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
    Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
    Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

    (Alberto Caeiro)

    ResponderEliminar
  3. " No mictório, à altura das pernas, encontrei precisamente Bébert. Também tinha entrado para se abrigar. Vira-me correr quando saí da casa dos Henrouille. "Vem da casa deles?" perguntou. "Então agora tem de subir ao quinto do prédio onde a gente mora, por causa da filha..." A cliente a que ele se referia, conhecia-a eu bem. A ela e à sua bacia larga...às belas coxas, longas e aveludadas...Ao seu qualquer coisa de ternamente voluntário e à graciosidade precisa dos movimentos que completam as mulheres sexualmente bem dotadas. Tinha vindo consultar-me por várias vezes, depois de se achar atacada por um certo mal de ventre. Aos vinte e cinco anos e já no terceiro aborto, sofria de complicações a que a família chamava anemia.
    Como ela era sólida e bem constituída, com um gosto pelo coito como poucas mulheres terão! Só visto."
    Louis-Ferdinand Céline- Viagem ao Fim da Noite

    ResponderEliminar
  4. Poema da Terra Adubada

    Por detrás das árvores não se escondem faunos, não.
    Por detrás das árvores escondem-se os soldados com granadas de mão.

    As árvores são belas com os troncos dourados.
    São boas e largas para esconder soldados.

    Não é o vento que rumoreja nas folhas, não é o vento, não.
    São os corpos dos soldados rastejando no chão.

    O brilho súbito não é do limbo das folhas verdes reluzentes.
    É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes.

    As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.
    É o sangue dos soldados que está vertido no chão.

    Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar.
    São os silvos das balas cortando a espessura do ar.

    Depois os lavradores
    rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados,
    e a terra dará vinho e pão e flores
    adubada com os corpos dos soldados.

    António Gedeão, Linhas de Força (1967)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Gedeão é eterno, e, sempre sublime, sábio até, um alquimista.
      A sua poesia mais do que tudo respira sabedoria, uma sabedoria iniciática, telúrica vinda das profundezas do Universo e do nosso ser.
      Este poema diz tudo o que há para dizer.

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório