Liberdade de expressão

Há uns dias, o Facebook enchia-se de partilhas de um vídeo com a canção de Chico Buarque Com Açúcar, com Afecto, cantada por Nara Leão, Maria Bethânia e tantas outras grandes vozes do Brasil, quando não pelo próprio Chico, claro, a solo ou em dueto. Foi, aliás, esta enorme figura a responsável pela partilha em massa da canção ao declarar que não voltaria a cantá-la (e provocando o efeito contrário). E porquê? Porque os grupos radicais feministas, sobretudo um deles, chamado WOKE, acham que se trata de uma canção que apela ao machismo e à submissão das mulheres e não pára de se manifestar publicamente contra o cantor, que certamente perdeu a paciência e prefere poupar-se a isso. Não sabem, porém, esses grupos  que foi a própria Nara Leão quem pediu a Chico aquela canção do doce predilecto que aguarda o marido infiel em casa, e não sabem também que escamotear é a melhor maneira de fazer com que o erro perdure. Paradoxalmente, querem liberdade e esquecem-se da liberdade de expressão... Sobre este assunto, aliás, saiu um muitíssimo interessante pequeno ensaio, Todos os Lugares São de Fala, de Paulo Nogueira, que é um manifesto pela liberdade de expressão num tempo em que as redes sociais estão cheias de polícias, em que começámos a censurar os nossos textos quase sem dar por isso, em que umas luminárias quaisquer decidiram que um escritor heterossexual não pode escrever um romance com um protagonista gay e uma poestisa branca não pode traduzir os textos de uma negra. Leiam-no e dêem-no a ler. E ponham a tocar a canção de Chico Buarque, não podemos deixar que nos calem, ainda por cima, sem açúcar e sem afecto.

Comentários

  1. Concordo com tudo menos com a última frase. A canção é bonita, mas eu compreendo que o Chico Buarque já não se sinta muito confortável em cantá-la. Porque ela canta uma mulher submissa, sim. Na altura era uma situação normal e em grande parte do mundo, aceitável. Mas agora, quando lemos ou ouvimos a letra, continuamos a sentir a arte, mas já não sentimos a situação como saudável e não nos apetece validá-la. Pelo menos a mim, não me apetece. Claro que não vamos deitar a canção para o lixo, claro que continua a ser arte. Mas é uma arte datada. De um tempo para onde não gostaríamos de voltar, agora que já fizemos algum caminho mais esclarecido. Não é condenação por uma canção escrita noutro tempo, não é calar a liberdade de expressão (condeno ambos), é sim deixar lá atrás o que pertence lá atrás. Sabendo que teve o seu tempo, de pleno direito. Mas os tempos são outros. Em que temos plena consciência de que havia situações que não eram condenáveis (pelo menos pela grande maioria das pessoas) nesse tempo, e agora são (não só a misoginia, como sobretudo a sua legitimação pública). Esta evolução é boa. Os excessos não o são, mas há sempre excessos e convulsões nas grandes mudanças, faz parte da História. Aceitemos o bom e condenemos o mau, mas evitemos o excesso, também no contra-ataque. Cante-se a canção, se se quiser. Mas não ostensivamente. Porque a história que conta é triste - e não é para o homem que regressa choroso.
    Filipa

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    Respostas
    1. Cara Filipa:
      ..."agora que já fizemos algum caminho mais esclarecido" .
      Não creio, parece-me que a si ainda falta percorrer caminho e sobretudo ser esclarecida.
      Acho bem que não se coíba de expressar a sua opinião, é para mim seu direito inalienável, todavia lamento-a, pois você faz parte exactamente dos censores modernos, só que não o sabe o que é ainda mais lamentável e revela sobretudo insensibilidade e falta de esquecimento. Tenho até pena de si que perde e não usufrui de tanta coisa bela como esta canção, entrincheirada nas suas limitativas convicções. No fundo é como um pássaro numa gaiola, que não sabe estar encerrada.

      Creio que deveria contactar a Nara Leão e dizer-lhe o que disse aqui, para que ela se arrependa e quem sabe, veja a sua luz, que é a das fogueiras do Santo Ofício moderno.

      Está dispensada de me responder óbviamente, espero mesmo um coro de vozes a dizer que sou desagradável, machista, etc. Sabe que mais? Não me rala mesmo nada aquilo que acham, pois eu sei o que sou.

      Passe bem cá desde a Cidade Morena!

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    2. Ah, grande Pacheco, contra os extremismos, marchar, marchar...
      Com as atitudes que algum feminismo pretende verrumar os conceitos, presumo que mais os acirra.
      A moderação é tudo.

      Abraço desde o Planalto, onde há morenas, brancas e rosadas e onde a mulher tem assento ao lado do homem, em direitos e deveres.

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    3. Bem, que resposta tão mal-humorada! E eu até escrevi que concordo com tudo o que disse a MRP. Excepto a última frase. E por isso mesmo, foi só essa que comentei. Faça-me um favor (e a si próprio) e leia outra vez o que eu escrevi, devagar, e sem partir do princípio (e do preconceito) de que estou a criticar a canção. Porque não estou. Pelo contrário, concordo com a MRP em criticar quem a critica. Mas não me vou por a cantá-la, ostensivamente, como me pareceu que a MRP estava a apelar para que o fizéssemos. Foi só isso que disse. Porque me incomoda um pouco. Só por isso. E incomoda porque, goste ou não da canção, o tema me incomoda. Porque conheço muita gente que sofre ou sofreu de misoginia e acho, sim, que já fizemos um caminho no sentido de nos libertarmos desse preconceito (esse sim). As pessoas (homens e mulheres) já não acham isso normal, porque não o é.
      De qualquer forma, como pensei ingenuamente que tivesse ficado claro, não tenho nada contra a Nara ter encomendado esta canção e o Chico Buarque a ter cantado, na altura. Era a altura certa. Estou a escrever hoje, não naquela altura, e é hoje que não me apetece cantá-la, não naquela altura.
      Mas não fico chateada consigo, muito menos o insulto por me criticar. Sou pela liberdade de expressão, pode criticar-me à vontade, que vou continuar a gostar de o ler.
      P.S. Não tenha pena de mim, que não vale a pena. Não estou em nenhuma gaiola, nem em nenhum dos sítios onde me imagina, do alto das suas certezas.
      Filipa

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    4. Cara Filipa,

      não achei o seu comentário nada extremista, nem radical, nem ignorante, pois a Filipa não apoiou censura nenhuma, apenas criticou a canção. Ninguém é intocável, por melhor artista que seja.

      Concordo com o seu comentário bem educado e explicado e chamo a atenção para o facto de que a Maria do Rosário Pedreira, ao escrever que Chico Buarque «certamente perdeu a paciência e prefere poupar-se a isso» apenas supõe. Quem nos diz que o autor não reconhece que a canção é de facto datada? Tudo suposições, vale tanto uma como outra e só mesmo Chico Buarque nos podia dizer qual o verdadeiro motivo que o levou a tomar tal decisão.

      Não ligue aos insultos, Filipa! Há quem não saiba discordar sem insultar, infelizmente.

      Um abraço.

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    5. Há de dizer, caro Chapim, onde ou como fui insultuoso?
      Confundir insulto com expressar aquilo que se pensa, sem rodeios, é próprio de quem não admite senão a concordância com as suas idéias.
      Pense nisso por favor.

      Boa noite.

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  2. Não ouvir ou ouvir às escondidas uma canção sobre uma mulher submissa. Nao ouvir e fazer uma manif contra uma canção sobre uma mulher rebelde. Proibir a Carmen, poibir o D. Quixote. Programa aliciador para uma época de tolices vivida por pessoas que se consideram o supra-sumo da civilização. Desde que há meios de comunicação social nunca houve tanta falta de informação e tanta gente manipulada.

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  3. O funk brasileiro (não confundir com o americano, que é muito diferente mesmo em termos rítmicos) é dos estilos musicais mais misóginos e machistas que existem. E, no entanto, é também dos mais ouvidos pela nova geração de brasileiros - o que não deixa de ser uma tragédia, tendo em conta o maravilhoso património musical que esse país tem. No funk brasileiro, rebaixar, humilhar e manifestar o mais profundo desprezo pelas mulheres é quase uma condição pro forma. Basta ouvir os atentados musicais de nomes como Mc TH, Mc Lan, Mc LB, Mc Kekel, Mc MM, Mc WM e Louco de Refri. Pois bem, no país onde as letras desses "músicos" são cantadas por milhões de jovens, condenar-se o "Com Açúcar, com Afecto" do Chico Buarque por ser machista soa quase a piada. Uma piada de humor deprimente.

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  4. Que vidinha triste (e cheia de complexos...) tem essa gente que passa o tempo a rebuscar a vida dos outros e a apontar dedos...

    Não deve valer a pena insistir para que "vivam e deixem viver"...

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  5. Ao ler este post da MRP, com o qual concordo na íntegra, fiquei a saber duas coisas.
    Primeiro, que esta canção tinha sido censurada por um grupo extremista do feminismo bacoco, que não sabe distinguir uma letra que retrata um período (negro, porém) que existiu de submissão; segundo, que o tal WOKE não se trata de uma espécie de frigideira com um revestimento antiaderente, feita em alumínio ou aço inoxidável.
    Pelo sim, pelo não, a frigideira é conhecida por WOK e o tal movimento nem sei como é conhecido, talvez por BR (Brigada dos Costumes).
    Note-se que não sou machista nem feminista. Respeito a mulher, considerando-a igual ao homem, tão só... E detesto extremismos, lutas de classes, de raças e de género, para só apontar estes.

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  6. Penso que foi Wilde quem disse que a arte não é moral nem imoral. É amoral.

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  7. É um dos assuntos na ordem do dia. Quando leio sobre o tema, penso sempre na quantidade de óperas com música maravilhosa mas com libretos desgraçados no que respeita os papéis femininos. Por vezes, os encenadores tentam dar a volta à história, com encenações modernas colocando a história original noutra época e espaço, mas na maior parte das vezes sem sucesso.
    Que fazer? Como fazer? A resposta não é fácil quando se pesa o argumentário contra e a favor.
    Teresa Biu

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  8. Para não comentar comentários e colocar apenas a minha opinião, prometo que não sei cantar nem vou cantar esta canção. Li a poesia e não vejo senão um homem que gosta de copos e futebol (não consta que ande com mulheres como nos afamou o holandês), anda com os amigos e quando chega tarde a casa, pede perdão à mulher...

    "Quando a noite enfim lhe cansa
    Você vem feito criança
    Pra chorar o meu perdão
    Qual o quê
    Diz pra eu não ficar sentida
    Diz que vai mudar de vida
    Pra agradar meu coração"

    Ora, se o rapaz pede perdão, é porque sabe ter faltado "ao horário".

    Acaba a mulher por perdoar, porque ele também vem do trabalho (será até o único sustento)
    "E ao lhe ver assim cansado
    Maltrapilho e maltratado
    Como vou me aborrecer?
    Qual o quê
    Logo vou esquentar seu prato
    Dou um beijo em seu retrato
    E abro os meus braços pra você"

    O feminismo vê nisto um atentado? A quê? À suposta submissão da mulher, que não está expressa na poesia, assim como não se encontra implícito qualquer mau trato físico de parte a parte? Será que era este poema capaz de ser cantado por cego numa feira, com sanfona e harmónica, para a venda da canção do ceguinho impressa, à guisa de drama de faca e alguidar? Seria mais tolerável o contrário, homem a cozinhar e a lavar pratos e a mulher passar o tempo com as amigas e a ver novelas em vez de futebol?

    É uma canção apenas, dada ao optimismo e intimidade de um lar operário. Talvez o retrato de uma época passada (ou talvez não). Mas, é claro, a WOKE e aqueles que aVOCAm o primado da censura, na quentura dos seus gabinetes e com ordenado certo e chorudo no final do mês, sempre podem mandar imprimir os versos para os queimaram na pira pública.


    Há coisas bem piores e deixam passar.

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