Livros ilustrados

Tendemos a pensar que os livros ilustrados são só para meninos pequenos e que, quando uma criança os abandona e começa a ler apenas livros de texto, é porque se tornou um leitor independente. Leio no New York Times um artigo de uma especialista, Pamela Paul, que não concorda com isto e tem pena de que os pais privem filhos pré-adolescentes (e até se privem eles próprios) de livros com ilustrações, porque não os considera de forma alguma infantis (embora o possam ser, claro) e diz que frequentemente este preconceito pode acabar por afastar definitivamente as crianças da leitura. Além disso, Pamela Paul diz que os livros com ilustrações fundem duas artes distintas (a literária e a visual), oferecendo duas leituras: a do texto, claro, e a das imagens, que conta uma história paralela, não sendo uma mera tradução do enredo. Depois, as ilustrações contemporâneas, que já não são de meninas lindas e perfeitinhas e meninos certinhos e com a camisa entalada nas calças, ajudarão a que os leitores se identifiquem mais facilmente com as personagens, e isso é o que faz realmente um leitor, a afinidade  com as personagens. É também importante o facto de muitas vezes ser o desenho que esclarece sobre determinada palavra difícil ou nova, somando-a ao léxico da criança. Pamela diz que, para fomentar a leitura, não se devem tirar de repente os livros ilustrados às crianças para elas não os associarem às leituras por prazer e associarem depois os livros de texto à chatice e à obrigação. Razões mais do que suficientes para nunca banirmos os livros ilustrados das nossas bibliotecas e estantes, diria eu, que até gosto de ler romances gráficos e tenho alguns livros infantis guardados no coração.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco30 de março de 2021 às 03:39

    Bom, esta é a "horta" do nosso Extraordinário Fernando Costa!
    Não só, mas bastante... eheheh!

    Lembro-me perfeitamente que comecei a "ler" nos livros que tinham ilustrações... os livros de história sobretudo! Fazia escassa idéia do que estava a ver (a "ler"), mas folheava e estudava atentamente as ilustrações, muitas delas magníficas e da autoria de ilustradores ou reproduções de obras de grandes pintores: Columbano, David, Roque Gameiro e muitos outros, dependendo da obra. Adorava aquilo, lembro-me perfeitamente, e, foi assim e por isso que me fiz leitor, graças à biblioteca que havia em casa, bem recheada de enciclopédias e outras obras, história natural, geografia, história de Portugal, França, Universal, da guerra, de viagens que normalmente são profusamente ilustradas, etc.

    Quando era miúdo e já depois, jovem, havia muita obra ilustrada! Logo para começar a colecção do Júlio Verne, mas também as da Enid Blyton e outras.
    Hoje caiu em desuso... será que encarece a obra, ou é porque falta essa ligação entre a palavra e a imagem?

    Saudações com imagens e palavras, cá da Cidade Morena!

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    Respostas
    1. Caríssimo Extraordinário Pacheco
      Eu não sou um bom ilustrador de livros, mas há em Portugal muito bons ilustradores, alguns bastante jovens e talentosos. Nem todos os livros são "ilustráveis" ou necessitam desse complemento, o que não quer dizer que a ilustração e o desenho, quando apelativos, não sejam um pretexto para uma boa leitura.
      Aqui há uns anos, escrevi para as Selecções do Reader's Digest porque esta editora deixou de trazer - como o fazia até ali - as ilustrações esparsas nas quatro condensações. Uma vez que as obras não vinham "inteiras", não era de todo despropositado que viessem ilustradas. Como resposta ( coisa rara no meio editorial, mas obtive resposta) , asseguraram-me que o fizeram porque houve leitores que não queriam ver os livros de ficção ilustrados.
      Pese embora o respeito pelas opiniões, todas legítimas, achei estranho as reacções, tanto mais que se tratam de obras de leitura abreviada, que eu coleccionava e não lia, por desejar a obra "ao natural". Suponho que os compradores dos condensados, sendo apanhados com aqueles cartapácios, poderiam ser julgados de bibe saídos da primária mais próxima.
      No meu caso, publicado por mim ou por editoras, não se optou por ilustrar no miolo (ilustrei capas), a não ser obras que requeriam esse método. No caso da BD é outra coisa, uma vez que a ilustração e o texto andam de mãos dadas.
      Há romances gráficos ou "comic books" que são autênticas obras de arte, onde não incluo os meus trabalhos (e não é por modéstia). Passei ao dito romance gráfico "O Malhadinhas" porque me foi solicitado e, no respeito pelo Autor, coloquei lá, vinheta a vinheta, todo o texto de Aquilino. É um cartapácio A3. Fi-lo graciosamente, embora estivesse um município no grupo que o editou; ainda o fiz com receio, porque o fiz sem o Autor do texto, obvimamente aprovar ou reprovar, o trabalho. Já o tinha feito com um autor italiano, mas no caso não me doeu tanto a consciência, porque suponho que adaptar um texto a solo, quando há dois autores, há usurpação de parte da obra.
      Só agora vi o blog, porque trago trabalhadores a pintarem o exterior da moradia. Li com agrado o texto da Extraordinária Rosário e o seu comentário (aliás, leio-os todos) e fico grato a ambos - bem como a todos os Extraordinários - pela vossa sempre oportuna intervenção.

      Abraço desde este Planalto onde (felizmente) só há um infectado com o vírus de que não pronuncio o nome.

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  2. Quando as letras se cruzam com as ilustrações podem tocar corações .

    "O Príncipezinho"
    Antoine de Saint-Exupéry
    anotado por José Luís Peixoto e Ilustrado por Hugo Makarov

    Edição exclusiva Expresso e Visão



    AM

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  3. Partilho a opinião da Pamela Paul. A ideia de que a ilustração diminui o texto está desatualizada e num mundo cada vez mais visual e com a imagem sempre presente é bom que ela esteja também nos livros. Dulac, Doré, Parrish, Tarrant, tantos ilustradores maravilhosos!
    Teresa Biu

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  4. Como gostei de a ler Maria do Rosário. Também essa é a minha opinião, tenho alguns trabalhos escritos ilustrados, mas infelizmente as editoras ainda não estão recetivas. Resta-me aguardar que haja alguma a valorizar este tipo de trabalho.
    Tudo de bom.
    Bjs

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