Tragédias

Uma colega minha mandou-me um recorte de jornal que, se não fosse bastante próximo do que eu já esperava, deitaria abaixo qualquer pessoa que trabalha no ramo dos livros, fazendo-a querer mudar imediatamente de sector. Tem que ver com o estado da leitura em Portugal... que é catastrófico, e não é de hoje. Segundo o Eurobarómetro, dos 27 países da União Europeia, Portugal era em 2013 o último da lista dos que tinham lido pelo menos três ou cinco livros num ano (só 12,5% dos portugueses tinham lido cinco livros num ano e, no país pior a seguir a nós, a Roménia, eram 18,5% os que o tinham feito; no caso dos três livros, a diferença era ainda mais gritante: de 18,7% para 30,5%). Entre 2007 e 2016, houve, porém, uma queda no número dos que tinham lido em Portugal pelo menos um livro (só um!), de 44,7% para 39,5%, concluindo o estudo que, no ano de 2015, houve cerca de 62% de portugueses que não leram um único livro. Com a pandemia e os períodos de confinamento obrigatório, em muitíssimos países europeus cresceu muito significativamente o número de leitores. Aqui, porém, com o fecho das livrarias, a proibição temporária de venda de livros noutros espaços, a desconsideração votada ao livro pelos responsáveis governamentais e, por outro lado, os meninos agarrados aos computadores o dia todo (para a escola e não só), não há esperança de os números melhorarem. Até tenho medo de ver os dados do Eurobarómetro de 2019. A leitura está cada vez mais confinada num grupelho de malucos como nós.

Comentários

  1. Não havendo leitores - principalmente nesta nova geração - também não poderá haver escritores, decrescendo o número em ambas as situações. Em contrapartida, aumentarão os records de jogos nos tablets, smarts e computadores e visualizações no porn-hub para todas as idades. Não creio que se leia nesses meios.
    O mais incrível não é encontrar a culpa nesta nova geração, mas quem a educou; ou seja, a nossa geração, particularmente a minha. Façam uma estimativa das prendas de Natal e de aniversário e vejam a percentagem de livros oferecidos aos jovens e a relativa a mais carregamentos de jogos da playstation. está tudo dito.
    Dirão alguns que é a evolução. Não os contrario mas, por este andar, evoluímos de tal maneira que acabará o ser humano a readquirir a cauda e a subir às árvores. E a bater records de jogos de cabeça para baixo, com a cauda enrolada no ramo mais alto.

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  2. Eu tenho gosto em me incluir nesse grupo, não de malucos mas de amantes dos livros e concordo em tudo o que Stefan Zweig disse um dia sobre "Agradecimento aos Livros", de que cito a última frase: "Todavia, quando as nossas mãos vos libertam, quando o coração vos toca, logo invisíveis despedaçais o espaço; a vossa palavra leva-nos em carro de fogo, arranca-nos da prisão estreita e conduz-nos `a eternidade". Eu ainda consigo ler cerca de 50 por ano, mas gostaria de ler mais; por contraditório que pareça estou a ler menos em tempos de pandemia!

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  3. Sabeis que reside uma "tragédia" para cada certeza, porém se cada (maluco) prescindir com esperança, estrelas ão de ser mais brilhantes.

    Cláudia da Silva Tomazi

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    1. Olá Cláudia, há quanto tempo não tinha o gosto e o prazer de a ler? É um prazer, já tinha saudades de ler as suas enigmáticas mas belas palavra -seja bem vinda!

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  4. Quando presidentes de república, políticos, dirigentes partidários, figuras públicas, famosos se exprimem por tuítes, expressões mais demoradas, mais ricas e mais complexas ficam colocadas fora da órbita e, pela repetição, fora do alcance de grandes setores da população. Daí ao abandono da leitura é um passo curto.

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  5. Sérgio Tovar de Carvalho10 de março de 2021 às 03:35

    Carlos T escreveu, a propósito, "Ai, senhor das furnas, que escuro vai dentro de nós..." ("A gente não lê", in Rui Veloso, "Fora de moda", 1982.

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  6. Bom dia a todas as excelentíssimas e extraordinárias pessoas,

    FANTASIA E REALIDADE

    No início do século XX, quando da implantação da República, Portugal tem cerca de ¾ da sua população sem saber ler nem escrever, valor superior ao dos restantes países do Sul da Europa e muito distante da realidade do Norte da Europa, onde esse problema estava já controlado desde meados do século XIX . Neste domínio estávamos com mais de um século de atraso em relação à Europa mais evoluída.

    Contudo, e com a ventania dos tempos, no início deste novo século XXI, em Portugal já quase todos sabem ler e escrever.
    Mas, - hélas! - a iliteracia e o desinteresse permanecem. O facto de saber ler e escrever não chega. E não vale a pena ignorar este assunto porque ele é, cada dia que passa, mais e mais avassalador.
    Basta olhar em todas as direcções.

    Há que mudar a estratégia. Não posso apontar soluções porque isso não é a minha "especialidade", mas sinto, sentimos, todos - enfim, alguns - sentimos que a estratégia tem de ser outra no que diz respeito ao ensino das leituras a ter, a recomendar, a orientar. Um esforço imenso terá de ser feito. Tão grande como outro esforço qualquer, desses considerados pelos nossos governantes, como de grande importância...

    Bom mesmo era que se saísse de um mundo de fantasia e se passasse à realidade.
    Pouquíssimos são os portugueses dedicados à leitura.
    Continuamos, pois, na mesma, em relação ao resto da velha Europa.

    Sonhar sim, mas perceber a realidade. Só percebendo e conhecendo a realidade, os sonhos se tornam verdadeiros.

    Cristina Carvalho

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  7. Quem tem filhos adolescentes ou no começo da idade adulta percebe que estes tempos têm tudo contra os livros e contra a sua leitura (atenta e descontraída...).

    A minha filha foi uma "devoradora" de livros até lhe darmos um telemóvel (era impossível não o fazermos, estaríamos a transformá-la numa "analfabeta tecnológica"...).

    Depois, o Poder nunca fez nada pelos livros. Percebe-se que os nossos políticos continuam a ter medo de quem lê livros (vá-se lá perceber porquê...) e por isso nunca tomaram medidas que tornassem a leitura popular, foi desde sempre uma coisa de "minorias".

    E infelizmente cada vez somos menos...

    Mas o mais curioso, é que temos cada vez mais escritores. Há mais gente a "querer contar", que a "querer escutar e saber". Este mundo de "sabões" não é nada bom para a leitura, nem para um conhecimento das coisas mais aprofundado...

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    1. Bom dia com alegria e pandemia

      O melhor amigo do homem já não é o cão.

      Em confinamento, o melhor amigo do homem chama-se router com controlo parental. Nome pomposo para um zingarelho que funciona como cancela de acesso a esse maravilhoso mundo internaútico, impedindo excessos e regulando/equilibrando o tempo de acesso da prole com outras actividades.

      Há vida para além da Net. O problema é que eles, os jovens, coitados, não sabem.

      Temos de lhes mostrar...

      Saúde e boas leituras
      cp

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    2. Caro Luís, se a sua filha já foi uma "devoradora" de livros, o mais natural é que volte a sê-lo. Não se esqueça de que a adolescência é uma fase "in-between", os jovens estão à procura de uma identidade e o mais certo é não saberem onde a procurar. Além disso, deslumbram-se com novidades. Certo é que, quanto mais se critica algo, mais os adolescentes insistem nele. É um processo natural, de tentativa de demarcação em relação aos pais. Quando, porém, souberem onde procurar essa identidade, regressam normalmente aos bons hábitos adquiridos na infância.

      Por isso, embora mostre algum desagrado pelo seu apego ao telemóvel, não critique demasiado! E não perca a esperança! Vai ver que ela ainda o surpreende.

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    3. Eu não a critico, nada mesmo, Cristina.

      Sei que nunca devemos obrigar ninguém a ler. Podemos quanto muito fazer alguma "publicidade" a bons livros e bons escritores. :)

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  8. Bom dia com alegria e pandemia

    Comungo das preocupações enunciadas.

    Atrevo-me a reproduzir aqui um desabafo epistolar que dirigi á RELI, com cópia outros interessados na matéria.

    "Carta de um leitor porventura romântico ou mesmo utópico e ingénuo

    Cara Reli (Rede de Livrarias Independentes),

    Espero que esta missiva electrónica a encontre de boa saúde, apesar de todos os constrangimentos pandémicos, e da perene e atávica crise económica e cultural.

    Tomei a liberdade de lhe escrever, pois o português é mestre na arte do bitaite e da opinião. E eu atrevi-me á presunção de lhe transmitir dois ou três, que reputo na categoria “e porque não?”, á laia de um pensamento fora da caixa.

    Exactamente porque a minha formação não é nas letras nem na filosofia nem nas ciências sociais. Também porque, profissionalmente, sou do campo dos números (zeros e uns, muitos) e dos mangas de alpaca.

    Portanto estou em óptima posição para opinar: não percebo nada de livros, livreiros, livrarias, alfarrabistas, autores, escritores, editores e outras dores.

    Aqui vai.


    Bitaite primeiro, doravante designado por fiscal.

    O bitaite fiscal vai no sentido de reclamar para o sector livreiro uma descriminação positiva em sede de vários impostos.

    Racional: o Estado taxa o tabaco, por forma a dissuadir o consumo, e para promover a saúde dos portugueses, e para evitar custos acrescidos para o SNS no longo prazo, e para compor as receitas do orçamento de estado. Porque não aligeirar a fiscalidade sobre o sector, ou conceder benefícios fiscais ao leitor? Tudo para promover o consumo desse bem cultural chamado livro?

    Exemplos fáceis de enumerar pois nada percebo de Finanças, públicas ou privadas:

    Isenção de IVA, á semelhança da saúde. Livros sem IVA.
    Benefício fiscal em sede de IRS. Percentual da soma gasta em livros seria dedutível no imposto de rendimento.
    Benefício fiscal em sede de IRC, concedido a estabelecimentos comerciais com facturação inferior a X milhares eur, exclusivamente destinados á venda de livros e não ligados a grupos económicos, editoriais ou não. Vulgarmente designados, livrarias independentes.

    Um país cuja autoridade fiscal sorteia carros pode também dar-se ao luxo de investir na formação cultural dos seus contribuintes.

    Como forma de compensar a eventual perda de receita, sugere-se que, á semelhança de cabeleireiros, restaurantes e mecânicos de automóveis, as facturas de advogados também confiram as mesmas prerrogativas fiscais aos cidadãos. O alargamento da base de tributação do IMI a imóveis detidos por entidades religiosas, partidos políticos, etc, poderia também ajudar a custear esta opção orçamental.

    Sou a favor da discussão pública, aberta e fundamentada, por dados concretos, destas opções. Com tanta comunicação electrónica de facturação ás Finanças já se terá alguma base sólida para discutir o assunto através do recurso á aritmética, entre outras técnicas.


    Bitaite segundo, doravante designado por legal.

    Fazer cumprir a futuramente reformulada Lei do Preço Fixo do Livro. Reformulada porque não permite excepções nem descontos, mesmo os encapotados por via dos cartões de fidelização. A ninguém. O desconto virá no IRS a menos, por efeito do bitaite primeiro.

    Racional: deverá ser indiferente, em termos de preço para o consumidor, adquirir o livro na Grande Cadeia Fenomenal como na Livraria Da Esquina. O consumidor decidirá segundo outro critério que não o preço, porque este será igual em todo o lado.

    O consumidor comprará livros, não descontos.

    O bem cultural livro não poderá ser tratado como o detergente ou a batata, vendido a peso.


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    1. (continuação)

      Bitaite terceiro, doravante designado por formativo.

      Por forma a: evitar o embrutecimento geral da população, em particular das gerações mais novas; promover a literacia e exercitar o intelecto, é proposto a formação de clubes de leitura a nível escolar, empresarial e municipal.

      Não basta ler, há que debater o que se leu.

      Sendo esta a sugestão de mais difícil concretização, pois implica vencer uma grande inércia e preguiça mental de cerca de dez milhões de potenciais leitores, deverá tal medida ser coadjuvada com o bitaite segundo.

      De notar que, por simplificação de raciocínio, existindo uma geração de leitores activos e interessados, existindo procura de livros, grande parte dos problemas do sector (e do país) estará resolvido.

      Parece fácil mas não é difícil.


      Sendo V.Exª uma associação de defesa do sector livreiro, pelo menos da parte representativa de “uma imensa minoria” que crê existir vida para além do best-seller, arrisquei as medidas enumeradas, na esperança vã que elas sejam por si atendidas e defendidas junto do poder político.

      Tentando estimular a procura e equilibrar/regular a oferta poderíamos ter todos um futuro mais risonho.

      Acredito que, conseguindo concretizar estas sugestões, eu próprio me aventuraria na abertura duma livraria.

      Caso contrário ficarei com os epítetos da epígrafe para mim, conformado com a definição ouvida dum dono duma livraria sobre o seu mister: “a arte de empobrecer alegremente”.


      Aceite os respeitosos cumprimentos deste seu futuro colega

      Saúde!
      cp

      PS: Tomei a liberdade de incluir em bcc algumas personalidades que poderão eventualmente vislumbrar algo de interessante nos meus bitaites nas minhas opiniões mui ponderadas, quiçá mover influências.

      PS 2: Todos juntos venceremos este desiderato.

      PS 3: Ou isso, ou definharemos na imbecilidade colectiva…"



      Saúde e boas leituras
      cp

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    2. António Luiz Pacheco10 de março de 2021 às 05:54

      Aplaudo a sua iniciativa, e aos bitaites, que serão assim e desde já tritaites!
      Esperemos que se multipliquem e tenhamos miliotaites!
      Grande abraço!

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    3. Concordo; devia enviar esses bitaites ao senhor ministro da Educação e à senhora ministra da Cultura!

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  9. António Luiz Pacheco10 de março de 2021 às 06:01

    Ora vejamos, será então endémica e profundamente cultural o facto de não sermos um país onde se lê?
    Isso terá a ver com alguma característica psicossomática? Será efeito da geografia, do clima... de quê?
    Como bem disse a Extraordinária Cristina, há que ser realista e conhecer as causas desta situação que parece ser efectiva, perene!
    Não nos compete, não somos académicos nem investigadores, apenas damos bitaites e constituímos um grupo de "malucos dos livros" (eu sou uma traça livreira... aviso já!).
    Mas podemos e devemos debater a questão - como ainda ontem o fizémos - enquanto gente com intelecto e um interesse comum na leitura ou mesmo na escrita. Há que fazer pressão no sentido de divulgar e levar o livro à escola.
    Por outro lado, realmente, se pouco se lê, como, porquê e para quê haver tanto escritor como se afirma... haverá mesmo?

    Saudações livrescas cá da Cidade Morena.

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  10. Apenas leio livros, os negócios quaisquer que eles sejam, ficam-me longe, mas faço por não esquecer o conselho que Carlos Ruiz Zafón deu em «A Sombra do Vento»:
    «No dia em que você compreender que o negócio dos livros é uma miséria pegada e decidir aprender a roubar um banco, ou a criar um, que vem a dar no mesmo, venha ter comigo e eu explico-lhe umas coisas sobre fechaduras.»

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  11. Mais uma vez não estou inteiramente de acordo com as premissas. «Cada vez se lê menos?!» Ou cada vez se lê, talvez, menos ficção? Ou cada vez há mais dispersão naquilo que se lê? Pensar o presente com os olhos do passado é um pouco como ler o passado com os olhos do presente.

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  12. Eu li 14 livros desde o inicio do ano... espere que de alguma forma compense pelos que não leram nenhum

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    1. Eu li, onze. Raios, já me ultapassou...

      Celeste Silveira

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  13. Os livros em Portugal são caríssimos.
    Por exemplo Em França andam bem por metade do preço....

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  14. Olá Maria do Rosário,
    A fundo ainda ninguém se dedicou a estudar esta falta tão grande de interesse na leitura de livros, pois há muitos que referem que até leem: jornais, notícias na net, etc. Do meu ponto de vista os jovens, porque também tenho filhos nessas idades, não são só desviados da leitura pela atração do computador e outros gagets. Os meus foram expostos desde cedo à leitura, que era escolhida por eles sob a nossa orientação, e com frequência ainda o fazem. Atualmente as pessoas querem tudo rápido: desde atividades até à leitura, não gostam de perder tempo com textos longos e preferem séries que assimilam sem pensar, pois a leitura é isto Ler = Pensar.
    Tudo de bom.
    Bjs

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  15. As coisas agravaram- se com a netflix, muita gente colocou os livros de lado e agarraram-se às séries, é muito triste. Não sei para onde Portugal caminha , desta forma, um pais de ignorancia?

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  16. Seria importante que editoras e editores - empresas e pessoas que publicam livros - também reconhecessem a sua parte (significativa) neste problema devido às frequentes más escolhas que fazem de livros a lançar e de autores a apoiar, e também pela deficiente promoção que fazem de todos em geral. E ainda por não investirem decidida e significativamente na exportação da literatura portuguesa.

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  17. Partilho aqui (apropositadamente, julgo) um excerto da introdução de John Carey ao seu livro Pure Pleasure (2000), esperando que o seu interesse compense a sua extensão (de que peço desculpa):
    «É errado pensar que o que ganhamos com a leitura nem precisa de ser explicitado. Porque, se isso fosse assim tão óbvio, haveria mais leitores. Na prática, explicar os proveitos da leitura a não-leitores é extremamente difícil. E, além disso, suscita uma oposição articulada. Se alegamos que ler expande os nossos horizontes mentais e nos permite experienciar mais do que uma vida, os não-leitores respondem que essas são justamente as vantagens que o cinema e a televisão oferecem. Por isso, o que tem a leitura de especial?
    O que tem de especial, estranhamente, é resultado de uma imperfeição do tipo de comunicação dos livros por comparação com a da televisão ou dos filmes. As imagens transmitidas na televisão ou nos filmes são um veículo de comunicação quase perfeito, porque se parecem com aquilo que representam. As palavras escritas não. São apenas marcas pretas no papel. Para representarem algo, têm que ser decifradas por um praticante competente. Embora leitores assíduos o façam instantaneamente, traduzir palavras impressas para imagens mentais é uma atividade incrivelmente complexa. Envolve uma capacidade imaginativa diferente da de outros processos mentais. Se a leitura acabar, esta capacidade desaparecerá — e as consequências são incalculáveis. Porque a leitura e a civilização cresceram juntas e não sabemos se uma pode sobreviver sem a outra. A capacidade imaginativa exigida pela leitura está claramente ligada, psicologicamente, com a aptidão para fazer juízos e a disposição para a empatia. Sem a leitura, estas faculdades podem definhar. (...) Quando se interrompe a leitura de um livro e se começa a ver televisão, a impressão de relaxamento é imediata. Isso acontece porque uma grande parte da mente ficou inativa. As imagens lampejam diretamente para o cérebro. A nossa participação ativa não é requerida. Isto implica que uma democracia composta maioritariamente por consumidores de televisão é árida, do ponto de vista mental, quando comparada com uma democracia composta maioritariamente por leitores. A democracia moderna passou da segunda para a primeira na segunda metade do século XX»

    Paulo Lopes

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  18. Pergunto-me se uma solução estaria em incluir outros livros nas leituras obrigatórias na escola.

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