Palavras proibidas

O mundo está cada vez desengraçado, sobretudo desde que, em plena democracia (pelo menos, em teoria, é uma democracia), o que começou por ser um politicamente correcto cheio de boas intenções passou de repente a crítica feroz a determinado tipo da linguagem, mesmo inocente, que leva depois a uma permanente autocensura e a um cuidado excessivo que nos retira qualquer espontaneidade. Li, consternada, a notícia de que num hospital do Reino Unido as parteiras foram aconselhadas a prescindir da expressão «leite materno» para não ostracizar pessoas transgénero e abranger famílias não tradicionais (e cito: «incluindo agenderbigender e genderqueer»), substituindo-a por «leite humano», que é uma coisa que, na minha modesta opinião, cheira quase a filme de terror. Mas, se a arte parecia uma coisa à parte, livre desta «censura» da linguagem, desenganem-se. O medo de ofender chegou à literatura (em certos países mais do que noutros) e deve estar presente na cabeça dos escritores norte-americanos todos os dias. Agora, que tenho mais livros de autores que publico em, Portugal traduzidos noutras línguas, nomeadamente em inglês, tenho verificado que certas metáforas até algo ingénuas (como, por exemplo, referências a índios e cowboys em brincadeiras infantis) são mal acolhidas pelos tradutores norte-americanos, que as acham inaceitáveis e ofensivas para os nativos, pedindo simplesmente para as omitir ou permitir a troca por outras, mais amigas das minorias. Se um autor estiver, por isso, apostado sobretudo em internacionalizar-se, cuidado, pois em certos países vai ter de abdicar de muito do que escreveu.


Deixo o link donde tirei a notícia para que alguns comentadores vejam que aqui as expressões são mesmo as que citei:


https://zap.aeiou.pt/hospital-pede-que-parteiras-nao-digam-amamentacao-e-leite-matern-380356?fbclid=IwAR1B4K9b3wP7RYMo27wfFK4hhe4QkUTgRCst-0NYA3VXUyckhChT-l0cQ7w

Comentários

  1. Bom dia com alegria e pandemia


    Confesso que não percebo:

    - por um lado, existe o politicamente correcto referido;

    - por outro lado, temos a saltar como pipocas, um pouco por todo o mundo, líderes políticos boçais, ignorantes e incultos, cujo paroxismo, na sua estirpe americana, se gabava de conseguir ser eleito mesmo se desse um tiro em alguém em plena artéria nova iorquina;

    O ano passado tivemos nos tops de livros mais vendidos em Portugal, um título com a "F-word" na capa. Descontando o facto, vox populi, que os tops são manipulados, o tempo que o livro permaneceu nos escaparates leva-me a concluir que deve ter vendido bem.

    Ou seja, estamos longe de ser uma sociedade puritana, composta por virgens ofendidas e quejandos.


    Saúde e boas leituras
    cp

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    1. PS: A propósito deste tema, deixo aqui a seguinte citação:

      ***
      "Please, what are public relations?" said Khashrahr
      "That profession, "said Halyard, quoting by memory from the Manual, "that profession specializing in the cultivation, by applied psychology in mass comunication media, of favorable public opinion with regard to controversial issues and institutions, without being offensive to anyone of importance, and with the continued stability of the economy and society its primary goal"

      "Player Piano" - Kurt Vonnegut

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  2. António Luiz Pacheco4 de março de 2021 às 02:42

    As liberdades conquistadas , acabam por produzir "libertários" que só olham à sua própria liberdade e ignoram a alheia!
    Em nome de uma liberdade que a nós gente comum ou normal, custa a perceber como tal, justamente por ser a liberdade de alguns, definida por eles, que tratam de coartar toda a demais liberdade que eles definem como sendo ofensa ou atentado a pretensos direitos, aliás também por eles definidos.
    Os direitos adquirem-se naturalmente pela e com a evolução da sociedade, com a alteração das mentalidades, hábitos e práticas, como a cultura evolui com o conhecimento e as novas
    comodidades ou o que dele deriva. As mulheres ocuparam o seu novo lugar, aceites como o que são e na sua diferença, que pensar que são iguais é um erro! Idem para os homossexuais, para as outras raças. Integração deve ser palavra de ordem, igualdade sim, mas de direitos e deveres, não absoluta pois há diferenças positivas que devem ser mantidas pelo equilíbrio, estabilidade e bem-estar!

    Este exemplo aqui trazido, foi no que deu e ainda vai piorar! Esta implementação daquilo que se julga ser "ampla liberdade", mas não é, que produziu feminismo, animalismo, anti-racismo, homossexualidade, liberalismo, sei lá o que mais! Só criou animosidades, desestabilização e pior, aumentou a intolerância!
    Não temos de ser contra nenhuma daquelas ideologias ou opções, o problema é que quem as defende pretende impô-las a todo o custo, enquanto formas de viver e de estar, como se fossem as únicas, o topo da evolução, e, pretendem censurar todo o resto que no seu entender não se enquadre!

    É deveras uma ditadura das minorias ruidosas, que se pretende instalar a todo o custo e com um custo que ainda ninguém conseguiu avaliar, mas eu arrisco dizer que será o fim da civilização ocidental, da nossa, que foi livre e tolerante a ponto de permitir que dentro dela nascessem e se desenvolvessem estas idéias e correntes alternativas, que hoje se pretendem como imposição.
    Por acaso tal acontece nas sociedades islamizadas? Comunistas? De extrema direita - onde é que há hoje um regime de extrema direita? Sejam honestos convosco mesmos e pensem, reflictam um pouco nisso.
    Os inimigos da liberdade são os próprios que julgam agir em defesa dela, mas como disse distorcendo-a segundo a sua visão.
    Enquanto isso, os outros inimigos da liberdade, os cultores do obscurantismo religioso, político e social observam e agradecem, aguardando a sua vez de entrar em cena, impondo depois a sua lei, que não vai contemplar ninguém daqueles.
    Depois eventualmente seguir-se-ão gerações de luta pelo repor da liberdade então perdida, numa espécie de girândola!
    Não duvidem, aqueles que assistem com um encolher de ombros, ou os activistas que militam nestes grupos de pressão, tentando fazer lóbi pelo seu interesse, desejando provocar o desaparecimento de tudo o que não lhes agrade ou se encaixe nos seus ideais.

    Saudações políticamente incorrectas mas tolerantes em presumido esclarecimento, cá da Cidade Morena!

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  3. "Leite humano" - soa mesmo a filme de terror. A corrida do políticamente correcto não pára.
    Qualquer dia alteram o termo "menstruation" para "womenstruation". Os americanos estão sempre à frente nesta corrida.

    Quando oiço o meu pequeno a pedir para sentar "perninhas à chinês", ir em "fila indiana" para a cantina ou a querer pintar com o lápis "côr de pele", temos muitas alterações para os lobbies do políticamente correcto atacarem. O único reparo que lhe faço é do lápis "côr de pele" e lhe pergunto qual pele.

    A continuar assim os livros que sejam vendidos em diversos países do mundo terão diferentes versões da obra do autor conforme as tradições para não melindrar ninguém.
    Estou a imaginar alterações em livros de BD do Astérix (caricaturas dos povos), do Lucky Luke (a questão do tabaco, dos índios e dos chineses) ou o mais atacado Tintin.

    Boas leituras. Estou a deliciar-me com o "Galveias" do José Luís Peixoto.
    Henrique Vogado

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    1. Esta é mesmo boa: "menstruation" para "womenstruation"; será uma proposta da nossa Inês Pedrosa?

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  4. Bom dia a todos/as os grandiosos/as e simpáticos/as Extraordinários/as que estejam dispostos/as a ler o seguinte:

    Também, agora a frase correcta será deste tipo. Dá muito trabalho escrever correctamente e actualmente:

    O absolutamente ridículo ou o absolutamente chato.

    Foi nessa altura que as/os personagens impelidas/os por estranho sentimentos se sentiram, finalmente, humanas/os. Não eram mais do que testemunhas/os silenciosas/os. No dia seguinte, todas/os os/as amigos/as deveriam comparecer sérios/as e bem vestidos/as.

    Não há pachorro/a.

    Nota minha:
    A ditadura da vulgaridade. Medos. Paranóias. Os profetas. Os cautelosos. Os equilibristas do pé ante pé na corda bamba, espreita aqui, recolhe acolá. O absolutamente ridículo ou o absolutamente chato.

    Portugueses e portuguesas: é difícil a linguagem actual.

    (Volta depressa Tomas Tranströmer)

    Cristina Carvalho

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    1. António Luiz Pacheco4 de março de 2021 às 08:52

      Aplausos/as ... eheheh-ahahah-ihihih!

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  5. O mais grave disto tudo, é perceber que quem detém o poder (seja direito ou torto), está a conseguir os seus objectivos, colocar-nos a discutir as "coisas pequeninas", ao mesmo tempo que se agravam as desigualdades sociais, aumentando em número cada vez mais significativo essa "classe maioritária", a que costumam chamar pobres, que além de o serem nas carteiras, são cada vez mais de "espírito"...

    Enquanto se discute "o sexo dos anjos" (qualquer dia não podemos falar das cores que nos rodeiam, preto, branco, azul, vermelho, castanho ou amarelo...), encobrem-se negócios ruinosos como o que o governo "salvador" do Coelho e do Portas fez em relação ao aeroporto do Montijo (única solução possível... se existir outra lá terá o Estado de indemnizar em milhões a empresa que o iria construir...) ou a "fuga das galinhas" no negócio das barragens da EDP, limpinho, limpinho, sem impostos, do governo do Costa... E poderia continuar.

    O bom é discutir, palavras, sexos, cores, etc.

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  6. Sem querer rejeitar a opinião da nossa anfitriã sobre um assunto perfeitamente passível de ser discutido, permitam-me duas considerações no que respeita ao aterrorizador "leite humano":

    1 - Não acho o título "Palavras proibidas" adequado a este caso, já que, na verdade, a expressão "leite materno" (que em inglês se diz normalmente "breast milk", ou seja, não implica necessariamente a palavra "mãe", embora também se possa usar "mother's milk") não foi de todo proibida (nem uma, nem outra). Pode-se continuar a usar à vontade "breast milk" no tratamento personalizado, ou seja, na esmagadora maioria. A expressão "human milk" só será usada «for documents, protocols and Trust-wide communication»; "They will also be used when discussing pregnancy, birth and parenting at a population level - such as at a meeting".

    2 - A expressão "human milk", que pode soar estranha para nós, é, há muito tempo, comum na língua inglesa.

    Claro, pode-se discordar, mas não me parece que a intenção do hospital tenha sido exercer algum tipo de censura.

    Aqui o link de onde tirei estas informações:
    https://www.dailymail.co.uk/news/article-9241217/Hospital-tells-midwives-use-terms-like-birthing-parents-human-milk.html

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    1. António Luiz Pacheco4 de março de 2021 às 12:30

      Sem querer rejeitar a sua opinião, mas porque conheço bem o nosso burgo e sobretudo as sumas inteligências que o norteiam, não é o que os ingleses fazem ou dizem que me preocupa, mas sim aquilo que no seguimento do que aqui se fala, se poderá vir a instituir em Portugal, onde um reitor de uma universidade proíbe servir carne de vaca na cantina, só para lembrar o ridículo e o extremismo em que caem fácilmente aqueles que deveriam ser justamente os mais esclarecidos, talvez pelo seu desejo de se destacarem e mostrarem quão modernos e proactivos são...
      Que a censura está instalada, isso está, e vai entrando com pézinhos de lã, a intenção do hospital pode não ser essa, mas olhe que desconfio bem que sim, porque sou gato escaldado nestas coisas, e bem escaldado!
      Saudações africanas de cá donde as crianças são amamentadas e ao seio materno se chama "xuxas", depois são desmamadas a malulo (leite de cabra ou vaca fermentado) e a quissangua (uma bebida feita com farinha de milho e água), consoante sejam pastores ou outros.

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    2. Na Europa também se passa do leite humano, para o bovino e o caprino.
      Os nórdicos então são loucos por laticínios.

      Saudações lácteo-tolerantes de um lindo dia de primavera alemão.

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  7. Pelo que se prova do seu artigo, da América só vem m***a!
    E quanto aos ingleses, minha cara, não acredite muito nessa historia. Tenho uma filha a trabalhar como enfermeira especializada num hospital inglês e não consta por lá nenhuma alteração ao vocabulário embora ela seja de cardiologia e não de medicina neo-natal.
    Coisas.......boatos.......

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    1. Ora bem!
      Como eu escrevi acima, trata-se de uma linguagem que só se usará em relatórios, protocolos e reuniões científicas.

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  8. Sinceramente, acho que chegamos a extremos que ultrapassam o inimaginável, o ridículo e o tolerável.
    Quem é quem para pretender tolher a forma como me exprimo desde sempre sendo que sempre respeitei todos os seres humanos sejam quais forem as suas escolhas, de todas as índoles? Para retirar do que digo algo que nunca esteve minimamente presente em mim, no que sou, intrinsecamente? Mas o quiser fazer, que tenho eu a ver com isso? Não posso é ser julgada por tal facto! (Estarei errada? Acho que não).
    A frase escrita pela Maria do Rosário Pedreira é bem expressiva: "para onde vai a nossa espontaneidade", a nossa liberdade de ser e expressarmo-nos, se a cada momento temos de sopesar cada palavra para não melindrar ora A, por isto, ora B, por isto mais aquilo, ora ...ora, ...poupem-me!
    Sério, tudo isto me aborrece e cansa e me parece mais xenófobo do que a mais xenófoba das xenofobias. É, até, quase paranoico, insano.
    Não tenho pachorra, perdoem-me.

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