O que ando a ler
Como começa o mês, está na hora de dizermos o que andamos a ler. Leio, pela primeira vez, um autor norte-americano, a morar em Chicago, chamado Jesse Ball, e o seu romance Censo. É uma escrita em que encontro algumas reminiscências de outros autores dos Estados Unidos (Cormac McCarthy, talvez por narrar uma viagem de um pai e um filho como em A Estrada, ou de DeLillo, por falar de um recenseamento populacional que raia o inexplicável ou o absurdo e implica marcar os entrevistados no corpo, como se faz às vacas...). Mas é bastante interessante como leitura, pois fala, embora de forma elíptica, do que são os Americanos, de como se vive nesse país que é um continente, e das relações que um médico em fim de vida tem com o seu filho deficiente, com as memórias da mulher (que estudou para ser palhaça) e com os outros, essa massa anónima que tem de visitar em muitas localidades de A a Z para fazer o censo. Um pouco inesperado, desperta a curiosidade pelas outras obras do autor.
Ando a ler o 5º e último vol. da biografia de Dostoievski, um tijolo com 990 págs. da autoria de Joseph Frank; também comecei Sementes Mágicas de V. S. Naipaul; estão na calha Uma História da Leitura de Alberto Manguel e O Espelho e a Luz da Hilary Mantel, outro tijolo de 870 págs. Já tenho que baste para mais de um mês!
ResponderEliminarEu releio com grande lentidão, o que me dá imenso prazer, o "Crime e Castigo". Só umas 10 páginas por dia para que o prazer dure muito tempo. Ao mesmo tempo estou a acabar, lendo a ritmo normal, o "Limonov" do Emmanuel Carrère que me tem oferecido uma extraordinária panorâmica da Rússia desde os anos 60 até quase agora (mas também de Nova Iorque, de Paris, da Sérvia). Liimonov é um criativo personagem real que é meio louco mas de uma loucura mansa que o faz atuar muitas vezes antes de pensar. Antes assim, do que loucura silenciosa e explosiva do falso médico de "O Adversário", o extraordinário livro que me fez descobrir Carrère.
EliminarAinda bem que voltou esta iniciativa,que nos leva a comentar o que lemos e nos mostra as leituras e sugestões dos outros extraordinários.
ResponderEliminarNeste momento estou com "Um piano para cavalos altos" de Sandro William Junqueira.
Tem perspetivas interessantes,leva-nos a questionar muita coisa e vale a pena ser lido.No entanto,acho a linguagem muito rude,por vezes chocante e pode tornar-se demasiado cru.
"Quartos de final e outras histórias" da Cláudia Andrade e um pequeno grande livro do D.H. Lawrence, "O raposo".
ResponderEliminarNeste momento, a companhia é a de Philip Roth e "O Escritor Fantasma" e , entretanto, vou lendo alguns poemas dos diversos livros de poesia (Piqueras, Joan Margarit, Rosa Oliveira, Rui S. Magalhães, André Tecedeira, Cláudia Sampaio, Filipa Leal, etc.) que tenho adquirido durante, esta "prisão domiciliária" em que nos encontramos. Boa semana e boas leituras. Susana
ResponderEliminarQue sorte estar a ler pela primeira vez este romance do Roth: para mim é o que tem o enredo mais surpreendente. E, quando acabar de o ler, concluirá que o título devia ser "A Escritora Fantasma" e não "O Escritor Fantasma". Foi um erro do tradutor relativamente a "writer".
EliminarNão me parece que tenha sido um lapso da tradução... Aliás, até pode ter sido propositado, e feito de modo a incrementar a gerada onda de surpresa e indignação.
EliminarDe qualquer das formas, também não encontrei registos de que o autor o quisesse de outra forma. Independentemente de tudo, é uma obra muito interessante, e a prova de que a ficção literária é capaz de modular a nossa conceção da história, e, neste caso particular, de nos consolar
Pode ser que sim. De qualquer modo "writer" em inglês não tem género. Quando acabar de ler o livro concluirá que a personagem a que se refere o título é do sexo feminino e, sobretudo, é, na fantasia do autor, uma personagem histórica muito especial.
EliminarSó poesia boa!
EliminarTecedeiro...maldito corrector😒
ResponderEliminarO Espelho e a Luz, 3o e última tomo da trilogia de Hillary Mantel. A cerzidura do poder de Henrique VIII pelas mãos de um plebeu, Thomas Cromwell. Considero-o tão bom como os anteriores, mas aqueles valeram-lhe o Man Booker Prize e este não. Ela fora o único autor a que o atribuíram duas vezes, três era de mais, devem ter pensado.
ResponderEliminarJ. M. Coetzee também ganhou o Man Booker duas vezes: 1983 e 1999.
EliminarIdem para Peter Carey: 1988 e 2001.
Boas leituras!
A reler A Peste de Camus, apenas porque a actual situação o incita. E porque está lá tudo. Tudo mesmo, não fosse um livro de 1947 e poderíamos pensar que foi escrito com a influência Covid.
ResponderEliminarExcelentes leituras a todos!
Carla Pais.
Bom dia.
ResponderEliminarAcabei de ouvir/ler este poema, que não conhecia e que partilho. Não se é oportuno, mas aqui vai:
A infância de Herberto Hélder
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra // José Tolentino de Mendonça
Excelente. ACCarvalho
Lindo!
EliminarFoi um mês atribulado, este Fevereiro... mas sempre li!
ResponderEliminar.Do clássico do humor britânico Jerome K. Jerome, que descobri no meu 5º ano na disciplina de inglês, li agora "3 Homens em viagem"! Está à altura, dispõe bem e vale a pena!
.De um outro viajante, mais antigo, António Pigafetta, "A primeira viagem ao redor do Mundo". É uma curiosidade, interessante para mim, constitui um testemunho histórico do século XIV , por quem acompanhou Fernão de Magalhães.
.De Roderick Nehone a obra "Caimaneros". apresentado como um romance histórico e documental. Na verdade de romance pouco tem, mas constitui um documento deveras interessante que narra o que foi a ida de jovens estudantes angolanos (12 anos em média) para Cuba em 1977, onde estiveram até 12 anos a formar-se! Uma escrita leve em que o autor discorre sobre o que foi a sua experiência, que explica e desvenda muita coisa!
Muito interessante, sem dúvida! Li-o rápidamente, comecei no avião onde o li quase todo, pois saí de casa às 9 da manhã de um dia e cheguei a Luanda às 15 do dia seguinte, com escala no Dubai. Um livro adequado ao meu próprio momento.
Curiosamente, ontem, estive num almoço ajantarado todo o dia, com amigos, entre os quais havia um conviva que também foi "caimanero", conhece o autor e falámos bastante quer do livro quer da pessoa e do que foi aquela saga - estavam presentes dois médicos cubanos, também.
Chegámos todos a uma curiosa conclusão: Em tempos, não se sentiam as diferenças... o racismo é uma invenção moderna, ou melhor uma recriação do momento que parece servir sobretudo para sustentar algumas pessoas que se alimentam dele. Isto não foi dito por mim, mas por negros e mulatos, todos com mais de 50 anos.
.Agora uma má notícia, às vezes acontece: de José Carlos Moutinho, numa edição do autor e da Guerra e Paz, "Amor e Guerra".
Fui ao engano, engodado que estava pelo excelente livro de Paulo Sande - "Fui soldado e morri", vendo que este seria do género, atirei-me de cabeça... desilusão absoluta!
Não tem nada a ver com o outro! Um fiasco! Um daqueles livros que nos fazem questionar porque é que são editados? Uma história pífia, com diálogos sem conteúdo, escrito num estilo que considero como "de escola primária" tal a imaturidade revelada pelo autor que aliás é apresentado como uma espécie de escritor.
Não quero ser mau, mas tenho de ser honesto na minha crítica, não estou a gostar mesmo nada e não sei mesmo se o acabarei... já vou a meio e é sempre mais do mesmo, uma seca que talvez servisse para guião de telenovela, mas sem conteúdo algum e como disse, um mau exercício literário, sem verve, sem interesse nenhum!
Prontos! Já desabafei!
Boas leituras a todos, são os votos cá desde a Cidade Morena!
Acabei de ler "Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos" da Olga Tokarczuc e gostei tanto que agora ando às voltas com "Viagens" mas já não tem o efeito surpresa do anterior. Escrita densa, original. A magia e o mais cruel realismo. Brutal. Como os "Nóbeis" me vão dando a conhecer estas pérolas, prossigo agora com "A íris selvagem" Louise Gluck, confissão mas ao mesmo tempo arquitectura, a construção do mundo, ou a sua reconstrução a partir de um ralo que tudo levou,a escrita para sobreviver . Passo a passo. Também bru...
ResponderEliminar"Fausto" de Goethe e "o livro das ilusões" de Auster. Conjugação talvez demasiado ambiciosa (ou até esquizoide). De qualquer das formas, parece-me que desta forma, à densidade do primeiro, alivio com a fluidez do segundo. Logo verei!
ResponderEliminar"VIAGEM A PORTUGAL" José Saramago - Filigrana pura!
EliminarTenho a 1ª edição do Círculo de Leitores, profusamente ilustrada, exemplar de consulta para manusear com cuidado; linguagem límpida e escorreita, nem é preciso sair do lugar!
EliminarAinda não comecei a ler em Março.
ResponderEliminarFevereiro foi ligeiramente madrasto (vou fazer melhores escolhas... o que escapou mesmo foi "O Infinito num Junco", que fui lendo e ainda não o acabei...).
Li "Felicidade" do João Tordo e não achei grande piada à sua história de fantasmas (para mim é o sei pior livro, também ao nível da escrita...).
Depois estreie-me com dois autores: Manuel da Silva Ramos e Cristina Carvalho. Do primeiro li "O Sol da Meia Noite", povoado de aventuras sexuais (acho que nunca tinha lido um livro em que a palavra mais usual do órgão feminino, fosse tantas vezes escrita), tal qual um "camarinha" bêbado e escritor. Mas lê-se bem e às tantas os "palavrões" passam a ser encarados com normalidade. Li-o porque me cruzei com uma critica literária antiga escrita por Pedro Mexia que me despertou a curiosidade e o "wook" fez o resto.
Também não fiquei muito entusiasmado com os "Estranhos Casos de Amor", de Cristina Carvalho. Além das histórias serem vulgares, não achei grande piada à forma como a autora escreve.
Luís Eme: tendo já lido alguns livros da Cristina - nomeadamente esse de 2003 e outros mais recentes -, penso pelo trabalho cada vez mais constante da Cristina desde essa data, ter havido uma alteração significativa na sua escrita. Nota-se - e isto como obviamente é uma opinião meramente pessoal, para além da liberdade do "gosto" - uma evolução continuada, a sedimentação de um estilo próprio, naquilo que penso ser fundamental para um autor: trabalho, trabalho e trabalho.
EliminarLuís Eme: tendo já lido alguns livros da Cristina - nomeadamente esse de 2003 e outros mais recentes -, penso pelo trabalho cada vez mais constante da Cristina desde essa data, ter havido uma alteração significativa na sua escrita. Nota-se - e isto obviamente é uma opinião meramente pessoal, para além da liberdade do "gosto" - uma evolução continuada, a sedimentação de um estilo próprio, naquilo que penso ser fundamental para um autor: trabalho, trabalho e trabalho.
EliminarEsse ainda não li, mas tenho outros do Manuel da Silva Ramos, antigo colega da Faculdade de Direito que ganhou um prémio com o 1º livro "Os Três Seios de Novélia". Conta-se que ele, para responder a uma crítica desfavorável do João Gaspar Simões lhe mandava todos os dias um carro funerário para a porta! Ideia original sem dúvida para substituir as bengaladas!
EliminarPois as minhas leituras estão cada vez mais focadas na História pouco saindo do seu campo estrito. A excepção foi feita na figura de um diplomata já falecido e nas suas crónicas: falo do Marcello Mathias. Um homem muito culto, diplomata de carreira, de uma geração cada vez mais em extinção e que nos traz histórias "construídas" em ricas histórias de vida. Dele gostei muito de ler os seus "Diário da Índia e de Paris", fazendo-me lembrar - num registo semelhante mas mais contido, que os tempos não estão para "Ortigões" - as Cartas de Eça.
ResponderEliminarMarcello Mathias - já li dois ou três livros (ensaio) deste diplomata e gostei muito.
EliminarDeste mesmo autor, Jesse Ball, impressionou-me há tempos Silence Once Begun (de 2014), uma vibrante investigação (que desvenda uma intrigante e trágica história), servida numa prosa austera e disciplinada. (Infelizmente, não parece que esteja traduzida em português, esta obra.)
ResponderEliminarPaulo Lopes
Equivoquei-me, sim. Houve também esses dois autores a quem foi atribuído o Man Booker Prize além de Hillary Mantel. A originalidade reside apenas em ter sido a 1a mulher (e 1o britânico) premiada. Tratando-se de prémios, não considero muito importante, importante é que estou a achar O Espelho e a Luz muito bom, tal como os dois tomos anteriores.
ResponderEliminarEstou a ler Entre dois palácios, do Naguib Mahfouz, o primeiro volume da triologia do Cairo e simultaneamente, para um clube de leitura de que faço parte, As pupilas do Sr. Reitor, do Julio Dinis. Ambos muito diferentes, mas muito interessantes.
ResponderEliminarAss. Sílvia Cardoso
Bom dia, por cá, estou acompanhado pelo "Pátria" de Fernando Aramburu e "O Infinito num Junco" de Irene Vallejo.
ResponderEliminarUm abraço
VF