Os livros das caravanas

Gostaria muito de visitar uma exposição que estará apenas aberta até 9 de Abril em Las Palmas e, em Maio, se inaugura em Tenerife (mas não estou com planos de ir a nenhum desses sítios tão cedo). É uma mostra de fotografias de famílias mauritanas e dos documentos antigos que elas conservaram, alguns datados do século VIII, quando as rotas caravaneiras e mercantis atravessavam o deserto do Sara para trocar sal por ouro e iam parando pelo caminho. Pois parece que já nesse tempo levavam «livros» e documentos e que, ao deter-se nos oásis, os deixavam ali para serem copiados e lidos pelos que ali viviam, sendo apenas levantados no regresso. Eram copiados de forma mais ou menos rápida e ali ficavam depositados por séculos, servindo de meio de contacto com as cidades por quem ali estava tão isolado do mundo. Mais recentemente, foi dada formação a uma dezena de famílias em dois destes antigos oásis mauritanos para digitalizarem e restaurarem os documentos guardados, e a exposição mostra também, além das preciosidades, as fotografias destas famílias do deserto trabalhando para a conservação de um património incrível: tabuinhas, textos sobre astronomia, religião e matemática, tudo elementos que vêm mostrar que o Sara, longe de ser uma fronteira entre cidades povoadas, foi afinal uma espécie de «continuum cultural».

Comentários

  1. A Irene Vallejo, autora de "O infinito num junco" (livro que estou agora a ler, maravilhado), iria certamente gostar desta curiosidade (isto, claro, partindo do pressuposto de que sobre ela não se inteirou e/ou escreveu já).

    Obrigado, Rosário.

    Guilherme ph

    ResponderEliminar
  2. Uma das origens do conhecimento que mais tarde usamos e desenvolvemos com sucesso para progredirmos no mar.

    ResponderEliminar
  3. Quando se fala no "fascínio do deserto", este existe. Pessoalmente, o deserto atrai-me e a solidão que lá se vive, salvo as dificuldades de subsistência, pouco diferença faz do confinamento.
    O que a Rosário aqui trouxe é, para mim, uma novidade. Uma grata novidade, que vem provar que os nómadas também privilegiavam a cultura e a leitura.
    Só não gostarão do deserto os políticos que largam o poder e têm de fazer "a sua travessia". Mas, estes, não levam cultura alguma, nem de forma metafórica nem real. E alguns até seria bom que se perdessem por lá, nessa sua suposta "travessia do deserto".

    ResponderEliminar
  4. António Luiz Pacheco25 de março de 2021 às 06:13

    O Sahara é um Mundo, como fácilmente se depreende através de tanto que se tem escrito sobre ele!
    Não sou homem do deserto, e, sim das planícies que muito me encantam e atraem, sobretudo as planícies semi-áridas ou pré-desérticas como são as do Planalto Costeiro vizinhas à cidade de Benguela. Práticamente intocadas, por via da sua aridez, apenas cruzadas por picadas e uns quilómetros de asfalto desde a vila do Dombe Grande até ao rio Tcimo, são percorridas por pastores transumantes, mucubais e mukuandos com os seus rebanhos de bois gentios, eles mais bravios que o seu gado. É uma paisagem avassaladora, de rudeza inclemente, dura, agreste mas ao mesmo tempo belíssima, onde podemos vislumbrar alguns antílopes, cabras de leque, concas, caínes, punjas e com sorte algum olongo, eventualmente uma onça e chacais! As zebras, os leões, as grandes gungas, já só são memória.
    Tem a sua história, e histórias, que uma equipa de arqueólogos franceses recentemente tentou desvendar, pois há vestígios de uma ocupação milenar nas praias isoladas desta costa deserta e desértica. A tradição oral, ainda é a fonte de informação, dado que poucos escritos se produziram, indígenas ou colonizadores.
    Tanta coisa que há para ver e saber... é o que nos encanta e anima, o que nos move. O que me leva sempre que tenho oportunidade a meter a carrinha por esse platô afora e pelos caminhos transitáveis, mais ou menos... por vezes trilhos de gado ou de animais.
    Adoraria ver essa exposição de que nos fala, sem dúvida!

    Saudações cá da Cidade Morena.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "É uma paisagem avassaladora, de rudeza inclemente, dura, agreste mas ao mesmo tempo belíssima, onde podemos vislumbrar alguns antílopes, cabras de leque, concas, caínes, punjas".
      Caro António Luiz, já estou a "ver" a paisagem ou "décor" do seu próximo romance. O resto só o lerei quando o vir publicado. Espero que seja em breve.

      Abraço do Planalto para a Planície, onde pululam os bois, os mucubais e os mucuandos em bravia compita.

      Eliminar
    2. Ó António Luiz, como hoje estou para o humor - espero que a Rosário não se amofine - a propósito da cabras de leque, quero dizer que em Lisboa, no Verão, também se encontram algumas.

      Eliminar
    3. António Luiz Pacheco25 de março de 2021 às 08:09

      Ahahahah!

      Eliminar
    4. António Luiz Pacheco25 de março de 2021 às 08:13

      Ó Fernando, a propósito, trouxe uma vez da Andaluzia uns leques que vinham acompanhados de um pequeno desdobrável, desenhado, com as posições do leque consoante a disposição da dama, ou seja, a mensagem de sedução que desejava transmitir na forma como se abanava ou usava o leque, aberto, fechado, a tapar a cara ou só os olhos, etc. Um catálogo de sedução e namoro, aliás bem à espanhola, benza-as Deus e à sua garridice andaluza!
      Y olé!

      Eliminar
    5. António Luiz Pacheco25 de março de 2021 às 08:39

      Já que estamos dispostos e em amena cavaqueira, o que me é sempre muito agradável e uma boa razão para aqui virmos falar de escritas e leituras, deixo-lhe esta introducção, que estimo aprecie! Não sendo embora um Mário Cláudio ou Eça, de quem muito aprecio as descrições, também de paisagem, atrevo-me a trazer aqui este excerto, pedindo desculpa à Extraordinária Dona Deste Espaço.

      " No platô costeiro de Benguela, primeiro degrau da escada que se ergue do oceano Atlântico até ao grande maciço conhecido por Planalto Central, abre-se no sentido do mar o vale do rio Handja ou Equimina, correndo ora em torrente pelo leito, ora em caudal subterrâneo, mas enriquecendo aquele local árido e desolado, tornando-o habitável. Vai depois desaguar na ampla praia da baía da Equimina que ali se formou em tempos pelos movimentos tectónicos, evidentes nas placas e aflorações dispostas em estratos perfeitos naquela antiga cratera de vulcão, posteriormente cavada e alargada ao longo de milénios, pelas águas e os ventos que erodiram as rochas mais macias transformando-as em areia, porém deixando a descoberto os magmas duros e solidificados, originando uma paisagem magnífica mas ao mesmo tempo brutal, na sua rudeza inclemente!
      O vale, lembra fatia cortada no imenso bolo de camadas a que se assemelha a costa desértica e selvagem, imutável, do Sul de Angola, de altas falésias estratificadas muito recortadas por cabos e baías, constituindo um oásis para onde se desce por caminho pedregoso, talhado em curvas entre precipícios e derrocadas.
      O planalto árido, é o topo desse bolo, colorido nos tons secos da paleta do pintor do deserto que o salpicou de colinas escuras e espinheiras descoradas, usando para contrastar, o castanho da terra que escorre das falésias, escura qual chocolate; os veios amarelos do arenito como baunilha; as torrentes de quartzo muito branco e rebrilhante, a lembrarem natas; e, pontilhando como morangos, as aflorações de feldspatos róseos.
      Lá em baixo, pelo meio do vale, a linha verde das árvores, assinala o curso do rio temporário, todavia correndo sempre debaixo da areia muito fina que se levanta e assenta num pó eterno e omnipresente, direito ao azul do mar que surge ao fundo na promessa nunca traída de sensações já adivinhadas pelo inconfundível do seu aroma, que se sobrepõe ao puro e seco ar do deserto.
      Antes do mar há uma linha de edifícios e em volta do rio percebe-se o verde das hortas, o segredo da Equimina! Sobem fumarolas no ar e distinguem-se os tectos das palhotas.
      Para um e outro lado, lá longe e até onde a vista alcança, vê-se ao Sul a Ponta das Ferreiras onde termina a Baía dos Elefantes, e para Norte a ponta da Praia da Lua!
      São nomes poéticos, de fábula, mas reais e para alguns pode ter sido um Paraíso na Terra, porém a vida ali é muitíssimo dura, como duro é o meio ambiente!"

      Abraço africano!

      Eliminar
    6. Ora, caro António Luiz, quem não o edita não sabe o que perde. Mas, olhe, está quase pronta a nova colectânea "Mulheres" onde o António é figura de proa e onde contam muitos dos amigos das Horas Extraordinárias. Saudades dos grandes espaços onde não há lugar à pequenez. Abraço.

      Eliminar
    7. Grande descrição, ilustrada com pormenores interessantes do Planalto Central até à costa de Benguela. Descrição enriquecida com imagens como "torrentes de quartzo muito branco e rebrilhante, a lembrarem natas" e "pontilhando como morangos, as aflorações de feldspatos róseos" ou ainda os "veios amarelos do arenito como baunilha".
      Este seu texto cabe perfeitamente no tema proposto pela Anfitriã para o dia de hoje. Descreve uma zona que a maioria (julgo eu) dos Extraordinários não conhece e que a "visiona" através das palavras. O meu agradecimento.
      Deite cá para fora o seu livro, com editor de preferência, porque a imaginação e criatividade não lhe faltam. Para além disso, sabe comunicar e tem uma experiência já firmada na "Largueza", volumes que esperam pelo próximo "irmão".

      Mais um abraço desde este Planalto até onde o "castanho da terra que escorre das falésias, escura qual chocolate", a bem dizer que nos faz abrir o apetite de viajar.

      Eliminar
  5. Bem apropriada em dias atuais, onde se lhe fez dimensionar a solitude; embora primitiva persiste atribuída.

    Cláudia da Silva Tomazi

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório