Excerto da Quinzena
Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.
O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, emfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado.
Trabalhos e Paixões de Benito Prada, de Fernando Assis Pacheco
«- O português nunca pode ser homem de ideias por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita. Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.
ResponderEliminar- Questão de temperamento – disse Carlos. Há seres inferiores, para quem a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um sistema… Eu sou desses monstros.
- Diabo! Então és um retórico…
- Quem o não é? E resta saber por fim se o estilo não é uma disciplina do pensamento. Em verso, o avô sabe, é muitas vezes a necessidade de uma rima que produz a originalidade de uma imagem… E quantas vezes o esforço para completar bem a cadência de uma frase não poderá trazer desenvolvimentos novos e inesperados a uma ideia… Viva a bela frase!»
Eça de Queiroz, "Os Maias"
Ainda me ocorreu postar aqui algum excerto daqueles incríveis diálogos do pior livro que li (já não o acabo... ) nestes últimos tempos e que vai para a lista dos piores de sempre, ao lado de "Os cardos morrem primeiro"; "O fisionomista" (este o pior de sempre!).
ResponderEliminarOs Extraordinários não merecem!
Merecem melhor, e dentre os melhores, temos António Gedeão com aquele poema que eu acho o que melhor retrata os portugueses e a nossa história, que em meu entender deveria ser a letra do hino nacional: "Poema da Malta das Naus".
Gedeão era um sábio, não duvido. A sua poesia transpira sabedoria, humanidade, como um iniciado, o alquimista que era (era químico!).
Este poema da malta das naus, aplica-se aos tempos que vivemos e em que somos colectivamente apodados dos piores epítetos e acusações, assim como o nosso passado e a nossa história, por gente sem entendimento, sensibilidade nem saber!
Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do sol.
Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.
Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.
Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.
Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.
Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.
Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.
O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.
Esta é a nossa história, a de tantos de nós!
Para quem queira acompanhar a belíssima versão musicada por Manuel Freira, anexo o link. https://www.youtube.com/watch?v=bJQ_Kjr5VTY
Saudações cá da Cidade Morena.
Bom dia com alegria e pandemia
ResponderEliminarComo empalados andamos um pouco todos, com ou sem espeto, aqui fica a minha citação, um pouco menos gráfica, mas nem por isso menos eficaz, no que ao seu âmbito diz respeito:
"Nas eleições americanas, o big data e o data mining revelaram-se como um Ovo de Colombo. Os candidatos acedem a uma visão de 360 graus sobre os eleitores. Recolhem-se enormes quantidades de dados, que se comparam e inter-relacionam permitindo produzir perfis muito exactos. Acede-se assim a uma imagem da vida privada e á própria psique dos eleitores.
Através da introdução do micro targeting podem-se endereçar aos eleitores mensagens personalizadas e, portanto, influenciá-los. O micro targeting como praxis da microfísica do poder é uma psicopolítica movida por dados.
Do mesmo modo, os algoritmos inteligentes permitem fazer prognósticos sobre o comportamento dos eleitores e optimizar a alocução. As alocuções personalizadas pouco se distinguem dos anúncios personalizados. Votar e comprar, o Estado e o mercado, o cidadão e o consumidor, assemelham-se cada vez mais."
"Psicopolítica" - Byung-Chul Han
Bom fds, Saúde e Boas Leituras
cp
"Respondendo ao chamamento estridente, entrou, sobressaltado, no quarto onde, de novo em corpete e numa pose de imerecido sofrimento, a esposa respirava sais ingleses.
ResponderEliminar-Que se passa querida?
-Passa-se que essa pessoa por quem tu te perdes...
-Eu, perco-me por uma pessoa?
-Sim, a aristocrata! Venho agora do quarto dela! Enfim, é uma maneira de dizer porque ela não me deu a honra de abrir! Estava a tocar piano, naturalmente! Bati com desvelo e sabes o que ela me respondeu? Que não podia abrir porque estava nua! Textual! Tu estás a ver isto, tocar Chopin toda nua! É talvez o costume da aristocracia de Genebra! Nua ás cinco horas da tarde!
Albert Cohen - Bela do Senhor-pág. 149-Porto Editora-Setembro de 2018
Ah Ah Ah! A danada da aristocrata!
EliminarHenrique Vogado
«Não consigo lembrar-me como é que era antes de te conhecer. Eu era sempre assim? Lembro-me de mim perdido. Quanto a isso nenhuma dúvida. Deambulando. De nada em nada. De alucinada em alucinada. Permanecendo, por vezes, apenas o tempo suficiente para compreender que o desnorte delas era mais pronunciado do que o meu. Pelo menos é assim que elas me aparecem. Mas não me lembro de estar assim nervoso como estou agora; assim em frangalhos. Observava-as muito de longe, muito à distância: pedradas, ensaiando banhos de esponja nos seus lavatórios; aparando bolas pretas de haxixe com lâminas de barbear; movendo-se como rainhas em câmara lenta. Depois, transformavam-se em raparigas em quintais de já lá vai muito tempo, desfazendo-se em risinhos e aninhando as longas pernas debaixo do aconchego dos seus corpos: a maneira como se afundavam sobre os seus macios calcanhares e depois meneavam muito o cabelo como cavalos sacudindo as caudas.
ResponderEliminarMas contigo não há distância. Todos os movimentos que fazes, sinto-os como se viajasse na tua pele; as tuas espreitadelas da janela, como se tu estivesses completamente sozinha e sonhando num outro tempo qualquer. De nada me serve dar aos braços a dizer adeus. Agora, está tudo ao contrário.»
Sam Shepard em «Atravessando o Paraíso», pág. 85, tradução José Vieira de Lima, Difel, Fevereiro de 1997
"(...) Na família não houve, nem há, nem haverá lugar para outra pessoa importante que não seja o Velho. Desplantes moralistas, inflamada oratória, figura prócere. Absorveu-nos a todos. Eu nunca fui Ramón Budiño, mas o filho de Edmundo Budiño. O meu filho nunca será Gustavo Budiño, mas o neto de Edmundo Budiño. Até o avô, nos últimos anos, foi só o pai de Edmundo Budiño. Por alguma razão todos o tratamos por "você". Todos: filh, netos, noras. Um hábito anacrónico que ele soube manter para deixar vincada a distância. Sempre a distância. Para baixo é desprezo. Para cima, admiração. (...) ". "Obrigada Pelo Lume", Mario Benedetti, edição Cavalo de Ferro (pág. 30 e 31)
ResponderEliminarBom fim de semana e boas leituras. Susana Emídio
Correcção: "filhos, netos, noras".😒😉
Eliminar«O calor abafado, do sol invade o sótão. As telhas são um braseiro. O suor camarinha no rosto das operárias. As mais carnudas escorrem em bica, com a roupa pegada às costas. A Ernesta põe-se em combinação. Quando o tempo abafa é useira e vezeira naquele atrevimento. Mas a grande necessidade de “estar ao fresco” faz com que mais quatro lhe sigam o exemplo. A Mestra não se importou. Queria o trabalho feito; quanto ao resto, estava farta de ver pernas.»
ResponderEliminar"Sábado sem Sol" (contos) - Romeu Correia
Bom dia e bom fim de semana!
ResponderEliminarDo livro "O livro dos Abraços " de Eduardo Galeano, deixo aqui uma:
Celebração da Fantasia
Foi à entrada da povoação de Ollantaytambo,perto de Cusco. Eu separara-me de um grupo de turistas e estava só, a olhar de longe para as ruínas de pedra, quando um miúdo local, definhado, esfarrapado, se aproximou, pedindo-me que lhe oferecesse uma esferográfica. Não podia dar-lhe a esferográfica que tinha, porque estava a usá-la em não sei que aborrecidas anotações, mas ofereci-me para lhe desenhar um porquinho na palma da mão.
De súbito, a notícia espalhou-se. Inesperadamente, vi-me rodeado por um tropel de míudos que exigiam, aos gritos, que eu lhes desenhasse bichos nas mãozinhas gretadas pela imundície e pelo frio, peles de couro queimado: havia quem quisesse um condor e quem quisesse uma serpente, outros preferiam papagaios ou corujas, e não faltava quem pedisse um fantasma ou um dragão.
E então, no meio daquele alvoroço, um miúdo afastado dos outros, que não se erguia mais de um metro do chão, mostrou-me um relógio desenhado a tinta preta no seu pulso:
- Mandou-mo um tio meu, que vive em Lima - disse.
- E anda bem? - perguntei-lhe.
- Atrasa-se um pouco - reconheceu.
A. Delfim
"CARTAS A LUCÍLIO" - Lúcio Aneu Séneca:
ResponderEliminar"durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente"
"Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é mesmo nosso."
"Joaquim Peixoto acendeu outro cigarro. Era-lhe agora muito evidente que
ResponderEliminargostava do atlético mano da dactilógrafa do Centro de Saúde.
- Conheces o Nuno Bravo?
- O professor, o do Barreiro? Conheço, andei num dos cursos de fotografia
que ele organizou. Depois desistiu. Não aparecia lá ninguém. Mesmo eu não
era muito certo, é verdade. Um tipo porreirinho, mas meio pirado.
- Ontem estive a falar com ele.
- Disse-te muito mal de nós, não? Acho que ficou desiludido com os
alentejanos.
- Disse que os rapazes só querem copos e comida, e as raparigas só
querem namoro.
O irmão de Bárbara Emília fechou os olhos azuis e encostou a cabeça ao
rebordo do banco.
- Ah, ele não sabe tudo. Eu acho que os moços também só querem é
arrumar a vida. Querem sacar uma mulher para ter em casa, pronto.
Sacudia a ponta do cabelo com os dedos, tal e qual como a irmã. Joaquim
Peixoto preferiu não reparar nisso.
- Mas tem que ser, não é? Até porque a gente precisa... ouve lá, tu sabes.
As moças têm medo de tudo. Eu compreendo-as, mas elas têm medo de tudo. A
gente tem que casar com elas, ou fazer que casa. Se não for assim, e se não
formos àqueles sítios, ainda nos arriscamos a não saber de nada até muito tarde.
É verdade, é. E isso também conta. Eu não vou a esses sítios, e às vezes sinto
que dou em doido. Queres que a gente não pense nisso? Ora, nas festas há
sempre algum que às tantas começa perguntando quando é que a gente se põe
nelas. É sempre assim, e se calha não pode mesmo ser de outro modo. Sei lá, é
difícil.
O estagiário nunca se sentira à vontade naqueles terrenos. Agora agitavase no banco, e começou a acariciar com a mão o fecho da porta. Luciano parecia
não dar pela sua contrariedade.
- Eu sei que a culpa não é das moças. Para elas ainda é mais complicado.
Olha a Mitó com o alemão, o mal foi ela ter-se posto a andar com ele e o pessoal
dar-se conta. Ora, com um alemanito, pois então, aquilo já devia ter dado
direito a tudo, foi logo o que se disse para aí. Depois ela, mesmo que o quisesse
largar, já tinha o problema de saber que se o largasse também havia de estar
muito tempo sem arranjar outro namorado. Ah, sim, sim. Há aí duas mocitas
em Beja, a Fátima e a Adília... fugiram de casa aos catorze anos, hoje são da
idade da Mitó e ainda ninguém lhes pegou. Mas são bonitas, não penses."
"Adeus Princesa" Clara Pinto Correia
De um livro editado pela nossa anfitriã, que eu considero um livro fabuloso (sem qualquer pretensão de dar graxa): A demanda de D. Fuas Bragatela de Paulo Moreiras:
ResponderEliminarSó mais tarde, com a devida distância que o tempo sempre permite, avaliamos e percebemos os acasos da vida e os encontros que eles proporcionam, como se tudo fizesse parte de um livro há muito escrito. Parece então que todos os nossos passos, que pensamos não nos levam a lado nenhum, afinal nos conduzem ao nosso destino, à realização de nós mesmos. E naqueles dias, sem o saber, o encontro que adreguei ter com Maria dos Prazeres fora um dos mais importantes da minha vida, aquele que iria revelar-se como o mais providencial e enriquecedor para o pouco tempo que cá andamos. Mas, pelas minhas barbas, deixemos estas considerações e de nossa narrativa não nos apartemos, que sobre estas e outras matérias no seu devido capítulo as irei apresentar. Por ora, meu filho, voltemos às nossas aventuras e desventuras por terras de Coimbra, que ainda muito nos sucedeu, para mal dos nossos pecados."
Bom fim-de-semana a todos,
Rui Miguel Almeida
Ó extraordinário e caro Rui Almeida comprei este livro já há uns anos mas estou sempre (receoso) a adiar a sua leitura; depois das suas palavras poderá ser, finalmente, o próximo.
EliminarÓ extraordinário Severino, julgo que o "nosso" António Luiz é outro fã deste livro, pode ser que ele ainda apareça aí a ajudar-me a fazer claque.
EliminarUm abraço para si! Rui
Ora bem! Sou grande fã sim senhor, do D. Fuas e do Paulo Moreiras! Gosto muito da sua escrita e do humor, dos personagens que são de antologia!
EliminarÓ Severino, avança...à confiança e sem medo, vais ver que não te arrependes!
Abraços cá da Cidade Morena!
Geou forte. [...]. Saíram num escuro de noité, o relógio da igreja a dar as seis. Varas ao ombro, silenciosos como sombras, um já de oitenta, aos outros dois faltará um ano, vão repetir o trabalho que fazem desde criança: varejar a azeitona, apanhá-la nas lonas, guardá-la nos sacos que irão para o lagar. Ora de pé, braços ao alto, agitando as varas, ora curvados na apanha, esquecidos da dor e do cansaço.
ResponderEliminarPelas encostas não se ouve uma fala, um grito, um chamamento. Há ali uma solenidade e um recato de missa, o modo grave do ritual atávico de semear, cuidar, colher e guardar para as horas de precisão.
Vi-os passar, encolhidos, pressetindo o gelo que vai abrir gretas nas mãos, entorpecer os pés, endurar os ossos. Vi-os passar [...].
Rentes de Carvalho - no seu blogue, em 9 de dezembro de 2012
Excelente blogue!
EliminarFica aqui o meu contributo:
ResponderEliminar«Uma vez desperta a minha atenção, não me foi difícil descobrir que tinha inimigos. Na minha profissão, em primeiro lugar, e depois na minha vida social. A uns, tinha prestado serviços. A outros, deveria tê-los prestado. Tudo isso, em suma, estava na ordem das coisas, e descobri-o sem grande mágoa. Em contrapartida, foi-me mais difícil e doloroso admitir que tinha inimigos entre pessoas que mal ou absolutamente nada conhecia. Sempre tinha pensado, com a ingenuidade de que já lhe dei algumas provas, que os que não me conheciam não poderiam deixar de gostar de mim, se chegassem a privar comigo. Pois bem, nada disso! Encontrei inimizades sobretudo entre os que não me conheciam senão muito por alto, e sem que eu próprio os conhecesse. Suspeitavam, sem dúvida, de que eu vivia em plenitude e num livre abandono à felicidade: isso não se perdoa. O ar do êxito, ostentado de uma certa maneira, é capaz de pegar raiva a um asno.»
Albert Camus, A Queda
Boas leituras!
"Para poder pagar a refeição e a dormida regateei com o estalajadeiro a venda das minhas vestes, de bom pano e de fino corte, na tentativa de conseguir algum lucro. Mas o negócio revelou-se pouco frutífero e de parcas moedas, que o fidalgote era manhoso e finório, exibindo fraco pano como se da Flandres fosse.
ResponderEliminarÀs malvadas não lhes senti o cheiro, nem lhes senti o peso, que o cabrão do estalajadeiro logo as tornou a tomar nas mãos quando me apresentou a conta das minhas despesas, voltando assim à minha condição inicial; outra vez sem cheta e albardado de surrão".
"A Demanda de D. Fruas Bragatela" - Paulo Moreiras /Casa das Letras/2012
Recomendo o livro.
Nos tempos que correm, já identifiquei o "estalajadeiro" e aqueles que ficam sem cheta e albardados. Da Idade Média até agora vão apenas umas centenas de páginas num livro de História escolar.
Ahahahah!
EliminarBem visto... e mais um fão (é o masculino de fã, temos de olhar ao género!) dessa incontornável obra de humor intemporal!
O mais curioso, António Luiz, é que fui escolher este livro e publicar o excerto sem ter lido os restantes comentários anteriores, que o já referiam.
EliminarSempre gostei de livros históricos e, de entre eles, valorizo os que têm algum humor. Daí a preferência por ficção histórica não desvirtuada. A História, maçuda, que era imposta nos liceus do tempo em que esfreguei os fundilhos dos calções nas carteiras, não conseguia prender os alunos. Talvez se tivessem metido umas pitadas de humor, numa ou noutra passagem propositada a isso, a coisa resultasse.
Cumprimentos desde o planalto.
Tem muita razão!
EliminarEu sempre gostei bastante, e, fui bom aluno a história, no curso complementar do liceu ( então chamado 7º ano) apesar de ser da área de ciências, matriculei-me em história por opção (passei com 16 valores), depois já no curso de ciências agrárias havia uma cadeira de história contemporânea, dentre as cadeiras de humanidades a que obrigatóriamente tínhamos de obter aprovação (sociologia, história, estilística, uma língua estrangeira).
Consegui sempre ler e estudar história como quem lê um livro, talvez pelo meu interesse e certamente que por isso gostava e tinha boas notas na disciplina.
O canal história é um dos meus preferidos, pena que tenha tantos documentários da idade média feitos por americanos, que por muito historiadores que sejam, não conseguem entender e nem explicar aquilo que para eles é sempre um mistério... e sai cada calinada que até arrepia, sobretudo tratando-se de académicos!
E, olhe que muito sinceramente prefiro de longe o nosso Extraordinário Paulo Moreiras com a sua visão humorada da história que ao execrável e pesporrento Fernando Rosas que só consegue ser irritante ao querer interpretar factos históricos à sua maneira - prontos, já disse! Só diria à RTP que para gastar um dinheirão num programa onde apenas se repetiu o que escreveu René Pélissier, mais valia terem contratado o Fernado Mendes que ao menos nos faria rir, ou alguma daquelas outras moças que pelo menos alegravam a vista, eheheh!
Grande abraço histórico cá da Cidade Morena!
Voltou finalmente à cadeira de Julie, demorou-se um momento junto dela, com a mão levemente pousada no espaldar, como se avaliasse os prós e os contras de algum acto perigoso. Por fim sacudiu-se, deu dois passos à volta da cadeira e sentou-se. Fitou os olhos na grade escura da lareira, onde fósforos apagados formavam ângulos curiosos junto de um pedaço de papel de estanho; passaram minutos, tempo para sentir o tecido enrugado da poltrona trocar os contornos de Julie pelos seus, minutos vazios como todos os outros. Depois deixou-se afundar, ficando quieto pela primeira vez em semanas. Permaneceu horas assim, a noite inteira dormitando brevemente de vez em quando, não se mexendo nem desviando o olhar da grade quando acordado. Durante todo esse tempo, pareceu-lhe que qualquer coisa ganhava corpo no silêncio que o envolvia, uma vaga lenta de percepção que subia com uma força suave de maré que não rebenta nem explode, mas que ao amanhecer o tinha conduzido à primeira preia-mar de compreensão da verdadeira natureza da sua perda. Tudo, antes, fora fantasia, uma mímica rotineira e frenética de mágoa. Pouco antes de alvorecer começou a chorar, e seria a partir desse momento na semiescuridão que dataria o seu tempo de luto.
ResponderEliminarA Criança do Tempo/The Child in Time, de Ian McEwan, tradução fabulosa de Fernanda Pinto Rodrigues
maria joão lourenço