Os nossos pais
Os meus pais foram bastante liberais para a época e nunca chatos nem bota-de-elástico, embora nem sempre tenha sido fácil ser filha deles (tinham o seu feitio, enfim). Muitas vezes me têm pedido que escreva sobre esse duo, principalmente depois de tê-lo feito num texto que li nas Correntes d’Escritas há uns anos e de o fazer de passagem nas minhas crónicas. Mas sempre senti que teria de encontrar o tom certo para isso, tal como o encontrou Richard Ford ao escrever Entre Eles: Recordando os Meus Pais, um livro que reúne dois relatos escritos com quase trinta anos de intervalo: o primeiro pouco depois da morte da mãe (que chegou a ter uma publicação independente em vários países) e o segundo bastante mais recentemente, cujo protagonista é o pai, que morreu à frente do escritor tinha ele dezasseis anos. Este texto sobre o pai é, ainda assim, um texto sobre o casal, a forma como se conheceram, a sua paixão, a sua vida a dois pelas estradas da América profunda (o Ford pai era caixeiro-viajante) e a forma como o filho, que veio ao mundo quando já ninguém estava à espera, revolucionou a vida desse par, obrigando-o a regras que nunca tivera e até à decisão de ter um lar algures, coisa com a qual Edna e Parker nunca tinham estado muito preocupados. Um livro belíssimo sobre os laços familiares de um tipo que não me importava de escrever sobre os meus pais. Recomendo-o sem reservas a todos os leitores. A tradução é de Tânia Ganho.
Vou agora pegar nesse depois d´O Jornalista Desportivo. Um escritor de estalo. Obrigado, um beijinho.
ResponderEliminarEmbora também fale muito sobre os irmãos e os pais do protagonista, o tema central não é esse num dos livros que mais me deliciou estas férias: "Paris num Dia de Chuva" de Isabel Rio Novo. É uma biografia atípica de Gustave Caillebotte, um grande pintor francês da segunda metade do século XIX que não faz parte da primeira linha dos realistas e impressionistas do seu tempo, mas que tem uma obra interessantíssima realizada por alguém que é um ser muito especial e com múltiplas facetas peculiares que nos vão sendo reveladas pela escritora recorrendo, de modo que achei muito engenhoso, a duas personagens que também fazem parte do enredo: a Autora e a Especialista em Pintura. É daqueles livros que acabamos com a sensação de que Caillebotte, essa pessoa/personagem nos vai acompanhar para o resto das nossas vidas, de tal maneira é credível e viva a recriação que a Isabel Rio Novo faz dela, do seu tempo, da sua família e dos seus amigos, tudo baseado num grande trabalho de pesquisa. Neste nosso mundo em que escasseia a crítica literária, foi consolador ler no "Público" o entusiasmo com que a Helena Vasconcelos avaliou há dias esta obra. Já tenho comigo outro romance da Isabel Rio Novo ("A Febre das Almas Sensíveis") e fico feliz por saber que terei outros dela já à minha disposição. Até talvez venha a ler a sua biografia da Agustina, embora não seja esta quem mais me atrai na literatura nacional. Mas vista pela Isabel Rio Novo, até pode ser uma personagem com muitas facetas interessantes, tal como Caillebotte.
ResponderEliminarViva Artur! Que prazer lê-lo outra vez por aqui...
EliminarSó para dizer que, apesar de também não ser o principal fão (masculino de fã, há que atender ao género...) de Agustina, no entanto acredito que a sua biografia há-de ser interessantíssima, pois a pessoa e o seu percurso são do mais interessante, creio eu, mesmo que a escritora não me deslumbre como tal.
Grande abraço cá da Cidade Morena!
Prazer em ouvi-lo, caro Amigo !
EliminarSó temo que, ao contrário do que a Isabel Rio Novo fez com o Caillebotte, a Isabel Rio Novo seja mais contida no uso da sua imaginação de ficcionista no retrato da intimidade da Agustina, figura cujo desaparecimento ainda recente justifica uma veneração que pode ser sentida como limitadora pela biógrafa. Mas não há nada como ir à procura da resposta lendo o livro...
Ora vivam todos, cá estamos de novo para mais uma estirada que se deseja e prevê interessante, estimulante e inspiradora!
ResponderEliminarAos poucos, cá nos iremos reunindo, os do costume e espera-se que novos, trazendo sempre a luz que mantenha este espaço iluminado!
Os pais... ora, são os pais, tivémos pais e por uma questão de sobrevivência, de alegria e continuidade seremos nós mesmos pais... o que nos completa e completa a nossa missão física, terrena. Portanto nada de chamar chatos aos pais... pais ou não, somos todos nós uns chatos, assumam e entendam.
No entanto, os pais, são uma fonte de inspiração e tema de tantos livros, para nossa alegria, e é natural que assim seja, pois queira-se ou não, os pais são mesmo a nossa influência maior, por muito que nos desagrade e não queiramos, mas somos deles o resultado, bom ou mau.
Os nossos pais, têm uma forte particularidade: são nossos! Nem o senhor de La Palisse diria melhor.
Saudações cá da Cidade Morena, já devidamende covidada mas alegremente tranquila!
mlj
ResponderEliminarainda não li, mas conto as horas, confesso, enquanto folheio vagarosamente as fantásticas páginas escritas pela patti smith: o ano do macaco, quetzal, preciosa tradução do (também) poeta helder moura pereira. devorei quase tudo de richard ford e cito muitas vezes uma frase dita pelo escritor numa interessante entrevista à isabel lucas em abril de 2014, no suplemento do público: «a tradução é uma espécie maravilhosa de ficção.»
a maria do rosário pedreira é das pouquíssimas pessoas que nunca se esquecem de mencionar os tradutores, honra lhe seja feita.