Resistir ao tempo

A Dom Quixote teve em tempos, se não me engano, uma colecção cujos títulos eram escolhidos por António Lobo Antunes. Um desses, com prefácio da sua pena, é uma daquelas novelas exemplares que tem tudo para resistir ao tempo, pois mantém-se profundamente actual, apesar de terem passado mais de uma centena de anos sobre a sua publicação. Trata-se de A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, um livrinho com menos de cem páginas, que conta abreviadamente a história da vida de um juiz desembargador: da infância ao casamento, da sua primeira colocação até ao posto cimeiro da sua carreira, dos seus momentos felizes na infância até uma vida de aparências sem qualquer felicidade e, por fim, aos tempos que antecedem a sua morte e que lhe permitem olhar para trás e fazer um balanço que é, afinal, de muita dor e remorso. E, ainda que a prosa de Tolstoi nos remeta sempre para um tempo que não é o nosso, conseguimos rever-nos perfeitamente nos sentimentos de Ivan Ilitch e concluir que o ser humano permanece o mesmo em todas as épocas, o que é especialmente visível na primeira cena da novela, em que a notícia da morte de Ivan Ilitch leva imediatamente os seus colegas a pensar em qual deles irá ocupar o seu lugar (e também no jogo de cartas que os espera a seguir ao velório). Uma pequena obra-prima que nunca passa de moda. É isto a verdadeira literatura.

Comentários

  1. Tenho e já li, como outros do Tolstoi, incluindo a Guerra e Paz e Anna Karenina. Agora ocupo-me com o Idiota de Dostoievski, mas é sempre bom regressar aos clássicos da grande literatura, em traduções directas dos originais russos.

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  2. Por acaso a edição que eu tenho é da Relógio d'Água e tem posfácio do Nabokov, mas isto é apenas um pormenor: o que conta é mesmo a novela e essa é exemplar.
    E é verdade, o cenário do mundo vai mudando mas as qualidades e defeitos dos homens mantêm-se inalteráveis.
    🌿🌼
    Maria

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  3. Bom dia com Alegria (e Feira do Livro)

    Clássicos russos. Literatura como sinónimo de reflectir ou pensar.

    ("Man, estou bué fascinado com esta cena")

    Implica disponibilidade para. Tempo. Motivação.

    ("O gajo está online?")

    Alguma capacidade de insight. Empatia. Simpatia.

    ("Calma! Calma! Acerta-lhe agora!!!")

    Parece fácil, mas não é difícil.

    ("NÃO!!! NÂÂÂÂÂOOOO!!! AGUENTA, AGUENTA!!!!")

    Paradoxalmente, não seria difícil.

    Saber viver (ler) não custa. Custa é saber viver (ler)

    Boas Leituras
    cp

    **** Comentário feito ao som de 2 adolescentes a jogar. Perdoai-lhes que eles não sabem o que fazem. Pelo menos até eu desligar o router daqui a pouco :-) ****

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  4. Adoro Tolstoi e A morte de Ivan Ilitch é um livro excelente! Essa coleção com livros selecionados pelo António Lobo Antunes só tinha grandes títulos. Foi dessa coleção que li Ilusões Perdidas de Balzac, outro autor que adoro.
    Obrigada por nos relembrar.

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  5. Uma obra prima, sim, um clássico. Não esqueçam também, por favor, 'Hadji Murat'.
    Quanto à colecção António Lobo Antunes, tenho aqui alguns, obras intemporais, de Balzac, Svevo, Hawthorne, Conrad,... enfim, já vi muitos exemplares a preço de saldo, a 5 euros, foi sol de pouca dura. O leitor português não aprecia bons livros?

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  6. Ivan Ilitch é também, e em boa parte, a montanha russa emocional do paciente com cancro, doença que nunca é diagnosticado como tal na novela, e que o vai corroendo ao longo do enredo. Impressionante a intuição de Tolstoi que, de modo muito vívido, descreve episódios que hoje vemos como paradigmáticos das várias fases da resposta interior do doente ao cancro (negação, raiva, negociação, depressão, aceitação), as quais só seriam adicionadas ao conhecimento médico no final dos anos 60 devido ao trabalho de investigação com doentes oncológico da psiquiatra Kubler-Ross.

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  7. Nunca li Tolstoi, li uma biografia de Tolstoi, mas ainda não ganhei coragem de agarrar na obra do autor. Acredito que se trata do receio de não conseguir gostar, mas penso que está na altura de perder o medo e após ler esta publicação, já coloquei A Morte de Ivan Ilitch na minha lista - parece-me que será uma boa introdução. Obrigada pela partilha.

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  8. Já me referi a esta novela extraordinária por duas vezes e ambas de modo muito entusiasmado. O balanço das várias formas que a personagem foi tendo ao longo da vida que agora está a terminar, sem dúvida. Mas principalmente a descoberta, quase à hora de morrer, do sentido da sua vida, penso eu. Penso também que corresponde àquilo a que chegou o próprio Tolstoi, após anos e anos de reflexões, de averiguações, de estudos, de decisões, entre as quais a de se suicidar (que depois reverteu quando encontrou um sentido para a vida).

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