O prazer de ler

Quando me fazem entrevistas na qualidade de editora, perguntam-me frequentemente o que precisa de ter um livro para ser publicado, ou o que é que um bom livro tem que não se encontre num mau livro. Não tenho uma resposta imediata para nenhuma destas duas questões (podia tentar, mas seria longa e complexa), mas também não consigo avançar apenas com o feeling de que aquele autor vai acabar por vingar ou o simples faro, a intuição de que estou perante um livro que vai dar que falar (o que me aconteceu, por exemplo, com Han Kang e A Vegetariana). Porém, recebi esta semana uma newsletter de uma editora australiana, a Text Publishing, que, sem oferecer definições ou propostas, apresenta uma formulação para o gesto de publicar com a qual concordo em absoluto: «Publicamos livros para dar prazer, para mudar o tema da conversa e para pôr algo novo no mundo.» É isso mesmo que eu gostava que acontecesse com os livros que publico, claro – dar prazer acima de tudo. Mas será também isso que os leitores procuram? Talvez o maior problema esteja em que muita gente não associa a leitura ao prazer, mas a um tremendo frete…


 

Comentários

  1. Ler por frete?
    Jamais!
    (ler jamé )
    Já lá vai o tempo em que tinha de o fazer por obrigações escolares.
    Agora, se um livro não me agrada, vai para o monte das segundas oportunidades. Se o mesmo acontecer uma segunda vez, vai para o Biblioteca, onde talvez encontre quem o queira ler.

    Maria

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    1. Extraordinária Maria,

      Essa do "monte das segundas oportunidades" é uma ideia fantástica, que vou passar a adoptar. Excepto nos casos em que a primeira oportunidade já foi uma oportunidade a mais 😎

      Rui Miguel Almeida

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    2. Olá Rui Miguel,
      ainda bem que gostou da ideia :)
      Lembrei-me de si quando estiveram cá os Waterboys?
      Foi vê-los a Lisboa?

      Maria

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    3. Olá Maria,

      Não sei como sabe da minha paixão pelos Waterboys (terei já mencionado a mesma neste blog?), se calhar também a partilha?
      Eles vêm a Lisboa apenas em Novembro (Campo Pequeno)! Eu sou de Aveiro, o concerto é a meio da semana e ainda pondero se vou ou não. Tenho tido a sorte de os ter bem mais perto, a última vez foi na Expofacic em Cantanhede, no ano passado.

      Um beijinho musical para si

      Rui

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    4. Olá Rui,

      Terá mencionado sim 😊 e até me contou que conhecia o Mike Scott. Falámos do This is the Sea e também foi o Rui que me contou do álbum em que eles cantam Yeats (um dos meus poetas).
      Não consigo encontrar esses nossos comentários, mas encontrei um seu no dia 20/09/2013, num post em que a Rosário fala da visita que fez à Irlanda.
      Se puser w b yeats na pesquisa vai logo lá ter.
      Quanto ao concerto, vi o anúncio há tanto tempo que pensei que eles já cá tinham vindo.
      Sorry!

      Um beijinho musical e outro literário, pois também temos muitos gostos comuns nessa área.


      Maria

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  2. Bom dia,
    "Pôr algo novo no mundo" é uma bela forma de resumir a motivação para trabalhar com criatividade (literária, etc). Gostei!

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  3. António Luiz Pacheco18 de julho de 2019 às 01:47

    Na minha óptica de traça dos livros, fico-me pelo prazer!
    Mudar o tema da conversa , parece-me pretensioso no sentido em que se a conversa vai boa, porquê mudar o tema? Sou nesse aspecto, conservador, aceito a mudança quando trás algo e vale a pena, sou contra o mudar só pelo mudar.
    Pôr algo de novo no Mundo? Só mesmo se valer a pena como referi, e como tendo para o clássico, sobretudo quando o modernismo impera e ser clássico é ser diferente, lembro que "nihil novi sub soli" …
    Dar prazer, ora isso sim, e parece-me que nem é preciso mais nada, é quanto basta!

    Saudações prazeirosas, cá do Bairro Ribatejano.

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    1. "fico-me pelo prazer!"
      Para isso prefiro o sexo.

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  4. Se pensarmos unicamente em dar prazer, um editor escrupuloso e indiferente ao volume de vendas (existirá algum?), optaria por um 'entretenimento de qualidade' (como se define?): uma história bem esgalhada, ainda melhor escrita, sem mais outra ambição.
    Mas depois temos os outros livros, aqueles que deixam borra, que deixam lastro, que para além da sua imensa qualidade literária, aspiram mais alto, a provar uma teoria, uma mundivisão, ou a partilhar um estado de espírito perante o mundo. Ou a não tentar provar rigorosamente nada, ficando-se só pela BELEZA... Estes, para um bom editor serão obrigatoriamente prioridade absoluta. Sob risco de falência.

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    1. Naturalmente que o seu gosto pessoal e a sua experiência serão fundamentais, aliando-os naturalmente ao que julga ser o gosto do leitor.
      Não será bem como os melões (só depois de abertos...) mas fica no caminho.

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    2. Subscrevo. Mundivisão e beleza são fundamentais. As historietas são parte e enjoo de um mundo feito canal. A qualidade literária foge ao hedonismo dos tempos modernos, virtual, desgarrado, imberbe, ignorante da sua própria identidade, um copo cheio de tudo mas vazio de nada.

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  5. Bom dia com alegria e muita tinta

    Julgo entender o alcance das palavras de MRP. E posso até ficar é enlevado por elas enquanto ideal programático do mister de editor.

    Porém, a nossa realidade editorial demonstra claramente existirem outras visões mais capitalistas.

    No fundo, e perdoem-me a comparação, somos todos uns ratinhos a pedalar dentro da gaiola. Os temas e as fórmulas repetem-se, e lá muito de vez em quando aparece uma pérola. E isso é que deve dar um gozo danado ao editor.

    Não é Pessoa nem Saramago quem quer. Designado ou por decreto.

    Quanto ao frete, eu digo o que é um frete. Pintar a casa com o recheio lá dentro, inclusive centenas de livros!

    Boas leituras (sem tinta)
    cp aka o homem dos sete ofícios

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  6. Para Fernando Pessoa, publicar um livro era perder alguma coisa: ser inédito. De facto, há muitos livros que fariam sucesso se permanecessem inéditos - tinham o consenso da boa apreciação do seu único leitor (nota mais, o top).
    Entregar a alguém a apreciação de um trabalho nosso para essa pessoa o publicar, suportando os custos e pagando-nos o "frete", não deixa de pesar na consciência do autor quando o resultado é inferior ao esperado. Já me aconteceu com um livro, a tal ponto que eu, para além de abdicar de parte dos direitos, ainda adquiri exemplares para ofertar a amigos e conhecidos.
    A partir daí, comecei a editar as minhas obras, com chancela própria e registada, passei a ter sucesso.
    Li algures uma frase marota sobre os editores. Apontei-a sem mencionar o autor, o que é pena, mas não resisto a reproduzi-la - "o editor é aquele que separa o trigo do joio e publica o joio".

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    1. Depois de escrever o comentário anterior, passei pelo Sapo e encontrei um artigo sobre a apreciação da leitura, artigo tal redigido por Rita Pinto, editora-chefe da Shifter. Pode-se ler em
      https://shifter.sapo.pt/2019/07/como-tirar-maximo-proveito-livro/
      Não é propriamente um assunto sobre editoras, tema do post, mas é correlativo.

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  7. Claro que a senhora editora não sabe "o que é que um bom livro tem que não se encontre num mau livro", pois se ela é perita a editar maus livros que depois faz passar como boa literatura.

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    1. Tem direito à sua opinião, mas porque não se identifica?

      Rui Miguel Almeida

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  8. Caminhar descalço faz-se necessário. Entre conforto e obrigação o físico se lhe declara: adequar a tenra idade. Passos largos ou curtos, miudos ou fartos; naturalmente, segundo o plano. Na leitura há, quantos caminhos...

    Cláudia da Silva Tomazi

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  9. As pessoas leem para fugir e desfrutar, mas a leitura exige ao cérebro um esforço para muitos excessivo. E infelizmente, o que não falta é gente com o encéfalo letargico, assim, cansadinho...Sempre é mais fácil ligar a televisão e deixar que as coisas entrem, levemente, sem chatear.

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  10. Este comentário não é sobre edição ou editores.
    Poderia ser facilmente resumido a uma foto numa rede social, no entanto muito ficaria por contar.
    Aqui há tempos deparei-me com uma nova livraria, o que é sempre uma boa notícia.
    No lugar da loja anterior que vendia peças de autores que estavam a começar e onde até encontrei a obra de uma artista Moçambicana que se dedicava a criar pequenas criaturas em pano que podiam muito bem ter vindo de outro planeta, directamente para o nosso.
    Para serem abraçadas, mordidas e lambuzadas pelos mais pequenos.
    No lugar dessa loja que se chamava " Histórias na garagem", como se o nome aqui pressagiasse qualquer coisa, concretizou-se uma livraria charmosa. De paredes em alvenaria, descascadas dos estuques, cheiro terroso e particular.
    Não era uma livraria como as outras, seguia um guião muito próprio nos títulos. Uns eram os velhos amigos do costume, outros( tantos ) que nunca tinha ouvido falar.
    E a espreitar por cima dos livros, escritos à mão estavam recomendações de leitores, uma em particular chamou-me atenção e dizia assim:
    "Um sonho e a luta pela quebra do medíocre, do estabelecido, do imposto. Livro incrível, leiam mulheres"
    O livro aqui comentado era A Vegetariana da Han Kang, e não sei quem foi a autora deste comentário.
    Isto cabia numa foto, mas não era a mesma coisa.

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  11. "Talvez o maior problema esteja em que muita gente não associa a leitura ao prazer, mas a um tremendo frete…" Tenho uma profissão que me comprova uma afirmação destas todos os dias... Obrigada pela verbalização!

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