Novela exemplar

É estranho, mas sempre que leio o livro de um autor oriundo do território da antiga União Soviética, independentemente da época em que foi escrito, encontro afinidades e tiques que não são palpáveis mas me fazem imediatamente ver que estou perante um escritor «daqueles lados». Encontro-me agora a ler uma exemplar novela initulada Djamila, de Tchinguiz (também já vi «Chinguiz») Aitmatov, da Quriguízia, que Louis Aragon traduziu para francês em 1959, tornando-a conhecida em vários países europeus, e que começa quando os homens partiram para a guerra e as mulheres (incluindo Djamila) se vêem obrigadas a substituí-los no trabalho braçal (neste caso a transportar sacos de cereal dos campos para as moagens e os mercados). Quando iniciei a leitura, essa marca «russa» era tão forte que até pensei que a guerra fosse mais antiga, mas a páginas tantas percebi que afinal a história se passava no Verão de 1943 e, portanto, em plena Segunda Guerra Mundial. Porém, os sentimentos, os hábitos, o modo de vida ainda bastante rudimentar,  tudo fazia pensar na época em que escrevia Dostoiévski. Djamila é um texto belíssimo, a história de um adolescente fascinado pela mulher do irmão (que a deixou para ir combater e nem sequer lhe escreve da Frente, preferindo dirigir a correspondência à própria mãe, que também não perde muito tempo a transmiti-la à nora): um misto de admiração, amor, ciúme, por uma mulher de corpo inteiro que consegue rir no meio da tragédia e, na altura em que tem de decidir o que é melhor para si, não hesita um instante. Pequenino, dá para uma tarde ou noite de grande alegria. (Tem gralhas e erros e uma paginação mesmo coxa, mas isso é o menos.)

Comentários

  1. Há uma faceta da alma humana a que só os escritores russos têm tido acesso. Lendo-os as nossa alma dilata-se.

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  2. Foi produzido um filme tendo por base esta novela, de 1969 e que passou em Portugal em 1972. Intenso e muito belo. Óbviamente, como tudo que vem do Leste, não merece a memória do Ocidente anti-eslavo e ficou esquecido quase por completo...
    Junto o link: https://www.imdb.com/title/tt0064269/

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  3. Bom dia com alegria

    Para quem, como eu, ainda não tinha ouvido, deixo aqui um podcast extraordinário:

    https://expresso.pt/podcasts/palavra-de-autor/2019-07-17-Palavra-de-Autor-27-Maria-do-Rosario-Pedreira-Estamos-num-periodo-baixo-da-literatura

    Boas leituras
    cp

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  4. (Tem gralhas e erros e uma paginação mesmo coxa, mas isso é o menos.) E é ela editora.

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    Respostas
    1. Compreendo o que a Rosário quis dizer, que o livro é bom apesar dos erros de edição que contém e que não são inculpáveis ao autor. Porque não é a editora que faz um bom livro, mas quem o escreve. E a Rosário nem o editou....

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    2. Bea, ele também compreende... mas tal como os bons escuteiros devem praticar uma boa acção todos os dias, este deprimente hater todos os dias vem aqui "espetar um alfinetinho" na Rosário
      Tadinho, até consigo imaginá-lo, de caderninho na mão, a apontar quantos fãs da Rosário conseguiu irritar hoje.
      A mim diverte-me, dou sempre uma boa gargalhada quando o leio 😅🤣😂
      E amanhã há mais!

      Maria

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    3. O que é um hater? Será um cobardolas?

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    4. Ó Seve, hater (do verbo to hate=odiar) é o nome dado às pessoas que vêm à net só para dizer mal e apenas mal.
      Nunca viu o Eduardo Madeira no Cinco? Ele aparecia umas vezes como Busto do Ronaldo, outras como Hater.
      E sim, a maior parte deles são isso que diz...

      Maria

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    5. Cara extraordinária Maria, estamos sempre a aprender; obrigado pela sua compreensão desta minha absoluta e incompreensível ignorância.

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    6. Lamento desiludir, mas não sou eu o autor de semelhantes comentários. A que propósito? Não trabalho no ramo editorial, nem alguma vez fui candidato (rejeitado) à edição de algum livro, como já devem ter reparado :) :) Tenho pela Maria do Rosário a maior admiração e simpatia! Frequento o blog para colher sugestões de bons livros e para ler as opiniões sempre lúcidas e avisadas da Maria do Rosário e de muitos Extraordinários. Às vezes não resisto, é certo, e meto desastradamente a colherada, com comentários agrestes e porventura injustos, mas sempre assinados 'Jorge' anónimo. Mau feitio. Não se repetirá. As minhas desculpas a todos.

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  5. Gostava de o ler; aprecio esses livros pequenos mas bons, que nos prendem à história e devoramos de uma assentada.

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  6. António Luiz Pacheco25 de julho de 2019 às 11:14

    Sim, os escritores russos normalmente conseguem transmitir grande interesse, e parece que têm uma humanidade própria.
    Creio que não errarei se disser que a literatura russa é uma das Grandes Literaturas Mundiais? Na Europa é a minha preferida, se bem que não conheça obviamente toda a literatura europeia nem sequer da maior parte dos países.

    Saudações tracejantes cá do Bairro Ribatejano!
    Hoje houve almoço e reunião (em Ovar, uma excelente cabidela!) do nosso grupo de caçadores que escrevem, a próxima colectânea deverá estar no prelo muito em breve, estão-se a ultimar as ilustrações.

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