Passar ao lado
Foi logo desde a sua fundação – em 1944, ainda durava a Segunda Guerra Mundial –, que o jornal francês Le Monde (um dos mais respeitados internacionalmente) começou a publicar críticas e fazer destaques a livros. Recentemente, um artigo no mesmo jornal faz uma espécie de revisão da matéria dada e mostra as obras que, em cada ano, tiveram maior destaque. E, embora – como é natural – a tónica tenha sido dada ao «domaine français» (não só por chauvinismo, mas também), foram incluídas algumas traduções de autores de nomeada. Mas o que é mais curioso é que o Le Monde passou completamente ao lado de alguns livros que hoje têm uma importância indiscutível e marcaram a história da literatura, o que podia indicar que, entre tudo o que recebem, nem sempre os críticos intuem o que vai vingar e cativar a academia e os leitores. Camus – que recebeu o Prémio Nobel da Literatura com 50 e tal anos – é, por exemplo, um dos grandes ausentes. E, enquanto têm parangonas alguns livros de autores que foram rapidamente esquecidos, existem obras que tinham tudo para ter sido destacadas e não o foram: Moderato Cantabile, de Marguerite Duras, ou (pasme-se!) A Bela do Senhor, de Albert Cohen. Em relação a este último, o Le Monde deve ter ficado tão perplexo que até foi tentar saber o que pode ter acontecido junto do então responsável, e a resposta deste foi o mais sincera possível: «Preguiça.» Sim, o livro tinha uma lombada de 5 cm que metia medo, 800 e tal páginas em letra pequena, parágrafos longos e proustianos; além disso, era Verão, pedia-se qualquer coisa mais leve, e havia um apetecível livrinho de Françoise Sagan a piscar o olho entre os montões de pacotes com livros que as editoras generosamente enviavam. Foi simplesmente assim, em suma. Pode chocar-nos, claro, mas, ao msmo tempo, serve para nos «consolarmos» quando não sai uma crítica a um livro que nos parecia fundamental (mas era muito grande) e explica porque tantas críticas a livros pequerruchos (e importantes) saem quase logo a seguir à publicação.
Se os desígnios de Deus são insondáveis, são-no ainda mais os desígnios dos editores e certamente que os dos leitores, estes pela sua imensa diversidade!
ResponderEliminarE, se calhar ainda bem que assim é, se bem que os homens do marketing bem queiram que as coisas sejam de outro modo, mas não são … não é? Afinal qual a fórmula para o sucesso?
Saudações cá de uma Cidade, Morena mas diversificada!
É isso mesmo, Pacheco.
EliminarAté porque os desígnios humanos são demasiado falíveis (tantas vezes que escapam à nossa compreensão. Embora não seja o sítio mais adequado para falar do assunto, a expulsão de Messi no jogo com o Chile, é uma dessas pequenas coisas...). :)
Colocamos sempre a literatura num nível muito elevado mas noutros meios pode não passar de uma oportunidade de negócio ou de um assunto de conveniência. É a vida, como dizia o outro.
ResponderEliminarA literatura é uma indústria de consumo. O que apela às massas, apela às massas, o resto fica no seu cantinho. É o mesmo na música, por exemplo.
ResponderEliminarBom dia com alegria e sol algarvio envergonhado
EliminarVoto nesta resposta e na do Extraordinário Pacheco.
Cabe-nos separar o trigo do joio e tolerar a diferença por muito má que ela seja.
A minha amada esposa, por exemplo, consome literatura de cordel porque, e cito, a relaxa da sua prática clínica. Não faz a mais pálida ideia de quem sejam Proust, Camus ou Duras.É feliz assim. Quem sou eu para lhe tentar educar o gosto literário?
Lutarei até às morte pelo seu direito a discordar, frase apócrifa atribuída a Voltaire, remasterizada por Oscar Wilde como: lutarei até às morte pelo seu direito a fazer figuras ridículas.
E depois, chapéus há muitos, livros ainda mais e o tempo não para.
Boas leituras e boas férias
cp
AHAHAHAH!
EliminarAlegre e oportuno comentário!
Grande abraço aí para o Algarve, ainda que ensombrado.
Completamente de acordo! Creio que hoje a edição é sobretudo de inspiração económica, subjugada às leis do marketing e já não tanto com a pureza literária que poeticamente gostaríamos… mas, por outro lado atentemos nisto e de forma muito pragmática: talvez porque hoje a edição é um negócio, também a literatura tenha ganho em divulgação e novas perspectivas editoriais? Será?
EliminarFica a pergunta, não a afirmação pois que sei eu disto? Que acham?
Saudações especulativas cá da Cidade Morena!
O gosto pessoal muitas vezes vence, ao ponto de até ignorar a qualidade latente...
ResponderEliminar(até me apetece perguntar à Rosário, se se questiona, quando faz as suas escolhas como editora, que pode estar a deitar fora um talento, por não ter gostado do seu "estilo literário"...)
Ora aí está, outra interessante reflexão! Aliás como sempre…
EliminarÉ justamente naquilo que eu me enfoco enquanto traça dos livros, dita omnívora! Se só lesse quem me fosse simpático, pense como eu, de quem goste, etc. teria a vida facilitada e muito menos livros espalhados por estantes e divisões, mas, o que perderia eu em termos de gastronomia literária? Que sabores, cores e aromas desconheceria?
Não lia Mário Cláudio, porque é contra a caça!
Não lia Aquilino, porque carbonário!
Não lia Torga, porque comunista!
Não lia Pessoa, porque era alcoólico, fumava, tinha queda para o ocultismo…
Não lia Luiz Pacheco porque era alegadamente pedófilo!
Não lia Botto porque era homossexual!
Não lia Saramago porque era antipático!
Não lia Maria Filomena Mónica porque é dondoca.
Não lia Agustina porque era fascista!
Não lia Camões porque era um rufião e marialva!
Não lia Sousa Tavares porque tem uma filha casada com uma Espírito Santo…
Não lia… enfim, não lia tantos bons autores que realmente até me arrepio!
Sou seguidora do seu blogue há bastante tempo.Atraves dele tenho sabido da existência de novos autores,livros,lançamentos,livrarias,bibliotecas,enfim,um sem numero de informações uteis e uma forma de saber das novidades literárias que interessam e dadas por quem sabe.Graças a si descobri e li muitos e bons livros,a que de outro modo não teria acesso por falta nomeadamente de criticos literários,de programas na televisão(como já houve e vários),de jornais e revistas dedicados a literatura,em suma,acho que há um desinteresse geral por este tipo de tema e sua divulgação.
ResponderEliminarTambém leio as suas cronicas(no blogue)e tudo aquilo que nos vai transmitindo sobre os mais diversos temas.
Hoje resolvi finalmente fazer um comentário,que poderá entender como critica construtiva sobre dois pequenos detalhes que me ocorrem.
Há talvez 2 ou 3 meses publicou uma fotografia de uma biblioteca arquitetonicamente inovadora e a todos os títulos super-apelativa,que quase nos empurra para empreender uma viagem a China para a podermos admirar e dela usufruir.Sobre esse assunto,apenas a descreveu como sendo numa cidade da China e penso que nos deixou a todos com "a pulga atras da orelha"para sabermos ao certo onde pode ser vista.Por favor,desvende o mistério.
Recentemente fomos confrontados com a morte de Agustina Bessa-Luis.Para alem do seu valor incontestável,trata-se de alguém que,alem de ter exercido variadíssimos cargos,deixou sem duvida uma forte marca na literatura portuguesa.Paradoxalmente,não li nada que se lhe referisse no seu blogue,facto que muito me espantou.E o que me levou a escrever este comentário hoje foi precisamente o seu post de há algumas horas.
Realmente há autores e livros esquecidos...
Recentemente
Normalmente, não respondo aos comentários, até porque muitas vezes só tenho tempo de ps ler à noite. Mas, por acaso, vim aqui e, como é o seu primeiro comentário, vou responder:
Eliminar1) Se a biblioteca era a que comparei com um desenho de Escher, fica em Chongqing.
2) Sobre Agustina: quando morre um autor desta craveira, todos escrevem sobre ele. Tanto se disse sobre a grande Agustina por esses dias que eu não teria nada a acrescentar que fosse melhor. (Acrescento que por vezes os meus posts são escritos antecipadamente e pode ser que, nesse dia, já tivesse um post programado sobre outro assunto.)
Obrigada por aqui vir.
Acabei de ler A Bela do Senhor, levou-me algum tempo até porque lia outros em simultâneo, mas concordo com o Bernard Pivot, "É a obra prima da literatura amorosa do nosso tempo".
ResponderEliminarE a Bela do Senhor, do Albert Cohen, é o #34 na lista do Le Monde.
EliminarE o Livro do Desassossego, do nosso Pessoa, é o #48.
Gostei de ver um português na lista, apesar de tudo...
⚘
Maria
O Mundo é hoje, mais do que nunca, um ADELO onde tudo se compra e tudo se vende, uma MONARQUIA onde o rei é verde!
ResponderEliminarOuve lá, o meu é azul-e-branco!!!!!
EliminarEheheheh! Mas tens razão.
Ó Paxeco tá calado e cala-te.
EliminarSaudações Verdes
"Preguiça" uma resposta tão sincera que até parece mentira.
ResponderEliminarA crítica de cinema também deve ter os mesmos problemas. Pode-se sempre andar para a frente a visualização do filme ou recorrer a críticas estrangeiras dos livros mais espessos ;-)
O "Ulissses" e "A Montanha Mágica" ou "A piada infinita" seriam dos últimos livros a saírem num jornal. Ou pedirem ajuda aos leitores!
Há quem compre livros de lombada avantajada por serem grossos e preencherem a estante; será de bom tom escolherem aqueles cujos autores são sobejamente conhecidos e tenham capa cartonada. Neste caso, parece-me que, se a finalidade termina nesse apeadeiro, não os lêem. Até aqui nem sou de os julgar, porque os compram com o seu dinheiro e não os recebem de mão-beijada das editoras. Estão perdoados, porque privilegiam a mobília e não a leitura.
ResponderEliminarHá quem faça crítica literária, receba as obras das editoras e escolha apenas algumas, aquelas que lhes dão no "goto". Alguns dos livros nem os lêem, a outros fazem uma breve leitura na diagonal e arrumam e vá com o papel impresso para o vão da escada. Como terão as estantes repletas, nem se preocuparão em arrumá-los ali. Alguns desse tem uma particularidade próxima passada ou futura: ou já foram editores ou procuram sê-lo, e, tal como não diria melhor Fernando Pessoa, "ler é uma maçada".
Na altura em que comecei a publicar através de editora, foi-me mostrada a lista das "ofertas" para os críticos- passava das vinte e tal (anos 80), hoje não sei... Dessas quase três centenas, recebi duas críticas, mas das boas, que valeram bem acima das outras omissões: Fernando Assis Pacheco e Baptista Bastos. No "Sete", que até recebeu e cobrou publicidade sobre o lançamento, nem uma linha.
Emenda ao texto, porque é "maçada" para mim reler o que escrevo nos comentários. Não sou crítico literário, desde já deixo isso claro.
EliminarOnde escrevi "quase três centenas" quis dizer "quase três dezenas", porque combina com as "vinte e tal" ofertas.
Já agora, considerem "Alguns desses têm uma particularidade"...
Felizmente para mim, Fernando, não conheço ninguém dessa "espécie" que refere no primeiro parágrafo, mas acredito que existam... ou que existiam, já que agora a decoração das salas tende a ser minimalista, penso eu de que...
EliminarEu continuo a preferir o conteúdo à forma, e não apenas nos livros mas também nas pessoas :)
⚘
Maria
A Maria tem razão quanto à decoração minimalista nas salas-de-estar (ou noutra divisão), onde o "truque" era usado e abusado. Mas há ainda os resistentes e os persistentes na ideia. Confesso que cada um faz o que quer na sua decoração, não sendo as lombadas dos livros aquela que destoa mais numa sala de convívio ou numa sala-de-jantar. Acho que os decoradores minimalistas nem sequer têm espaço para bibliotecas, que são uma dor de cabeça para manter em condições, não fossem os ácaros uns inquilinos não desejados.
EliminarTer uma biblioteca com livros que não se lêem é como haver medicamentos numa farmácia que nunca foram receitados - não fazem bem a ninguém; é apenas "mobília".
Na biblioteca que tenho no meu escritório estão os livros de que mais gosto, e sinto-me bem com esta companhia. Mal comparado, o que prende o gado não é a cerca; é a qualidade da erva.
Como me oferece uma flor, marca inconfundível dos seus comentários, permita-lhe que lhe reproduza duas, sujeitando-me a ser considerado um plagiador.
⚘⚘
Fernando
Muito obrigada, Fernando, pela resposta e pelas flores.
EliminarJá estão numa jarrinha ali ao pé dos livros.
Maria
Extraordinário Pacheco,
ResponderEliminarAchei interessante e engraçada a sua lista de razões sobre autores, mas gostaria de contribuir para desfazer duas afirmações que já fez anteriormente e me parecem erradas. É curioso mas são ambas de natureza político-partidária.
AGUSTINA - era uma mulher de direita mas não creio que fosse fascista e revelou tendências diversificadas enquanto cidadã de direita: apoiou a candidatura de Freitas do Amaral à Presidência contra Mário Soares; aceitou ser nomeada para um alto cargo por Santana Lopes, um liberal; apoiou a candidatura de Jorge Sampaio à Presidência contra Cavaco Silva.
TORGA - definia-se sentimentalmente um socialista, mas no fundo sentia-se um anarquista, um rebelde; nas suas obras tomava sempre a defesa dos humildes; as suas poucas e pouco entusiásticas participações políticas foram feitas no PS, chegando Manuel Alegre a convencê-lo a presidir ao 1.º comício daquele partido em Coimbra; esteve envolvido na campanha de Humberto Delgado e foi apoiante de Ramalho Eanes à Presidência; a alegação de comunista veio do hábito que tinham a PIDE e o regime salazarista sempre que atuavam politicamente contra alguém, sendo que no seu caso resultou de ter feito pesadas críticas ao franquismo.
Vamos então ler os seus livros, como propugna, principalmente os de Agustina, que sendo eu de esquerda, são todavia os que mais me agradam.
Caríssimo Amalivros:
EliminarAinda bem que me entendeu, o importante é ler, ler com qualidade, o resto façamos de conta que é ficção!
Obrigado pelo seu esclarecimento, mas entenda que eu propositadamente exagerei…
Claro que Agustina não é fascista, porém, sabemos que para a esquerda-não-esclarecida quem seja de direita é fascista.
Torga… sempre me foi apresentado como sendo comunista, e também sabemos que a direita-não-esclarecida enferma dos mesmos males da esquerda-idem, ou seja são falhos de esclarecimento/entendimento. Se os PIDE fossem esclarecidos não o seriam…
O PCP sempre teve essa tendência, de pretender que quem fosse contra o antigo regime, seria militante, e tentam fazer acreditar que o próprio Delgado o era, ou Henrique Galvão, e sabemos que nenhum dos dois era comunista. Creio que caí nesse conto, e julgava que Torga tivesse sido comunista, se bem que o Dr. Fernando Vale (que foi colega de Torga, o maçon mais velho do Mundo e fundador do PS) me dissesse uma vez num almoço de caçadores em Arganil, que não era, nem nunca fora!
Grande abraço esclarecido cá da Cidade Morena.
«Nem sempre os críticos intuem o que vai vingar e cativar a academia e os leitores.»
ResponderEliminarO(a)s editore(a)s também não.
No melhor pano cai a nódoa, e o seu, senhora MRP, deve estar cheio de nódoas.
ResponderEliminarE os seus comentários são sempre uma nódoa
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