Recusar livros

Tenho dificuldade em recusar livros, mesmo quando sei que os não vou ler; e também de dizer logo que não quando me estendem aqueles sacos pesadíssimos nas Câmaras Municipais e nas bibliotecas, mesmo que à partida sejam coisas que não me vão interessar. Mas há quem não pense assim e faça até desse «não» uma afirmação de carácter político. Quiçá para se reconciliar com os professores, no Dia Nacional da Leitura Trump resolveu oferecer em nome da mulher às bibliotecas de escolas primárias que tinham atingido o padrão de excelência (uma em cada Estado) uma colecção de dez livros ilustrados pelo Dr. Seuss (bastante conservadores e cheios de lugares-comuns, mas também não seria de esperar outra coisa). E «mandou» também a sua Melania, que tem um rosto bem bonito, a algumas dessas escolas ler as histórias às crianças. Porém, a bibliotecária do Massachusetts cuja escola foi visada recusou o presente, dizendo que havia escolas de comunidades muitíssimo mais carenciadas que não tinham tido direito à oferta e que era a essas que deveriam ter sido dadas as colecções de livros. E que, além disso, os títulos daquela colecção eram demasiado caricaturais, com estereótipos antiquados, e um deles incluía mesmo comportamentos racistas. Antes de assinar, aconselhava dez títulos alternativos. Chama-se Liz Soeiro. Deve ser cá das «nossas».

Comentários

  1. Quem gosta de livros não usa a palavra "não"...

    Em relação à "posta", a Liz Soeiro fez o mais importante, nestas coisas (mesmo que servisse de pouco, em relação à personagem...): enviou uma nova lista de dez títulos alternativos.

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  2. António Luiz Pacheco3 de julho de 2019 às 02:24

    Eu traça dos livros, dificilmente recuso um! Como dificilmente deixo de ler porque não gosto, não concordo ou mesmo sou contrário ao autor, seria como não comer, e eu sou omnívoro, como de tudo.
    Acho que tal atitude só me empobreceria como pessoa e intelectualmente. Notem que não estou a chamar pobres de espírito aos que não lêem este ou aquele autor por razões políticas ou outras, mas apenas que perdem oportunidades.
    Ao ler não estou a apoiar nada nem ninguém, apenas a informar-me e sobretudo a informar-me sobre quem pense diferente, o que é muito importante, penso eu.
    Nem gosto sequer de classificar os livros como foi feito pela insigne bibliotecária, pois respeito os livros e os autores por muito que fiquem ultrapassados, mas já se sabe, é a minha opinião e vale o que vale.

    Saudações de uma traça dos livros na Cidade Morena!

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    Respostas
    1. Bom dia com alegria

      Á política o que é da política; á literatura o que é da literatura. Certo?

      Parece fácil mas não é difícil...

      O sr Trump apenas está a lutar por aquilo acredita ser a sua verdade, parafraseando agora alguém. E não olha a meios para o fazer, com já sabemos.

      A Melania é só usada para atenuar a dissonância cognitiva do acto (político), via alguns instintos básicos do homem (e da mulher, não me vão acusar de preconceito de género)

      Mas, na realidade, é impossível dissociar a política da literatura. Todos os nossos actos são políticos, inclusivamente ler.

      Assim, na minha modesta opinião, a nossa suposta descendente lusa, Soeiro de seu apelido, "has got balls". Soube distinguir o trigo do joio.

      Peço desculpa pelo meu francês

      Boas leituras
      cp

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  3. Bom francês, tal como o alemão. O inglês fica adiado saine dai.

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  4. O que eu gostei da Liz Soeiro! É que agiu mesmo como nós desejaríamos agir se estivéssemos no seu lugar embora eu duvide que eu o fizesse. Mas ela defendeu os seus interesses. E pensou nos dos outros. Com toda a propriedade.
    Um obrigada à Rosário por nos ter contado esta história. Salvou o meu dia:)

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  5. Porque MRP não explicitou a origem nem a data deste caso, faço eu isso. Ocorreu há quase dois anos, em Setembro de 2017...

    https://www.bostonglobe.com/metro/2017/09/28/cambridge-school-district-says-did-not-authorize-rejection-books-donated-melania-trump/QzycyZizdXlpF6IqvMdfPJ/story.html

    ... E não percebo porque só agora é motivo de menção. Porém, e como se pode ler no artigo acima indicado, a autoridade escolar de Cambridge distanciou-se e até, de certa forma (mesmo que indirecta), condenou a atitude da sua funcionária, desrespeitosa, ofensiva, demonstrando uma evidente falta de... educação. Pelas suas declarações não custa adivinhar que pertence à «seita» que, nos EUA e desde há alguns anos, se esforça por retirar, esconder e mesmo eliminar livros que, apesar de serem grandes obras, actualmente não respeitam os critérios «politicamente correctos» dos novos censores, afadigados em reescreverem a História. Liz Soeiro é «das nossas»? Minha é que não é, de certeza.

    Já agora, seria interessante saber por parte de MRP quais são esses aspectos «bastante conservadores» e os vários «lugares-comuns» que alegadamente caracterizam os livros de Theodor Geisel - que, décadas após terem sido publicados originalmente, continuam muito populares e deram inclusivé origem a filmes de grande sucesso... o que por isso os mantém fora, suponho, da categoria de «literatura séria».

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  6. Possivelmente a Liz Soeiro, talvez pelo apelido, poderia recomendar para oferta livros da autoria de Soeiro Pereira Gomes, sem que os anti-comunistas bibliotecários tivessem moralmente razões literárias ou estéticas plásticas para criticarem ou recusarem essas dádivas. Pela mesma razão, não acho que eu, no lugar dela, tomasse semelhante atitude, designadamente por achar os desenhos do Dr. Seuss "conservadores" ou "demasiado caricaturais".
    Enfim!... Se vamos por este caminho, todos os desenhos dos inícios do século passado são conservadores e caricaturais até dizer chega. Que ela critique o conteúdo literário, falsas moralidades, conservadorismo social e político, amoralidades e o diabo a quatro patas, vá que não vá; agora, o desenho?! Refere-se certamente ao "gato da cartola", em estilo do início do século XX, género "gato Félix", uma vez que o autor viveu por essa época (nasceu em 1904). será, todavia, justo recusar-se uma obra para uma biblioteca geral e pública, só porque não se simpatiza com o desenho ou com os estereótipos do passado? Certamente a senhora bibliotecária, que pretendeu ter os seus quinze minutos de fama, repudiaria "O Romance da Raposa", com textos e desenhos estereotipados no seu entender.
    Outro ponto a salientar. A senhora Soeiro achou que a "sua" biblioteca não devia ser conspurcada com aquelas obras, mas achava simpático aquele "refugo deseducacional" ir parar às estantes das "escolas de comunidades muitíssimo mais carenciadas ", uma vez que "era a essas que deveriam ter sido dadas as colecções de livros"! Que simpática, a senhora! Imagino o tempo que ela dedica a arrumar as prateleiras e a esbranquiçar os seus monos!
    Julgo que muito trabalho terá aquela bibliotecária de Massachusetts, alombando às costas com os caixotes de livros recambiados para as bibliotecas das comunidades carenciadas, ou ainda para países onde resistem cafres iletrados, pelo menos aqueles que não se enquadram no seu espírito "progressista".
    Tal tipo de censura causa-me nojo íntimo e presumo que, com aquela barafunda de Trump e dos contrários, a que se junta esta senhora que desdenha alguns livros, lá bem no fundo os americanos merecem o que têm.

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