Regressar

Já aqui disse – tenho a certeza – que, com todos os livros que ainda não li (e com tantos outros que tenho de ler profissionalmente no dia-a-dia), é mesmo raro eu regressar a um romance lido noutra época da vida (com a poesia, bem entendido, isso não acontece). Há tempos, como aqui contei, não resisti, porém, a Italo Calvino e ao seu brilhante Se numa noite de Inverno Um Viajante – e ainda bem! Mas a experiência do reconhecimento imediato e da satisfação plena que obtive com Calvino nem sempre se repete – e a reacção pode até tornar-se bastante decepcionante: porque já não temos aquela idade, porque a nossa cultura é outra e mais ampla, porque mudamos de gostos ao longo da vida… O que não muda, de facto, são os grandes autores; e, por razões que Vossas Excelências em breve saberão, precisei de regressar a um livro muito amado, pelo que, numa noite da semana passada, fui à estante buscar um velhinho romance de Marguerite Duras do qual guardava a mais poderosa das memórias. Trata-se de Uma Barragem contra o Pacífico, texto que conta muita verdade da vida da própria autora e da sua família na Indochina, para onde foram atrás da promessa de uma vida melhor. E tudo, mas tudo, o que lembrava ainda lá está intacto, exactamente como da primeira vez: e a primeira vez foi mesmo há muito tempo… Milagres que, por serem milagres, quase nunca acontecem. Leiam, se o encontrarem.

Comentários

  1. Bom dia. Nunca li nenhum dos dois, no entanto já reli com muita frequência, tendo feito de alguns livros duas e três leituras. Daqueles, de facto, que são ou foram marcantes. Reli, por exemplo, quase toda a obra de Eça e o Memorial de Saramago, mais do que uma vez. Sempre com enorme satisfação.
    Faço-o menos agora, porque os livros são tantos que talvez seja um desperdício não ler novas obras em detrimento de outras já lidas.
    Contudo, penso muitas vezes que, afinal, talvez não seja necessário ler muito, quando se leu o que realmente interessa.
    A actualidade literária está cheia de muito lixo, ou fui eu que me tornei demasiado exigente?

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  2. Também repito muito pouco as leituras, especialmente as que me influenciaram positivamente noutros tempos... Sabemos que mudámos, mas os livros nem por isso.

    (e mais um título para a colecção...)

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  3. "Se numa noite de Inverno um viajante", foi um dos muitos livros que larguei por volta da pág. 40, mas a ele quero voltar, já que, também com "O memorial do convento" tinha acontecido o mesmo mas quando a ele voltei li-o de seguida de uma só vezada e em seguida li praticamente todos os livros de Saramago, só me faltam "A jangada de pedra" e "A história do cerco de Lisboa".

    O último que larguei ao fim de 30 páginas foi "Os memoráveis" da Lídia Jorge.
    Outra das das grandes estopadas que apanhei foi "As benevolentes" creio que de Jonathan Littel, ainda aguentei cento e poucas páginas, mas é um grande calhamaço e realmente achei-o uma grande estuxa, como diria o meu amigo Almeidinha.

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  4. Concordo com tudo o que se escreveu acima.
    Na actualidade, é quase um milagre reler um livro. E isto porque o tempo escasseia e as horas perdidas com "regressos" impedem-nos de descobrir novas e brilhantes obras.
    Também já não aturo livros de que não gosto até ao fim. Ponho-os de lado e parto para outra. Poupar tempo é algo que aprendemos com a idade.

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  5. Bom dia. Rosário meu amor, você menciona Poesia com Louvor! Parabéns extraordinários.



    Cláudia da Silva Tomazi

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  6. António Luiz Pacheco4 de abril de 2018 às 04:14

    Não conhecia esse livro de M. Duras, e pareceu-me interessante o tema! Vou investigar .
    Quanto a reler, ao contrário de muitos dos nossos Extraordinários Comparsas, eu releio muito dos livros - o mais frequente é reler passagens, na verdade - que me tocaram, e, são tantos!
    Um livro é como um velho amigo que de vez em quando é bom rever, e de quem sentimos saudades.
    É bem verdade que mudamos e como tal muda a nossa forma de ver as coisas, os livros não mudam... não? Quem disse? Pois se mudamos nós e a nossa forma de ver as coisas, quando relemos um livro não vamos tirar dele novas coisas? Novas sensações, porque outra é a nossa percepção? Pela minha parte sei que sim, e um livro que me marcou nunca me decepcionou...

    Saudações cá da Cidade Morena!

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  7. Da Marguerite nunca li nada. Só vi no cinema e tenho em DVD o" India Song" (tirado de um dos seus livros) com a música notável do Carlos D'Alessio que aliás acompanhou o seu féretro aquando do seu funeral em Paris. Releio sempre com prazer Eça, Camilo e Aquilino. Do Saramago li O Memorial,A Viagem do Elefante e O Dia da Morte de Ricardo Reis.Abomino O Antunes.Já reli várias vezes A Viagem ao Fim da Noite do Céline e A Sangue Frio do Capote de que revi há pouco o notável filme com o mesmo título do Richard Brooks..

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  8. Não é fácil revisitar um livro. Somos uma mutação constante. Há um ou dois aos quais gostava de voltar, são livros da infância, da quase adolescência,especialmente.
    Há um a que volto sempre e do qual nunca me separo. É poesia e faz-me sempre sentido.

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  9. A Barragem contra o Pacífico, que talvez tenha sido o primeiro dela que li, e que me apaixonou como nenhum outro dela até agora, tem seguimentos vários, o mais notório talvez Os Amantes. Mas o A Dor e especialmente o Olhos Azuis Cabelos Negros (dos mais difíceis de ler, mas extremamente conseguido) são também dos meus favoritos. Mas nenhum como a Barragem...

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