O que ando a ler

Volto a falar de um livro que já aqui mencionei aquando da atribuição do Man Booker Prize do ano passado, mas ainda não tinha lido: Lincoln no Bardo, de George Saunders, o escritor norte-americano celebrizado pelas suas short-stories que se atreveu ao romance e arrecadou logo na estreia um prémio de peso. Com razão. Lincoln no Bardo (o título estranha-se mas depois entranha-se) é uma peça literária excepcional, um exercício que apela ao teatro e seus coros (quase tudo são, afinal, falas, exactamente como num texto dramático para ser dito em palco) e, simultaneamente, à citação (prática tão querida aos anglo-saxónicos, que têm dicionários de quotations a propósito de tudo), mas que aqui se refere a livros de testemunho e crónica social (inventados, diria eu, apesar da versomilhança dos títulos e autores) que servem, juntamente com as referidas falas, para nos contar a história central: a de que o presidente Lincoln, na mesma noite em que dava uma festa de arromba, perdeu um filho pequeno que amava profundamente. Por não estarem na terra natal, é emprestado provisoriamente ao presidente lugar num jazigo para o túmulo da criança; e é aí que vamos encontrar Abraham Lincoln visitando o seu menino, tirando-o do caixão, abraçando-o, falando-lhe em silêncio e chorando amargamente. E é aí também que os habitantes desse cemitério, uns espíritos melhores do que outros (mas três principalmente - e um deles, o reverendo Everly Thomas, talvez nem espírito seja...) irão tentar de tudo para que o pequeno Willie saia daquele lugar que, enfim, não é um bom lugar para uma criança. Para isso, porém, é preciso que o pai volte e o leve com ele, mesmo sem o saber que o leva quando partir. Belíssimo, estranho, musical - com um coro de vozes que captam imediatamente a nossa simpatia-empatia, recomendo vivamente e quase me penalizo por ter esperado tanto tempo para o começar.

Comentários

  1. Acabei de ler "A Louca da Casa" da Rosa Montero (e gostei bastante).

    É um daqueles livros que todas as pessoas que gostam de livros e da escrita deviam ler.

    Estou a ler "Ela Cantava Fados" do jornalista Fernando Sobral.

    Lê-se bem mas não deslumbra.

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    1. Esse livro da Rosa Montero é uma pérola, desconhecida de muitos.
      Mas ele tem outro - ainda melhor, se possível - El Amor de mi Vida, e não se deixe enganar pelo título, é um livro maravilhoso sobre livros e literatura, daqueles em que dá vontade de sublinhar quase tudo o que lemos.
      Não sei se foi traduzido, mas lê-se muito bem em castelhano.

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    2. A Rosa que me desculpe ter-lhe trocado o género. Ela (e não ele) tem outro

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    3. "A louca da casa" é realmente um belíssimo livro.

      "Instruções para salvar o mundo" e "A história do rei transparente" são outros dois excelentes livros da Rosa Montero.

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  2. Eu descobri recentemente David Goodis, primeiro foi A Lua na Valeta e agora estou a acabar de ler Street of the Lost, ambos dos anos 50. Muito bom escritor, mestre em criar aquela atmosfera típica do cinema e da literatura noir do pós-guerra.

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  3. Cada vez gosto mais de ler livros que falam de livros.
    Depois de acabar o "Embalando a Minha Biblioteca", do Alberto Manguel (que adorei), comecei a ler "Uma Biblioteca da Literatura Universal", do Hermann Hesse, e está a ser uma óptima surpresa.
    Também estou a ler, e a saborear com muita calma, o livro de contos "À Beira da Água" do Paul Bowles.

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  4. Respostas
    1. Ele escreve (escrevia) tão bem e deixou-nos livros tão bons. Também adorei ler Os Anéis de Saturno e o Campo Santo.

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    2. É, de facto, um escritor magnífico.

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  5. "Eu Confesso" de Jaume Cabré. Magnífico. E enorme. Mas já vou a mais de metade.

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  6. Também eu, adoro estrear entusiasmos.
    E o último foi nos "Os lindos braços da Júlia da farmácia " do Rentes de Carvalho.
    Que livro!
    Que personagens aquelas saídas do quotidiano e que entram claramente pelo fantástico sem purpurinas de linguagem.
    Que elegância de contador de histórias.

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    1. J. Rentes de Carvalho - que GRANDE contador de histórias.

      Tenho-me deliciado com os livros dele, comecei "Com os Holandeses" e nunca mais parei!

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    2. E somos dois Seve! Descobri-o já nem sei como, e fiquei fã! Escreve coisas comuns sobre gente que nós até podemos conhecer... e fá-lo muitíssimo bem!

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    3. gostei bastante desse livro de histórias.

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    4. Tudo o que ele escreve é excelente, mas o meu favorito continua a ser a Ernestina: sublime!

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  7. "Moby Dick" - Herman Melville - Este poderia ser um manual da caça à baleia e o retrato trágico do sofrimento que lhe era inflingido, mas é, para além disso, uma epopeia recheada de aventuras.

    O ódio e a fúria que movem uma figura sinistra com perna de pau- o capitão Ahab, na caça a Moby Dick (a baleia branca), responsável pelo uso da referida perna de pau, retratam bem como foi justa a proibição deste que foi um morticínio cruel e trágico.

    São mais de 600 páginas e o que eu já aprendi sobre o mar (bombordo, estibordo, sotavento, barlavento, pés, polegadas, jardas, ré, vante, popa, proa, etc. etc.), sobre a pesca, sobre a baleia, sobre os homens.

    Considerado uma obra prima da Literatura Norte-Americana, requer no entanto alguma persistência e coragem para (nos tempos actuais) navegar em tanto mar.

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    1. É verdade! Mas é uma obra soberba... olha, experimenta agora ler "No coração do mar" que é o relato do náufrago em que se inspirou Melville! O livro é muitíssimo bom também!!!

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    2. Bolas, o anónimo das duas vezes sou eu, A.L.Pacheco!!!!!

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    3. Ó Pacheco tás armado em Anónimo...

      Ainda não li "No coração do mar", mas tomei boa nota, obrigado.

      Já leste o "BARTLEBY" do H. Melville? - é uma obra soberba!

      E até o pequeno livrinho de cento e poucas páginas, "BILLY BUDD", do mesmo autor, é muito bom.

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    4. António Luiz Pacheco2 de abril de 2018 às 09:30

      Ahahahah! Li há pouco tempo, não sei até se falei aqui nisso ... a trilogia Benito Cereno Bartleby Billy Bud ! 3 Personagens, 3 histórias bem à Melville. Com o toque humano dos que não se encaixam no tradicional, protomarginais... avatares do Escritor?
      Abraço!

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    5. Não li o livro mas vi o filme e gostei bastante.

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  8. António Luiz Pacheco2 de abril de 2018 às 09:26

    Andei a ler Também os brancos sabem dançar, o que de resto é verdade... de Kalaf Epalanga, que devia saber isso e que também sabem até cantar!

    Aventuras e desventuras, como se diz num livro para pretos de todas as cores e tipos e géneros, do músico que viaja entre a Europa e África . Fala-se de música de escrita, mas sobretudo revela-se uma pessoa.
    É um livro que dispõe bem e se lê ao correr das páginas...

    Saudações cá da Cidade Morena.

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  9. Ah!, se fosse escrito por um autor português não diria o mesmo. O teatro, o teatro...

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  10. "As oito montanhas" Paolo Cognetti
    "24 horas da vida de uma mulher" Stefan Zweig
    "O Suave e o Negro" Manuel Monteiro

    Suzana Silva

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