O autor e as suas personagens
Disse um dia a inteligente e criativa Rosa Montero, falando do seu próprio caso, que, sempre que estava a escrever um romance, ficava um tanto ou quanto obcecada e raramente conseguia desviar dele a atenção. Mesmo quando não estava à secretária a escrever, estava quase sempre a pensar no livro e nas personagens, a rever mentalmente o que já escrevera ou a conceber frases e cenas para passar em breve ao papel. Contou mesmo que lavava os dentes com as suas personagens no espelho da casa de banho, se levantava da cama com elas e, ao fim da noite, ainda se deitava com uma ou duas. Pois bem, já não me lembro quem disse isto (alguém o contou num encontro de escritores e a minha memória guardou a frase, mas não o seu autor – ele/ela que me perdoe): que, no que toca à escrita de romances, os autores andam primeiro atrás das personagens; passado um tempo, caminham com elas, a seu lado; por fim, estão dentro delas. Atrás delas, com elas, nelas. Gostei da ideia.
A Rosa Montero, pode e deve ter falado desta "obsessão" (a alma dos livros...) em vários lugares. E escreveu-o em "A Louca da Casa", que li recentemente (e aconselho a leitura...)
ResponderEliminarNão falei do essencial, como acontece tantas vezes... Só escrevi um romance, há mais de 26 anos, e aconteceu-me o mesmo. O livro e as personagens tomaram conta de mim e da história, durante um Verão inteiro - quando o livro ganhou alma -, e foi assim até chegar ao fim.
EliminarNão voltei a escrever um romance (embora tentasse uma meia dúzia de vezes...), mas se o conseguir de novo, quero voltar a ser "conquistado" pelas personagens e pela história...
Só é verdadeiro o que se sente. Profundamente.
ResponderEliminarBom dia.
Se estivermos apaixonados, podemos construir obras fabulosas. A paixão, mesmo quando direccionada a uma pessoa, inspira-nos sempre a feitos grandiosos.
Eliminar(acredito que a desilusão é mais inspiradora que a paixão, Sandra) :)
EliminarDeve ser uma experiência fabulosa escrever um romance, como se depreende do testemunho do Luís Eme e do post referente à Rosa Montero. Pergunto-me qual terá sido a experiência da Maria do Rosário Pedreira ao escrever o seu romance? Pareceu-me um "roman à clef" e, se o for, a experiência será diferente neste tipo de escrita ficcional do que na de um romance com personagens mais distantes do autor? Com coragem, acho que todos devíamos passar pela tentativa de escrever um romance, mesmo sabendo que é para falhar. Como diz o Vila-Matas: escrevo romances para descobrir a parte oculta de mim que só surge quando escrevo ficção. Eu ainda não tive essa coragem, mas espero, como todos os que adoram literatura, vir um dia libertar a parte oculta de mim que se revelará quando ousar escrever ficção. Uma quimera, muito provavelmente... E das frequentes em que lê ficção todos os dias.
ResponderEliminarCaríssimo Artur, partilho consigo o facto de só me ter atrevido a uma aventura dessas em 2010, portanto aos 54 anos... andei anos a fio a magicar e a reunir "material", tardou mas afinal foi o que tinha que ser, por mim, era algo com que sonhava desde criança.
EliminarCostumo dizer que o bom em ser criança é ter sonhos e o que vale a pena em ser adulto é realizá-los, portanto ...
Note que não me considero escritor, nem pouco mais ou menos, apesar de andar a escrever o meu segundo, coisa que leva o seu tempo pois como não sou escritor não tenho prazos nem obrigações, quando estiver pronto, está!
Um grande abraço cá do Bairro Ribatejano.
Parabéns, os meus mais sinceros parabéns, caro António Luiz Pacheco, pela sua coragem em avançar na concretização dos seus sonhos. Oxalá um dia eu ganhe a mesma força.
EliminarPela minha experiência pessoal, aliás quase nula, os personagens são pessoas que conheço ou alguma vez ou de algum modo se cruzaram comigo, até nem os conheci, só da tradição ou história. Não os invento, apenas reproduzo e adapto, mas andam sempre comigo e sou levado a concordar com o que se diz!
ResponderEliminarSerá falta de imaginação da minha parte ou será uma forma de imaginar? Ir buscar pessoas que existem ou existiram e colocá-las na acção que imagino, da forma que acho que se adaptam?
É uma reflexão interessante, talvez vã porque inútil e se calhar interessa a ninguém, mas é uma reflexão.
Saudações úteis de um dia chuvoso cá do Bairro Ribatejano.
Os escritores são, nesse sentido, seres de companhia, enchem-se de gente enquanto escrevem. Deve ser por isso que Lobo Antunes, em período de sem ideias (diz ele que é frente à folha de papel em branco mas a gente nunca sabe), se diz vazio.
ResponderEliminarApropriado se lhe personificar a voz do silêncio em lhe dar volume. Simplesmente sou o que sou e todos nós, filosofia.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi