Portabilidade

Dizem-se manuais as coisas feitas à mão, mas, aqui para nós, os actuais manuais escolares são tudo menos manuais. Temos a mania de achar que no nosso tempo é que as coisas eram boas, mas os manuais de hoje (e o material escolar em geral) são muito sofisticados e infinitamente mais atraentes do que os do meu tempo, de cadernos com capa monocromática, normalmente preta ou a atirar para o rosa-velho, e borrachas malcheirosas. Estes manuais de agora têm capas muito manuseáveis, formato grande e mais arejado, ilustrações, cores garridas, esquemas, gráficos, enfim, é uma festa. E, mais do que isso, fazem a papinha toda aos alunos, o que, por acaso, não sei se é assim tão bom, porque talvez fosse mais salutar fazê-los ir em busca de textos complementares sobre as matérias estudadas, uma vez que, ao contrário de mim, até têm acesso a uma coisa miraculosa chamada Internet. Mas, no meu tempo (deixem-me puxar a brasa à minha sardinha), os manuais, embora tristonhos, cabiam todos numa simples pasta (mochila era coisa que ainda não se usava nessa altura senão para ir acampar) e não me lembro de trazer as costas curvadas ou precisar de mala com rodízios para transportar os livros até à escola. Um dia destes, estive a consultar alguns manuais de Português de 12º ano e já não podia com aquele peso todo nas pernas! O que faria se tivesse de andar com ele às costas… Não poderia existir um meio-termo, senhores?

Comentários

  1. Um perfeita estupidez de que se fala há anos e que ninguém resolve (ainda ontem ao fim do dia fui esperar a minha filha, porque é o dia em que leva e trás a mochila mais carregada ...

    E num tempo em que os miúdos passam mais tempo sentados e deitados que a correr a saltar, como na nossa infância, sem computadores, telemóveis e afins.

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  2. António Luiz Pacheco18 de abril de 2018 às 03:07

    Não sei se é só o peso da mochila... que é excessivo, talvez porque a carga horária também o é! "No meu tempo" tinha aulas ou só da parte da tarde, ou só da parte da tarde (só com rapazes! Só tive aulas mistas no 6º e 7º ano) , e tinha se bem me recordo umas 4 disciplinas excepto num dia da semana em que havia 5, incluindo educação física.
    Aprendi menos do que se aprende hoje? Decididamente não!
    E, ficava-me tempo para fazer os trabalhos de casa, estudar (sim porque não é nas aulas que se estuda e preparam os "pontos", e outras actividades próprias da juventude.
    Ou seja, tinha uma vida, que não se resumia à escola, o que é redutor, e tira à juventude aquilo que ela devia ter, viver! Sem ser dentro da escola, todo o dia, o que a farta, maça, cansa e exaure! No entanto isso faz parte de um plano em que a família é desmontada e desde muito novos são habituados a não ter essa vida, nem a estar em família, para que um dia mais tarde possam ser os perfeitos carneiros que as filosofias políticas modernas conseguem assim alcançar, finalmente, fazendo do cidadão alguém que é um número e uma peça na engrenagem que sustenta a máquina pública.
    E no entanto fala-se e defende-se aquilo que se pensa ser a liberdade, o livre arbítrio, a consciência social, etc.
    "No meu tempo" a sociedade não era perfeita, mas hoje também não o é, e as crianças eram mais felizes (disso tenho a certeza) como são muito mais felizes em Angola apesar de mal-alimentadas, mal-vestidas e sem saúde, no entanto vivem felizes, brincam e correm, gritam e riem, que eu bem as vejo e comparo com as nossas!
    Mas não se pode ter tudo... será?

    Saudações cá do Bairro Ribatejano.

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    1. Tive sempre escola de manhã e de tarde (das 9 às 17). Durante os períodos escolares pouco tempo havia para fazer outras coisas, o que para mim era óptimo, a escola era um bom lugar e sentia-me uma privilegiada por poder frequentá-la. E à volta da escola cada um vivia suas coisas específicas. Que isto, como diz o outro, "está tudo ligado". Tenho cada vez mais dúvidas acerca de livros muito bonitos e cheios de ilustrações, caros, pesados, grandes. E muitos. Um dia ainda se prescinde do livro em papel.

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  3. Já eduquei dois. Agora são mais dois. Levam livros para a escola, porque a isso são "obrigados". Para eles o seu deus ex machina cabe na superfície daquelas coisas pequenas dispensando papel. As pontas soltas, das histórias contadas nesses manuais em vez de mostradas, são desamarradas por esses máquinas libertando o subconsciente do que ouvem, substituindo pelo que vêem. Substituindo o peso arrastado dos livros — que apenas carregam e os entendiam.
    A tragédia de Eurípides fica assim vazia de soluções, dado que essas "machinas" modernas em vez de resolverem situações são elas criadoras de muitas e novas pontas soltas. A maior das quais é essa contradição, aqui já aludida, da felicidade na ausência, face à astenia entediada do afluente.

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