Os trabalhos dos escritores

Hoje, nos países que têm um mercado considerável na área do livro (não o nosso, infelizmente, que ainda é uma ervilha), o ofício de escrever já é visto como qualquer outro; em certos territórios, como os EUA, é inclusivamente muito bem pago (os autores que foram destacados na revista Granta de que aqui falei anteontem, por exemplo, devem receber adiantamentos milionários das editoras que os publicam). Nesses lugares, quase todos os autores de ficção vivem exclusivamente do que escrevem (e vivem bem); mas nem sempre foi assim e, no dia 1 de Maio, por ser Dia do Trabalhador, li num jornal espanhol um artigo muito interessante sobre os trabalhos que alguns escritores hoje conceituados tiveram de fazer para sobreviver e pagar a renda de casa quando estavam a começar. Juan Marsé, por exemplo, trabalhou desde muito jovem como ourives (e diz que isso o ajudou a ter atenção ao detalhe nas suas narrativas), enquanto Vargas Llosa foi, entre outras coisas, escritor-fantasma de novelas para uma senhora endinheirada (o que lhe terá servido certamente de inspiração para as radionovelas que aparecem em A Tia Júlia e o Escrevedor). Kafka, como se sabe, vendia seguros; Borges era bibliotecário (mas não me parece que tenha sido por precisar de dinheiro); Jack London foi caçador de baleias no Árctico; Colette trabalhou como cabeleireira e George Orwell saiu da Birmânia (onde era polícia) para ir lavar pratos em Londres. Bolaño vendeu quinquilharia e lâmpadas no México e Charles Bukowski foi carteiro durante muitos anos. Enfim, trabalhos que, pelos vistos, não prejudicaram o ofício de escritor.

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda12 de maio de 2017 às 02:07

    Para escrever é necessário viver... ainda que o escrito não tenha, necessariamente, sido vivido...
    Quanto à ideia da ervilha, ou seja da coisa pequenina e de pequena importância, muito apreciada por nós quando falamos de algumas coisas que fazemos - à defesa -; continuo a não compreender como essa suposta ervilha que é sustentada por tantas dezenas de editoras, que editam centenas de livros por dia... muitos milhares por ano, e que produz tantos milhões de lucro... que muitas vezes desaparece pelos mais insuspeitos ralos, continua a justificar-se perante os autores e leitores como... uma ervilha... Mas enfim...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tem razão, Emílio, não somos assim tão pequeninos, já podíamos ser promovidos a fava - afinal até temos um Nobel da Literatura, o único de língua portuguesa, convém não esquecer.
      E também concordo que é preciso "viver" antes de escrever uma grande obra, mas também ler muito, ter talento e uma pitadinha de sorte para conseguir publicar.
      :-) Antonieta

      Eliminar
    2. Emílio Gouveia Miranda12 de maio de 2017 às 03:24

      Concordo em absoluto, Antonieta. Com tudo o que disse. E continua a fazer-me confusão este espírito do coitadinho, quando temos uma das melhores literaturas do Mundo e uma história Enorme. E quando há imensa - ou melhor será dizer - inúmera gente a lucrar com a publicação em Portugal, defendendo sempre, à boa maneira portuguesa que trabalha para sobreviver. Quem trabalha para sobreviver são os autores... ao contrário do que acontece noutros países... a parte menos importante de todo o processo criativo... Ironias... só nossas. :)

      Eliminar
    3. Quando digo «ervilha» refiro-me apenas a tamanho; o nosso mercado é diminuto, as tiragens são sempre baixas e, se o escritor não for uma personalidade conhecida e não conseguir ser traduzido noutros países, dificilmente conseguirá sobreviver apenas com os seus livros.

      Eliminar
    4. eu tenho o sonho de ser uma escritora.

      Eliminar
  2. Saramago começou como serralheiro mecânico nas oficinas dos Hospitais Civis de Lisboa, tendo passado depois para os serviços administrativos.
    Eugénio de Andrade, que teve uma infância bem difícil, era inspector da Segurança Social.
    Quando há talento, tudo é possível.
    :-) Antonieta

    ResponderEliminar
  3. António Luiz Pacheco12 de maio de 2017 às 02:54

    Concordo inteiramente com a idéia de que para se escrever algo com substância e que valha a pena, uma Obra, há que ter vivido... e experimentado e lido muito! Diria que a maior parte dos escritores da ervilha, só leram muito... no que toca a terem vivido...

    Uma nota: Jack London foi além de marinheiro, caçador de peles, mineiro e jornalista entre várias outras coisas.

    Quanto ao panorama da ervilha, bem, nos outros países é-se profissional, tem-se o mercado em conta, o público que consome, cá, muitos artistas e bastantes escritores orgulham-se em trabalhar para eles e não para o público. Até desprezam o consumidor comum, só olham para a elite intelectual (?) de que fazem parte e os rodeia, ora como querem vender e ter sucesso ?
    É uma questão de mentalidade e de direccionar o trabalho, ser-se profissional o que não condiciona nem o génio nem a criatividade daqueles que as possuem!
    Estarei errado?

    Saudações cá da Cidade Morena, estou de saída para um fim de semana de pesca, que já mereço depois de ter trabalhado nos últimos e até no feriado 1º Maio!!!!!

    ResponderEliminar
  4. Está tudo muito certo, mas contar só a vidinha, como dizia o nosso Alexandre O'neill, não chega...é preciso muito mais, sem desprezo pelas experiências vividas de cada um. Hoje assiste-se a um fenómeno que um visionário dos anos 60 apelidou de "escrivósis", isto é, toda a gente escreve (políticos, futebolistas, pivôs de TV, prostitutas, empregadas domésticas, etc.) uma autêntica pandemia de escrevinhadores, não escritores, que inundam as livrarias da ervilha de lixo, que merecia ser incinerado ou reciclado. Pensam que estão a descobrir coisas que existem desde os Gregos. Aliás, como dizia recentemente um escritor brasileiro, a Literatura perdeu importância; hoje qualquer entretenimento tem mais tentáculos, atinge mais pessoas, influencia mais gente. Quem é que se mata hoje por causa de um Werther?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E o que eu acho extraordinário, caro Anónimo, é que esses livros que refere, alguns de capa dura e com fotos a cores no interior, são baratos e estão em todas as grandes superfícies com descontos.
      Se eu quiser um bom livro (na minha opinião, claro) resta-me ir à Bertrand e comprá-lo com o preço de capa (excepto na segunda Segunda-feira do mês).
      E ainda faço 25kms para lá ir e tenho de pagar estacionamento, pois a livraria mudou-se para o centro da cidade onde é impossível estacionar sem pagar.
      E ainda dizem que no campo é que se está bem...
      :-) Antonieta

      Eliminar
    2. Já para não falar em bons livros esgotados há inúmeros anos. Que bem mereciam reedições. Ou, só são reeditados quando há um filme baseado na obra, como aconteceu há 2 anos com a Suite Francesa de Némirovsky.
      Há quantos anos estão esgotados livros de Branquinho da Fonseca, ou de Miguéis? E quantos editados são os escritos por bloggers, donas de casa e etc? Pois é.

      Eliminar
  5. Muita leitura e muita "vida". São estes os principais (não os únicos) ingredientes para amassar o pão da escrita. Convém colocar também um pouco de fermento, senão não cresce em condições.
    É claro que as pessoas podem levar a vida inteira a contar, e bem contadas, as aventuras do pessoal que conhecem lá da sua rua, do seu bairro, do seu prédio. Mas não chega.
    Há muito mais para além disso.

    Cristina Carvalho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco15 de maio de 2017 às 04:37

      Isso mesmo... quando me referi a "viver", não quer dizer que basta estar vivo, é preciso andar por aí e ver muita coisa, experimentar, sentir... porque é assim que se reúne material para escrever, é assim que se entra na pele dos personagens ou daquilo que se vai descrever. Idem para a muita leitura, pois também assim se forma e reúne inspiração, verve, sentimento, saber...

      Saudações vívidas cá da Cidade Morena!

      Eliminar
  6. Depreendo assim, que ainda há esperança.
    Para um vendedor de magníficas bolas de Berlim e outros.
    Rumemos ao Nobel, então.
    Mas não no sentido de receber uma avultada quantia, comer " escargot flambé au cognac de prunes" com a rainha.
    Não é uma Suécia nem uma Noruega, mas antes um território mítico como Valhala ou um Shangri-la ( antes da desqualificação que sofreram os produtos orientais).
    Passo a explicar, o Nobel é uma enorme extensão de território lendário que por ser tão extenso está sub-habitado e como tal as suas oníricas paragens admitem com bonomia um sem número de seres dotados para as artes e cientificidades, mesmo que não tenham sido laureados.
    Por isso é possível encontrar lá Dante a almoçar com o Gabo, a Clarisse a dar aulas de crossfit ao Saramago enquanto o Hemingway passa despassarado a perguntar, se tem visto leões por ali ultimamente.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco15 de maio de 2017 às 07:46

      Cuidado com essa dos leões... aquilo andam em baixo e calhando vem aí algum anónimo adepto de Alvalade desancá-lo!
      Mas tirando o detalhe leonino, concordo consigo e direi mesmo que um vendedor de bolas de Berlim, atento e com imaginação, colhe material para um livro interessante... leu "Uma conspiração de estúpidos" ? O personagem principal vendia cachorros num carrinho! E conseguia seguir e desvendar as torpes conspirações conspirativas que se conspiravam...
      Abraço cá de Benguela!

      Eliminar
    2. Caro Pacheco
      Não li mas vou ler!
      Falei nos leões porque por muito que imagine, não estou a ver o Hemingway a dedicar-se à mirmecologia. Mas quem sabe?
      Longe de mim, com este comentário alcançar qualquer território clubístico ou desprestigiar alguma raça de animal.

      Saudações National Geographic:).

      Eliminar
    3. Também não estou a imaginar o Hemingway a dedicar-se às formigas...
      Mas imagino-o a dedicar-se aos gatos - ele tinha muitos e a descendência ainda por lá anda no jardim da casa em Cuba.
      Parece que até há lá um cemitério de gatos.
      :-) Antonieta

      Eliminar
  7. Cláudia da Silva Tomazi13 de maio de 2017 às 11:44

    Nos Estados Unidos da América funcional worklover.

    ResponderEliminar
  8. Well..., nem todos os escritores norte-americanos recebem adiantamentos milionários e nem todos vivem da escrita (ou vivem bem, for that matter).
    Muito interessante no Jack London o facto de ter sido jornalista de investigação e ter misturado a escrita jornalística com a literária, como, por exemplo, em "The People of the Abyss".

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco15 de maio de 2017 às 07:57

      Errarei se disser que é dos livros menos conhecido de J. London (que foi uma activista do socialismo)? Mas lá está, ele escreveu-o depois de viver diversos meses em East London! VIVEU aquilo que escreveu...

      Eliminar

Enviar um comentário