Limpar o coração
Javier Marías é considerado um dos grandes escritores actuais da vizinha Espanha. Não é um homem especialmente simpático – há muitos anos, em Lisboa, no Botequim de Natália Correia para o lançamento do seu livro Todas as Almas, disse ao público presente que o seu romance era certamente muito menos chato do que o apresentador (que falara mais de quarenta minutos) fizera crer... Mas um bom romancista não tem obrigatoriamente de ser uma pessoa agradável, claro. Marías tem, de resto, muitos bons livros – e um dos mais emblemáticos e premiados é Coração tão Branco, que tem um arranque notável com uma rapariga regressada da lua-de-mel a acabar com a vida na casa de banho da mesma casa onde decorre um almoço festivo. O narrador é justamente sobrinho dessa noiva infeliz, filho da sua irmã mais nova que, saberemos adiante, se casou com o jovem viúvo, seu cunhado. E é um narrador seguríssimo na sua actividade profissional (intérprete e tradutor que estica muitas vezes a corda em encontros de políticos), mas menos seguro relativamente ao próprio casamento, aos segredos que é preciso manter e partilhar e até ao seu pai, que nunca explicou muito bem porque, antes de se casar com a sua mãe, teve duas mulheres que morreram prematuramente e alguns negócios em torno da arte um tanto escusos. E, já se sabe, um coração que não está limpo pode ser um grande problema... Altamente recomendável.
A literatura vinda de Espanha a invadir literalmente as nossas livrarias. Que bom que o contrário também acontecesse...
ResponderEliminarAprecio alguns autores espanhóis e só não entendo como os nossos vizinhos, que visitam Portugal com frequência, comem e e bebem satisfeitos e agradados e nem se lembram de nos ler, alimentar a alma de emoção e razão portuguesa. Será porque não somos traduzidos ou porque as traduções que se fizeram não renderam? Há povos que só se lêem a si mesmos, mas o homem é tão igual em todo o lado que talvez tenham razão. E, no entanto, para conhecer um povo, há que saber como e o que escreve.
ResponderEliminarPossivelmente há níveis de romancistas e, qualquer romance bem escrito antecede (este) bem querer.
ResponderEliminarOra aí está!!!!!
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