Teoria e prática

Muito se tem falado nos últimos tempos de educação pública e privada, de crianças que andam em colégios particulares pagos pelo Estado quando existem escolas públicas na zona (algumas quase sem alunos), de quebras de contratos, promessas incumpridas, manifestações. etc., etc., etc. Não conheço a questão em pormenor – mas em teoria parece-me obviamente justo que o Estado invista sobretudo no ensino público e que quem quer os seus filhos em colégios privados pague para isso. Haverá nuances, bem sei, e portanto não vou além deste comentário mais teórico. Já quanto à oferta dos livros escolares pelo Estado aos alunos, se em teoria me parece igualmente certa, pois a verdade é que tenho uma amiga professora num país onde os manuais são entregues pelo Estado às escolas (e lá ficam até se estragarem) que me diz que os efeitos práticos às vezes acabam por marcar bastante mais as diferenças entre ricos e pobres: os pais com dinheiro querem que os seus filhos possam estudar em casa e acabam por comprar-lhes manuais novinhos em folha, só para eles, enquanto os alunos de meios mais desfavorecidos estudam apenas na escola e por livros usados. Esta política da oferta, que em teoria é claramente positiva para os pais e encarregados de educação, torna-se também na prática uma medida terrível para as pequenas livrarias portuguesas que têm na venda dos livros escolares a sua principal fonte de receita. Se muitas fecharem, desaparecerá em muitas zonas, aliás, o único ponto de contacto das populações com os livros, facilitando-se o aumento da iliteracia de forma indirecta quando, afinal, o objectivo era fazer com que mais estudassem sem terem de pagar. Estranho, não? Isto da teoria e da prática tem muito que se lhe diga…

Comentários

  1. Num tempo de monopólios no mundo dos livros (nem antes de 1974 havia algo assim, com apenas dois grandes grupos a tomarem conta de todo o mercado), parece-me quase ficção ter pena de pequenas livrarias que vendem livros escolares.

    Quantas são? Onde moram?

    E quantas das outras fecharam nos últimos quatro anos, por todo o país?

    Claro que era melhor para o negócio quando se editavam livros escolares todos os anos...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Viva, Luís. Desconheço o panorama no resto do país, mas aqui, onde moro e trabalho (Murça e Valpaços), a esmagadora maioria dos manuais escolares é vendida pelas pequenas livrarias. E, sim, juntamente com as bibliotecas municipais, para grande parte da população, são o único ponto de contacto com os livros. Também é verdade que o número de pessoas que lhes liga alguma coisa é dramaticamente curto, mas isso já é outra conversa. Um abraço.

      Eliminar
    2. Olá João.

      Quase que me apetece dizer que ainda vives no "paraíso". Mas é apenas um outro lado do país.

      Eu ao ler esta "posta" só me lembrei de todas as livrarias que conhecia que tiveram de fechar (vendas e margens de lucro cada vez menores, impostos cada vez maiores...).

      Em relação a iliteracia, tens razão, não vale a pena falarmos, é o país que temos e somos o que somos...

      O que não disse foi que não concordo muito com a política da oferta de livros (escolares e de todos os outros). Sinto que é algo que faz mal aos livros, desvaloriza-os bastante enquanto objecto cultural (para quem não os ama, claro... ou seja, a maioria da população).

      Eliminar
  2. Emílio Gouveia Miranda4 de julho de 2016 às 02:59

    Este assunto da iliteracia é muito interessante. Até eu, que leio e leio e leio, e que todos os dias manuseio as palavras como ferramentas de utilidade e de sonho, me deparo, às vezes, com esta dúvida: sofro - também eu - de alguma iliteracia? Passo a explicar. Um dia destes, fazendo uso de um cupão de descontos de uma conhecida cadeia de Hipermercados, deparei-me com a incapacidade de perceber - afinal - a que descontos e em que situações tinha direito. A pessoa que me atendia deparou-se com a mesma dúvida. Acabei por perceber: a iliteracia - em Portugal - pelo menos alguma, resulta de uma intencional ambiguidade praticada por «entidades» ditas responsáveis, com vista a «manipularem» de alguma forma as zonas cinzentas do entendimento. É estranho como num país onde tanta gente se preocupa com este «problema» (da iliteracia) se serve dela para «aquilo» que interessa. Tenho pena. Tenho de ler mais... Mas não é livros; é mentes, é caracteres...

    ResponderEliminar
  3. É o vale tudo! Como poderei eu acreditar nos homens se hoje ouvi que até o Domingos Abrantes lucra na bolsa (estou incrédulo-terei ouvido mal?)

    ResponderEliminar
  4. António Luiz Pacheco4 de julho de 2016 às 03:35

    Uma interessante reflexão nos propõe a Nossa Extraordinária Anfitriã!
    Parte I:
    Escola pública ou privada?
    Não consigo ter opinião formada... por falta de informação bastante e porque o problema é complexo!

    - Não percebo porque fecham escolas públicas, quando a escola pública devia ser a grande arma da educação!
    - Não percebo porque reduzem pessoal docente e não docente!
    - Não percebo porque há turmas com 35 alunos!
    - Não percebo porque continuam as áreas pedagógicas a formar anualmente alunos para o desemprego.
    - Não percebo porque ficam anualmente tantos professores por colocar, sendo pagos pelo desemprego...

    Ora, mantendo escolas abertas (ainda que com poucos alunos, mas por conseguinte poucos funcionários e menos custos), podem criar-se mais colocações, haver turmas menores, e, de um modo geral pela diversificação e escala, baixar custos e obter melhores resultados no ensino...

    Um país não evoluiu nem progride se não tiver como base um bom ensino!
    Porém, somos governados pelos financeiros... e os financeiros não geram nem gerem riqueza, só a sabem amealhar!
    Ora a perspectiva é sempre financista e enquanto assim for, não vai haver apostas na cultura e na educação... tratarão a educação como um mero negócio e despesa, o que é um erro que se pagará muito caro, aliás já se está a pagar!
    Por outro lado além dos financeiros, somos governados por outra praga, os advogados, quem confunde as coisas para que ninguém as entenda, no seu próprio interesse.

    Quanto a haver escolas públicas e privadas, penso que devem existir as duas, em competição, e, pelo interesse de todos!

    Saudações Educacionais cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
  5. António Luiz Pacheco4 de julho de 2016 às 03:52

    Uma interessante reflexão nos propõe a Nossa Extraordinária Anfitriã!
    Parte II:

    Manuais e livros escolares.

    É um pau de dois bicos, como soe dizer-se popularmente...

    Pela minha parte, penso que os manuais escolares devem manter-se por vários anos e não serem reeditados anualmente, num total e completo desperdício... eu estudei com os livros da minha irmã mais velha, de primos, e depois eram passados aos seguintes... até os forrávamos em casa com umas capas de papel, para os manter em boas condições!
    ( Não se pode dizer que a família fosse própriamente pobre, mas havia um conceito de educação que era o da austeridade e de aproveitamento! Não se procurava exibir nada, como hoje, aliás o exibicionismo era considerado falta de educação - dizia-se "falta de chá". Acho que esta questão é absurda e até ridícula, descriminação pelo livro de estudo?).

    Também defendo que os livros escolares sejam nos casos próprios e justificados, de distribuição gratuita, que sejam deduzidos nos impostos, inclusive isentos de IVA, etc. Para que fiquem baratos... o estado que opte, ou dá grátis ou abdica das taxas e impostos e assim poupa também e torna acessível o que é uma coisa obrigatória e fundamental para um plano estratégico nacional educativo.

    Talvez haja livrarias que dependem da venda de manuais, para não falar das casas editoras... mas pergunto se é legítimo que se imponha o interesse corporativo de umas centenas ao interesse dos milhares de famílias? Haverá certamente meios de equilibrar as coisas com bom-senso, coisa que muito falta tanto no nosso meio empresarial quanto no governativo!
    Essas livrarias/papelarias sempre as houve... e em tempos de haver menos estudantes, escolas, etc. Como é que faziam? Não sei... mas procure-se saber e talvez se encontrem as soluções.

    Saudações Educativas II cá da Cidade Morena.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. - Caro Pacheco,
      Muitíssimo bem explanado. Subscrevo totalmente a parte I e II.
      Quanto à celeuma escola pública ou privada, sou totalmente a favor da pública, a privada só deve ser subsidiada onde não existe oferta pública.
      Quanto aos manuais, defendo também a reciclagem de ano para ano.
      Algumas escolas já o fazem, eu também o fiz e não vejo mal nenhum nisso. Só vantagens, para além das óbvias económicas e ecológicas.
      Quanto à dicotomia ricos/pobres, aplicada ao ensino e outras áreas que tais, penso que não se aplica a este país, onde é vergonha nacional ser pobre, e portanto não existem tais!
      Só pobres de espírito.
      Sabe o bom-senso não enche barriga!
      Sobretudo dalguns de apetites vorazes, por isso vai escasseando cada vez mais.
      As melhores saudações
      Puck

      Eliminar
  6. Nos meios mais desfavorecidos ninguém lê os livros escolares a não ser os alunos - e nem eles por vezes. Em Portugal, os alunos a quem são dados os manuais escolares levam-nos para casa e têm-nos como seus durante um ano escolar. Embora entenda o problema de livrarias e de livreiros e de editoras, dou mais atenção ao facto de haver demasiadas árvores que morrem por livros que não eram necessários. Há demasiados manuais para a mesma disciplina e a velocidade com que nascem outros só prejudica.

    Se o contacto das populações com as livrarias se fizer apenas via livros escolares, continuaremos a ter défice de leitores.

    ResponderEliminar
  7. Emílio Gouveia Miranda5 de julho de 2016 às 01:32

    Tem, de facto, muito que se lhe diga, isto da teoria e da prática, e das distâncias que, às vezes, parecem nascer entre uma e outra. Tal como a dualidade com que sempre - a generalidade de nós - analisa um mesmo tema ou assunto: conforme tenha ou não interesse directo «na coisa» ou seja directamente atingido por ela... Enfim, estados de alma, dirão alguns; outros, falta de coerência. Com que concordo, mais. Aliás, na minha humilde opinião, o mais grave dos nossos defeitos.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório