O escritor-fazendeiro

Recentemente foi atribuído pela vigésima oitava vez o Prémio Camões, o mais prestigiado da língua portuguesa, e coube, pela décima segunda, a um escritor brasileiro. Chama-se Raduan Nassar e o júri sublinhou «a extraordinária qualidade da sua linguagem» e a «força poética da sua prosa» como argumentos para lhe conceder o galardão, comparando o seu génio literário a autores como Guimarães Rosa ou Clarice Lispector. Concordo com tudo isto, na medida em que li dois dos seus livros, Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, aconselhada curiosamente por uma leitora mais nova do que eu, que estava maravilhada com este escritor descendente de libaneses (o nome diz tudo) e mo aconselhou aqui há uns anos (em Portugal só foi publicado depois dos anos 1990). Poderão pensar que dois livros não são suficientes para poder entender a escolha do júri, mas a verdade é que Raduan Nassar escreveu apenas três livros (sim, três) em toda a sua vida, os dois que mencionei na década de 1970, novelas, e mais um livro de contos, Menina a Caminho, em 1994. Nos anos 1980 retirou-se para uma fazenda e decidiu ser agricultor, não voltando praticamente à cidade nem ligando muito à escrita, tanto quanto se sabe. Para com três livrinhos apenas ter arrecadado o Prémio Camões, enfim, já podem ver o talento do mestre…

Comentários

  1. Cláudia da Silva Tomazi5 de julho de 2016 às 02:54

    Bom dia! O atual ganhador o Prémio Camões (também) mecenas doou grande parte sua fazenda à um campus universitário. Rosário nem só de letras se vive, mas entre outras actividades. Aliás, justiça seja feita porque falam poucas e boas a obra em curta, porém o deixa-a gira.

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  2. Quem ficou a perder foram os leitores, que pouco puderam desfrutar de todo esse talento. Mas quando os Mestres decidem, está decidido!

    Um abraço.

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  3. Acho que já escrevi aqui que não percebo nada de prémios literários, nem de física quântica.
    Mas se compararam Raduam Nassar a Guimarães Rosa, então vou já espreitar!
    Gostava de ter um vocábulo que exprimisse todo o meu espanto, maravilhamento pelas palavras deste autor, pelos mundos que só ele vê e no entanto estão aí, do nosso lado.
    Basta um certo olhar...
    Mas à falta de melhor, fica-me o consolo de que não há só um autor no mundo, nem só uma música ou uma cor. E como tal, aquela palavra absoluta é desnecessária.
    Saudações

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    1. António Luiz Pacheco5 de julho de 2016 às 05:23

      "Mas à falta de melhor, fica-me o consolo de que não há só um autor no mundo, nem só uma música ou uma cor. E como tal, aquela palavra absoluta é desnecessária."



      Somos pelo menos dois a consolarem-se assim, o que é Extraordinário caríssimo Bom Companheiro (Goodfellow... you know!).

      Saudações cá da estival Cidade Morena.

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  4. António Luiz Pacheco5 de julho de 2016 às 05:26

    Já não é a primeira vez que aqui se fala nesse fazendeiro-escritor, e bem!
    Tenho a maior curiosidade em o ler... a lista dos autores que vou aqui descobrindo é tal, que temo já não viver o bastante!
    Porém cito o outro: e quem quer uma biblioteca de que já tenha lido todos os livros?
    Cito-me também: do que vale a vida sem coisas ainda por fazer... e livros por ler, obviamente!

    Saudações camonianas cá da Cidade Morena.

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  5. Estes dois livros já li e, confirmo, são intensos. E só os posso ter conhecido aqui, minha janela para a Literatura.

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  6. Pelo que a Rosário escreveu sobre o escritor, mas, sobretudo sobre o homem, fiquei a gostar dele e com vontade de lê-lo. Os três livros vão vender bem e estar por aí...e ler quem escreve bem e poeticamente é um tão saboroso prazer que vale a pena procurá-lo. Na próxima ida à biblioteca já vou investigar.

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  7. Não sei se é falsa modéstia ou não o facto é que o próprio Raduan Nassar declarou ao jornalista da "Folha de S. Paulo" quando interpelado sobre o prémio: "Eu não entendi esse prémio, minha obra é um livro e meio!" Quando o próprio laureado afirma que não tem obra que mereça ser premiada, os jurados não devem ter ficado lá muito confortáveis com a escolha, porque é suposto o Camões distinguir uma obra e não dois ou ter livros ainda que mereçam ser editados e lidos.

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  8. Também li Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, ambos avassaladores.
    Gostei muito que lhe tivessem atribuído o prémio.
    Lavoura Arcaica, sobretudo esse, marcou-me profundamente, talvez pelas minhas próprias raízes.
    Uma prosa inacreditável.


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  9. A Lavoura Arcaica, que tive o prazer de ler, é sem dúvida um livro muito intenso e cheio de poesia; uma pessoa não sai incólume depois de um livro assim! :)

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