O que deixa saudades
O jornal digital Observador publicou recentemente um artigo sobre as velhinhas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, afirmando que nunca nada em Portugal conseguiu fazer tantos leitores como elas e perguntando-se simplesmente porque não voltam. Pois bem, a verdade é que conheci enquanto estudante e enquanto editora – portanto, em dois tempos muito distantes entre si – muita gente que começou a ler por causa destas carrinhas ambulantes cheias de livros que passavam nas terras mais insignificantes e punham a miudagem toda a ler. (Em 1959, já havia mais de 80 000 leitores espalhados pelo País à espera das bibliotecas em 118 concelhos! E, para quem não saiba, os poetas Alexandre O’Neill e Herberto Helder colaboraram com o projecto, orientando leitores e tirando-lhes dúvidas). O serviço foi, porém, extinto ao fim de 44 anos, em 2002, por falta de público, uma vez que o Estado criou uma rede de leitura pública e construiu bibliotecas fixas por todo o País que, tanto quanto sei, são bastante frequentadas por muita gente, dos miúdos aos mais velhos que ali vão ler muitas vezes os jornais. Mas não é a mesma coisa, claro: a carrinha dos livros tinha o mesmo apelo da carrinha dos gelados. Leio que a Fundação Calouste Gulbenkian não pondera o seu regresso, mesmo noutros moldes. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Termina com uma grande verdade!
ResponderEliminarSaudade, é uma coisa. Saudade das carrinhas de que me lembro tão bem quanto das dos gelados, dos "pitrolinos" ou as do SAPP (serviço de abastecimento de peixe ao país). Havia diversos serviços de comércio itinerante, que levavam também mercearias, tecidos, pão... as famosas carrinhas, e eu me lembro ainda desta distribuição ser feita em bicicletas ou carroças e até de serviços feitos com a mala do ofício às costas ou pendurada num pau como o barbeiro, o funileiro que remendava tachos e panelas e punha "gatos" nos alguidares e travessas de barro.
E se fosse por aí além, ia dar às máquinas da debulha, aos ranchos dos "caramelos" e "ratinhos", às companhas de limpeza de árvores e vinhas... um nunca mais acabar!
Pois é. Mas mudou o tempo e com ele mudaram as pessoas, as formas de pensar e até as necessidades...
Hoje não tenho a certeza se uma biblioteca itinerante teria algum sucesso, e creio que ninguém tem.
Acredito que se fosse feito um inquérito, uma pequena classe de saudosistas ia dizer que sim, mas depois iria usá-la? Duvido...
A maior parte dos inquiridos iria dizer que era uma excelente idéia, mas também duvido que fosse recorrer a elas.
Nos locais onde teóricamente fariam mais falta, as aldeias remotas, também não creio que quem por ali se mantém as fosse igualmente utilizar, e como reforço do que penso faço notar que os senhores da cultura progressista que nos governam fecharam até escolas com menos de x alunos - coisa que nem o retrógado Salazar nunca pensou em fazer, a despeito de pensar como um merceeiro!
Na verdade creio que as carrinhas-biblioteca serão hoje tão obsoletas como as máquinas a vapor.
Saudações saudosistas cá da Cidade Morena.
Ó Pacheco mas hoje tudo funciona a dinheiro e aquelas carrinhas funcionavam a gasóil...
EliminarPergunto: e o que é hoje em dia a cultura?
Na semana passada vi num telejonal em rodapé: no conselho da Guarda...
E que me dizes a um concurso em horário nobre, na estação de televisão com mais responsabilidades, em que às vezes se fala português...mas que big picture...
Permanecem os livros... E ainda bem. Com eles são possíveis todo o tipo de bibliotecas... Sem eles nada - julgo - seria possível...
ResponderEliminarA Vida com V grande começou Verdadeiramente com os livros - sob todas as formas conhecidas - e - julgo - que se extinguiria, enquanto tal, sem eles. Por isso, vivam os livros, mesmo que tenham deixado de existir as Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian - de tão meritórios resultados... As suas sementes perdurarão...
Em Famalicão, a terra onde nasci, ainda antes de existir a Biblioteca Municipal, fui um frequentador assíduo desde os meus tenros 12 anos da Biblioteca Calouste Gulbenkian. Já da Biblioteca itinerante não tenho qualquer referência.
ResponderEliminarTambém fui um entusiástico utilizador e tenho saudades da sua fruição. Mas creio que hoje não teriam interessados nas sedes de concelho, já providas de bibliotecas. Já nas aldeias é muito possível que repetissem o sucesso de antigamente. É o que se entende em Proença-a-Nova cuja Câmara pôs uma "frota" de bibliomóveis a visitar periodicamente as aldeias do concelho.
ResponderEliminarClaro que não será a mesma coisa mas se for mesmo leitor, se gostar mesmo de livros, o efeito será o mesmo, embora admita que o efeito nostálgico venha aqui ao de cima, (ainda me lembro das carrinhas, na minha aldeia alentejana, e como eu gostava delas) mas isso é outra coisa. Eu, que sou um frequentador de bibliotecas por este país fora, não me parece, contudo, que haja assim tanta gente nas bibliotecas, pelo menos a requisitar livros para leitura domiciliária...
ResponderEliminarSerá que alguém me saberá dizer o que aconteceu àquelas carrinhas da Câmara Municipal de Lisboa (iguais às da Gulbenkian) que estacionavam, em diferentes dias, em vários bairros de Lisboa, onde também se podiam requisitar livros para leitura domiciliária e que, pelo menos à quinta-feira, estacionava ali no Principe Real, mas nunca mais lá as vi; será que também este serviço acabou?
ResponderEliminarEu fui um frequentador assíduo da biblioteca itinerante da FCG salvo erro dos finais dos anos 50 até princípio dos 60 (A vila situa-se na Beira Transmontana). A certa altura a Câmara disponibilizou um pequeno apartamento e passou a fixa CG. Hoje a biblioteca municipal funciona na Casa da Cultura edifício que a Câmara comprou e adaptou das antigas escolas primárias que eu frequentei. Quando fui estudar para Castelo Branco frequentei a Biblioteca Municipal. Na faculdade frequentava a Biblioteca Nacional. Hoje felizmente não preciso de bibliotecas porque tenho a minha espalhada por 3 sítios: Lisboa, Beira Trasmontana e Ribatejo. Estou imensamente grato à FCG porque fez de mim um amante dos livros e um leitor compulsivo, dado que na casa dos meus pais não existiam livros que se vissem; por lá apenas descortinei o "Amor de Perdição", "O Monte dos Vendavais", "Scenas da Minha Aldeia", "Fui Criada de Hitler" e o almanaque do Diário de Notícias de 1954.
ResponderEliminarOlá,
ResponderEliminarEu fui uma das leitoras que esperava ansiosamente a chegada da biblioteca itinerante à minha aldeia. Acho maravilhoso que, quando as pessoas não podem ir ter com os livros, sejam os livros a ir ter com as pessoas.
Mas não sei hoje (e digo-o com enorme pena) uma biblioteca itinerante funcionasse.
Digo-o porque, lá na aldeia, há uma carrinha biblioteca de duas em duas semanas... mas os clientes escasseiam. Ou porque têm livros em casa ou porque já só lêem ebooks (o tamanho das letras nos livros e revistas impede alguns, por exemplo a minha mãe, de os ler) ou porque não gostam de ler, a verdade é que é uma tristeza ver a carrinha, de porta aberta, durante algumas horas sem que uma única pessoa lá entre.
Boas leituras