O poder das histórias

Na última página do livro, o editor escreve com que tipo de letra foi composto e onde foi impresso o “romance” que acabámos de ler. Ora, embora se leia como um romance e fale sobretudo do “poder redentor das histórias”, Esta Distante Proximidade, de Rebecca Solnit –, uma das ensaístas mais aclamadas dos EUA na actualidade – não é um romance, e quase apostaria que no país de origem figura nas listas de livros de não-ficção. Na verdade, parte do livro é realidade, autobiografia, e a outra parte reflexão e sugestão de teoria. Mas tudo está ligado efectivamente pelas histórias – mitos, lendas, fábulas, contos de fadas, histórias da História e também coincidências e episódios da vida da autora. Tudo escrito como numa série de espelhos, nos quais vemos antes de tudo Rebecca Solnit, mas vemos também muitas outras pessoas e nos vemos até a nós de vez em quando. Estamos, no fundo, ligados pelas histórias, próximas e distantes – e estas que se nos apresentam aqui falam de Alzheimer e cancro, mas também da Islândia e dos ursos polares, de viagens contemporâneas e antigas, de obras de arte imorredoiras e instalações vanguardistas, de palavras e da sua etimologia; e de damascos – sim, de damascos –, pois é com pilhas deles que tudo começa e acaba nestas páginas profundas, bonitas, cheias de ideias muito atraentes e de parágrafos notáveis. (O meu preferido está na p. 127 e é sobre empatia.) Vale muito a pena ler, asseguro, mesmo para quem só costuma ler romances.

Comentários

  1. Ora aqui está um livro que, de acordo com a sinopse, tem grande probabilidade de me acompanhar algum tempo de verão:)

    Cada um de nós é guiado pela trama de histórias entrelaçadas: as que nos contaram e ajudaram a povoar consciente e inconsciente; as que vamos inventando acerca do mundo em que vivemos - tanta vez só sobrevivemos e singramos por reinvenção da realidade -, as que se nos oferecem já feitas e observamos (muitas deixamos passar intocadas).
    Parece-me uma obra com interesse maior que simples ficção
    Boa semana

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    1. «Obra com interesse maior do que a simples ficção.» É bom ler isto de leitores bem qualificados. Ainda há esperança ao regresso de um literatura de conteúdo.

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  2. Pelas palavras da Rosário, é um livro à minha medida. :)

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  3. Pela sinopse parece-me bem interessante.
    Fez-me lembrar o estilo de alguns livros do Paul Auster.
    Vou dar uma espreitadela quando fôr à Bertrand (a única aqui do burgo).
    :-) Antonieta

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    1. Perdoe-me a curiosidade, mas a Antonieta mora em Aveiro?

      Saudações bisbilhoteiras da Cidade Morena

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    2. Quem me dera morar em Aveiro, Extraordinário Pacheco!
      Amanhã dão 26 graus para Aveiro e para aqui 40!!!
      E eu dou-me tão mal com o calor...
      Posto isto, embora nascida em Lisboa onde vivi até aos 29 anos, agora estou para aqui numa aldeola nos arredores de Castelo Branco.
      E claro que está perdoado.
      Saudaçoes Beirãs.
      :-) Antonieta

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  4. Claudia da Silva Tomazi13 de julho de 2015 às 11:30

    Pois bem, Rebecca Solnit iniciou carreira no ano de 1988 embora percebo (pouca) produção literária.

    O título do livro em causa está a figura de linguagem; quanto o título do post a Dra. Maria do Rosário os clássicos são populares.

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