Glosar e copiar

Muitos autores de todo o mundo, especialmente poetas, gostam de glosar textos dos seus antecessores. Gastão Cruz, um poeta muitas vezes premiado em Portugal, tem alguns livros em que, por exemplo, dialoga com poetas clássicos, como Sá de Miranda, usando versos de outros em itálico nos seus textos. É mesmo assim – e não se trata de roubo, antes de uma homenagem. Ora, um escritor argentino de 38 anos, Pablo Katchadjian, resolveu criar um projecto em que partia de três obras literárias publicadas e, conservando-as como núcleo, trabalhava à volta delas, acrescentando-as. E, entre outras, pegou n’O Aleph, de Jorge Luis Borges, e toca de criar o seu «Aleph Engordado», acrescentando 5600 palavras de sua autoria ao conto de Borges, reproduzido de fio a pavio. Ora com quem te foste meter… María Kodama, a viúva do escritor, achou isto um completo abuso e acusou-o nada mais nada menos de plagiar a obra do grande Borges (que, de facto, estava no meio da sua, e intocada), entrando com um processo na justiça. E, surpresa, o Tribunal deu razão a María Kodama e condenou o pobre Pablito a pagar uma quantia exorbitante… Já não se pode glosar...

Comentários

  1. Faço minhas as suas palavras...

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  2. Inépcia de aprendiz ou de glosador inocente (!).
    Tivesse ele esperado mais um pouco (?), até ao ano 2036, já nenhuma viúva e nenhum juiz lhe caíam por riba. Isto, é claro, se os direitos de autor, na Argentina, caducarem ao fim de 50 anos após a morte do escritor.
    Sinceramente, acho a ideia idiota, se o pleonasmo serve para reforçar o que quero dizer. Se ele pretendia uma Aleph Engordado, mais fácil e mais consensual seria fazer um Aleph Modificado, sem tocar no texto original, que só serve para dar alguns centímetros à lombada do livro. Não quero dizer com isto que não estivesse na alçada judicial, a pedido da família, porque o facto de usar as personagens de um autor não evita que se considerem os direitos autorais ofendidos.
    Quando tinha os meus catorze ou quinze anos, tive a peregrina ideia de continuar a escrita do livro "Peyton Place", da Grace Metalious, falecida com cirrose poucos anos antes. Era uma espécie de "Return to Peyton", mas com textos meus e novos personagens. Não o fiz, e procedi bem, pois lá teria o George à perna.
    Acabei por criar um arremedo do "Quo Vadis", de Henryk Sienkiewicz, com trama própria e personagens diferentes (apenas coincidindo a época), que publiquei em novelas de meia página num semanário local (tal como foi originalmente publicado pelo autor referido), onde também as ilustrações desenhos.
    É claro, tudo isto entre as aulas e os estudos liceais.

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    1. O rematar do penúltimo parágrafo saiu truncado, pelo que se deve entender- ..."onde também fiz as ilustrações, um desenho por episódio".
      Um pouco mais atrás, leia-se um Aleph e não uma Aleph.
      Prometo que farei, de futuro, as revisões do texto como se fosse para a gráfica... :)

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    2. Para os que discordam da decisão judicial e apoiam os "bigodes" do Pablito, permita-me a Rosário deixar esta ligação:
      https://www.facebook.com/pages/Apoyo-a-Pablo-Katchadjian/1599418800322990

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    3. António Luiz Pacheco28 de julho de 2015 às 06:47

      AHahahah!

      Permita-me uma boa e sã gargalhada, Extraordinário Fernando!

      Peyton place (Amar não é pecado) foi um belíssimo livro do meu tempo de liceu! E percebo perfeitamente a sua intenção ao pretender continuá-lo ...

      Já o Ben-Hur, creio que terá servido de inspiração a muita obra ...

      E para terminar, custa-me a entender a acusação de plágio e a sentença... poder-se-ia entender que fosse de uso indevido ou abuso, dolo literário... ou algo assim, sei lá eu! Mas de plágio não me parece... talvez a viúva tenha dividido com o juiz parte da quantia, sabe-se lá!

      Saudações do Bairro Ribatejano

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  3. Para o eterno insatisfeito Autor que, depois de o livro publicado, pensa sempre que poderia ter feito melhor - acrescentado aqui, melhorado ali, cortado acolá - vir um tipo mexer na sua obra oferecendo-lhe palavras que nem ao "dono" passariam pela cabeça, não é plágio, é parvoíce. Se a imaginação se basear apenas naquilo que os outros já fizeram, andaremos numa roda mascarada a falar sempre do mesmo.

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  4. A decisão do tribunal está errada, claro. Só há plágio quando há intenção de mascarar a origem do texto. Não foi o que aconteceu. Até o título permite concluir que é um exercício, estúpido sim mas não plágio.

    Se houver justiça, isto vai abaixo num recurso.

    Posto isto, não gosto da ideia. Nem de citações exageradas. Detesto, por exemplo, a moda pós-moderna de alguns novos autores de estarem sempre a encabeçar os seus capítulos com citações de autores famosos. E parece que alguns editores adoram isso. Deve vender mais. Escusado será dizer, as citações costumam ser a melhor parte do texto e, muitas vezes, nem se sabe o que têm a ver com o texto restante.

    Enfim, as bacoquices de um pós-modernismo com que nos vão engolindo meia dúzia de putos mimados, que se julgam escritores porque as editoras os apresentam como tal.

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    1. Não caibo no figurino. A menos que as epígrafes sejam inspiradoras ou esclarecedoras do que se segue, também concordo que não fazem falta nenhuma e muitas vezes acenam com uma falsa sabedoria.

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    2. Perdão se a minha intervenção se prestou a qualquer equívoco. Quando me referi a "editoras", referia-me às casas em si, não a mulheres que editem.

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    3. E quando me referi a "editores" referi-me a algumas pessoas que editam, independentemente de serem mulheres ou homens. Nunca foi minha intenção incluir a MRP nessas pessoas.

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    4. Não foi preciso muito para o ataque gratuito contra o papão do pós-modernismo.

      Isto não tem nada que ver com pós-modernismo; há centenas de escritores que cabem nessa vaga categoria que nunca fizeram nem fariam algo assim.

      A citação de autores famosos é prática corrente desde sempre; na Idade Medieval e no Barroco era, aliás, uma convenção bastante comum e muito apreciada porque evidenciava a erudição do autor. Há grandes livros que não são nada senão listas de citações gratuitas. Mas nunca leram o raio do Rabelais, Luís de Camões, António Vieira, Francisco Rodrigues Lobo, Robert Burton, Herman Melville, James Joyce, Vladimir Nabokov, Haroldo de Campos, Alexander Theroux? A minha edição do 'D. Quixote' tem algumas centenas de notas finais indicando todas as citações de e alusões a romances de cavalaria.

      Quanto à "falsa sabedoria" das citações, bem, a citação pelo menos indica que o autor está ciente da obra citada; mas se calhar a citação parte de algum livro que o editor nunca leu, e deve ser incómodo para os profissionais da edição perceber, de tempos a tempos, que há sempre alguém que leu mais e mais largo do que eles.

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    5. Não estávamos certamente a falar do mesmo tipo de citações e de autores. No meu caso, referia-me a pessoas que mandam originais impublicáveis, mas se apressam a antecedê-los de epígrafes de autores sonantes para passarem por conhecedoras. Faltou dizer e por isso acrescento.

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  5. Concordo com o tribunal e a viúva. Se os escritores para inovar desatam a virar-se todos para aqui e ali a acrescentar obras consagradas...não dá bom resultado. E julgo mesmo possa ser entendido como um desrespeito. Ainda que a obra do autor que se acrescenta esteja toda lá dentro.

    Glosar em poesia está certo, mas na prosa... Numa é valor acrescentado na outra não sei. Mas não apoio tal medida.

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  6. Ainda bem que esse juiz sabe o significado da palavra "glosar"; caso contrário, teríamos o Pablito a glosar, emagrecendo, Guerra e Paz ou Os Miseráveis. Este tipo de proeza literária ou acaba em guerra ou em miséria, mas esta já deve vir de trás.

    ABC

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    1. Não consigo imaginar uma decisão mais justa. Um escritor usa um texto INTEIRO de outro escritor, ao qual apenas acrescenta algumas palavras, e coloca o próprio nome nele? Julgo que muitos comentadores aqui é que desconhecem o sentido de glosar - que é mais fazer uma variação, modificada claro, de outro texto, mas nunca a citação completa do mesmo - e de citar, que é apenas usar um verso ou dois de um poema no corpo de um poema original, como T.S. Eliot fez em The Waste Land.

      Agora, um texto INTEIRO dentro de umas quantas palavras de outro tipo, aproveitando-se da fama e do talento do autor plagiado - todos sabemos quem é Borges, um dos mais influentes escritores do século XX; mas quem é este Katchadjian sequer? Que obra tem ele para mostrar, para além das transcrições do tribunal? Vocês gostariam de ver todo um texto vosso usado por outrem para criar um segundo texto ao qual ele depois colocaria o nome dele?

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    2. É, digamos, curioso que tenha sido o próprio J.L.Borges , por intermédio da sua viúva, que o representa cá na Terra, a levar a Tribunal uma questão de alegado plágio, ou glosa.
      Isto porque foi ele próprio quem melhor explorou e valorizou a questão do plágio, graças ao seu magnífico texto "Pierre Menard , Autor do Quixote” (in “Ficções”).
      Pois nesta ficção apresenta-nos esse Pierre Menard que laboriosamente escreveu um livro intitulado “Dom Quixote” tal e qual como Cervantes, três séculos antes, tinha escrito um igualzinho, palavra por palavra – porém agora imbuído de um sentido completamente diferente.
      Genial!
      Vale a pena ler – e depois reler, com outros olhos.

      Ainda gostava de saber como reagiria Maria Kodama se o tal Pablito tivesse a ousadia de homenagear o seu compatriota reescrevendo laboriosamente, palavra por palavra, este "Pierre Menard ...”, para nós depois relermos Cervantes e Borges com outros olhos...

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  7. É caso para dizer: vai glosar o "#"$#%$%

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