Autor?
De vez em quando, pergunto a algumas pessoas de fora deste meio, sobretudo se forem mais jovens, o que andam a ler. E, sim, respondem, mas resumindo o enredo e abordando os temas tratados, raramente indicando o título (que esquecem com uma facilidade surpreendente) e ainda mais raramente nomeando o autor (que nem chegaram a fixar). É para mim muito estranho, confesso, esta atitude «desprendida», porque, quando comecei realmente a entusiasmar-me com a leitura e descobria um autor ou uma autora que me caía no goto, queria ler absolutamente toda a sua obra e, a menos que me desiludisse pelo caminho, não descansava enquanto o não fizesse. Ainda hoje sou capaz de referir todos os títulos que li de determinados autores amados – e até os que não cheguei a ler e estão na minha cabeça como uma espécie de culpa que não se foi com o tempo. Os editores franceses são ainda dos poucos, no mundo inteiro, que respeitam a figura do autor; não raro, sobre as capas muito simples, claras e lisas, apenas com letras, colocam umas cintas largas com a fotografia (mesmo que se trate de alguém feio ou pouco atraente) e o nome do autor em maiúsculas, para que, entrando numa livraria, os leitores possam identificar sem trabalho que já saiu mais um livro do seu escritor favorito. Mas não conheço mais ninguém que o faça e talvez seja, afinal, pura perda de tempo e energia: muitas pessoas já não querem simplesmente saber quem escreve o que andam a ler.
Concordo completamente com a ideia de colocar a foto do escritor junto do livro para associar o nome com a cara e mais tarde pesquisar outros livros do mesmo autor.
ResponderEliminarNão tenho a mesma ideia sobre o esquecimento dos mais novos. Malta nova que começou a ler policiais suecos e sabe os nomes dos autores que nem sei dizer.
Mais facilmente sei identificar os escritores russos que os tíltulos dos seus livros.
Há um livro de Dostoiévski que li há uns anos e se chamava "Recordações da casa dos mortos" e que recentemente foi traduzido do russo e ficou com o título "Cadernos da Casa Morta".
Noutro aspecto acho que deviam escolher bem os nomes. Os mais comuns acabamos por esquecer. Um escritor chamado João Silva ou João P. Silva, acabaremos por recordar apenas o título.
Mais nomes como o do escritor Possidónio Cachapa, que ainda não li, mas não esqueço o nome.
Posso estar enganado mas essas atitudes "desprendidas" acontecem geralmente a pessoas que tratam os livros como peças descartáveis, como se fossem lenços de papel de assoar, utiliza/dobra/rasga/suja e deita fora, são pessoas que não gostam de livros nem de ler, lêem com a intenção de distrair, como quem bebe uma cerveja.
ResponderEliminarImpensável, para mim, andar a ler um livro e não saber o nome do autor nem tão pouco o título, a mim não me cabe na cabeça tal "abandalhamento" (abandalhamento e não desprendimento).
Isto acontece-me no cinema e tenho dificuldade em fixar os nomes de alguns filmes, quase sempre o dos realizadores, ou o dos artistas. Mas na Literatura vou-me aguentando.
ResponderEliminarO problema é que o mundo está cheio, cada vez mais cheio, de imagens, notícias, nomes e acontecimentos contraditórios difíceis de seguir e qualquer dia rebenta.
Fui anónimo por engano. Ainda hoje li que um grunho futebolista foi apresentar-se em Espanha com a cara de Franco estampada na camisola. Depois, para emendar a mão, disse que não sabia quem era, que não gostava de política e que nunca sequer tinha votado na vida. Franco simpatizaria com ele, por certo. Isto talvez esteja relacionado com o que disse MRP: o problema é este.
EliminarNão tenho memória de elefante para a música e para o cinema, por exemplo, porque toda a minha motivação está concentrada na literatura. E neste campo, à semelhança de outros, há uma coisa que não entendo: a mesma obra ter títulos diferentes, não só de país para país mas até no mesmo país, como se fosse duas ou mais realidades distintas. Pode uma pessoa ter dois nomes?
ResponderEliminarQuando alguém me perguntou, certa vez, se já tinha lido À Espera no Centeio, respondi que desconhecia o título; no entanto, se tivesse ouvido Uma Agulha no Palheiro (J. D. Salinger), a minha resposta teria sido outra.
ABC
Saber os nomes das coisas (autores, livros, etc. etc.) é marca de uma forma de estar no mundo.
ResponderEliminarSaber os nomes das coisas (autores, livros, etc. etc.) é marca de uma forma de estar no mundo.
EliminarEu diria mais: é paixão, simplesmente paixão; em tudo o que faço eu ponho paixão (ou então não faço), seja no trabalho, seja no lazer, no que gosto de ver, de ler, de ouvir, de escrever, no amor, na amizade, até no contrário- É preciso paixão e não fazer só por fazer...que é o que acontece com a maioria da gente com quem contacto. Ainda na semana passada fui a uma biblioteca pública e perguntei pelo livro X de Balzac , então a Senhora que me atendeu disse que não tinham, isto depois de ter escrito no computador Balsac (com s)...como deve ser doloroso àquela triste trabalhar numa biblioteca...que tristeza, mas isto acontece em todos os sectores...PAIXÃO é vibração é amor é alegria é VIDA.
Claro que passados uns meses posso já não me lembrar da história do livro que li, mas é por isso mesmo que houve PAIXÃO.
Mas a vida já me ensinou que a PAIXÃO não dá lucro!
Obrigada por ter desenvolvido o meu comentário. É isso mesmo.
EliminarE sobre paixão, direi mesmo mais: Ainda hoje fui agradávelmente surpreendido quando no nosso regresso de Fátima, onde sempre vamos a despeito de minha mulher não ser católica e eu pouco religioso - mas crentes - resolvi fazer um curto desvio pela casa-museu de Roque Gameiro, cuja obra e personalidade muito admiro: pois encontrei ali um jovem(Luis), aliás muito jovem, que com grande simplicidade e imensa simpatia nos acompanhou e explicou o tema da exposição em decurso (o mar), mas se nos surpreendeu pela sua invulgar cultura (atendendo à idade) mais o fez pela óbvia paixão que tem e transmite pela obra do Mestre e por aquilo que faz! Raro!!!
EliminarSaudações apaixonadas e em tons de aguarela cá do Bairro Ribatejano
Tenho uma opinião diferente dos caros comentadores precedentes.
ResponderEliminarE como o fenómeno me parece recente, neste espaço temporal que se foi contraindo, também eu pareço ter fechado para sempre a memória de autores, realizadores, actores e actrizes. Falta de espaço no disco rígido? Talvez!
E não me parece que seja um vício de forma, a minha, mas um vício do tal espaço temporal que se foi encurtando, enquanto inversamente se foi encafuando de mais e mais informação. O desprendimento aparente de muitos é talvez a forma moderna de podermos acumular mais e mais informação, não entrando em estado de bloqueio perante o mundo em movimento.
Talvez se me bastasse a ficção, mas não!
Ele é a ficção, mas é também a literatura de viagens, a "literatura de história", as diferentes "literaturas" de áreas aparentemente díspares das ciências e das humanidades. Ele é tudo, até as capas das revistas e o olhar maroto e voyeur dos desaguisados das revistas "da moda".
Vivemos, de facto, cada vez mais num mundo global e holístico. Num mundo, como diria A.M., de simultaneidade e "excesso" de informação. E, ao contrário de alguns caros, muito focados na ficção, toda a vida é-me cara como "literatura" animada. Talvez por isso não perceba o cânone literário actual. Talvez por isso não perceba o mundo literário como um espaço fechado. Talvez por isso tenha "devorado" ontem, com basto prazer, uns vídeos de autores Brasileiros, um dos quais versava sobre «Literatura de tipo de texto opaco ou transparente?»
Com a transparência e fluência simplista dos Brasileiros, que não simplória, dois autores, Vilto Reis e Maicon Tenfen , explicam, para quem se divide na valorização entre romances com um tipo de linguagem opaca, ou outros com uma linguagem mais transparente, que os dois caminhos não se anulam um ao outro, inferiorizando ou superlativando.
Afinal, o mundo, é muito mais colorido do que o mundo fechado e limitado que muitos teimam em viver.
Onde foi buscar a expressão "vício de forma?" É interessante.
EliminarJá me aconteceu (aliás, acontece-me) esquecer-me do nome de personagens de livros que gosto. Também é um esquecimento...
ResponderEliminarEstou mais para o lado do PAS ...
ResponderEliminarHá quem decores títulos de obras e nomes de autores, como há quem decore anos de colheita e rótulos de garrafas! E (quantas vezes apreciadores de vinho de fresca data e porque agora fica bem) depois me atiram com "bebi um não-sei-quê de não sei quando... ", e eu (que fui parido para dentro de uma selha de lagar) encolho os ombros e digo que bebo vinho e não rótulos ... o que é um escândalo imediato que faz empalidecer os ex-bebedores de iogurte que se converteram a Baco.
Bom, há que ver uma coisa, ele há tanto autor novo e tanta obra a sair em cada dia que passa que cada vez que vou a uma livraria eles parecem ser como as baratas ... por isso é impensável decorar tudo e todos... compro livros de gente que nem imagino quem seja porque a obra promete, e só depois, eventualmente, decoro o nome de vale a pena... Rentes de Carvalho, Miguel Real... evidentemente, os outros? Só por acaso, Miguel Sousa Tavares pois toda a gente conhece e José Rodrigues dos Santos (não leio! só li um e detestei) como é óbvio, comprei ontem um quye promete (Arquipélago) mas não sei quem é o autor e nem o nome, só me interessarei se de facto o livro corresponder ao que espero seja: um grande romance açoriano!
Francamente, Deus me livre de ter ainda de decorar os incontáveis nomes de tanto livro, quando me vejo aflito já para saber os nomes das variedades de milho e dos princípios activos de tanto fitofármaco que mudam de nome de país para país ou de continente para outro... não lhes dou essa importância, a menos que o mereçam e isso meus Extraordinários Amigos não é para todos!
Saudações diletantes cá do Bairro Ribatejano!
Não sabem o nome e o autor pela mesma razão que o Santana Lopes gosta dos violinos de Chopin
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