Fama e proveito

Li recentemente no Público uma reportagem sobre a participação da poetisa portuguesa Matilde Campilho na Festa Literária de Paraty, reportagem na qual, citando jornais brasileiros, se contava que «ela roubou a cena» e «foi a musa» da festa, contribuindo para filas intermináveis de leitores à espera do seu autógrafo. E logo me lembrei daquele ano em que Valter Hugo Mãe fez chorar a plateia (e chorou também ele), passando a seguir mais de quatro horas numa livraria a autografar romances para mulheres que queriam casar-se com ele. Com o sucesso – sobretudo o internacional – passou a ser odiado por um mar de gente que não perdoa aos escritores terem um êxito que facilmente aceitariam num actor de cinema. Não: escritor é para escrever e ficar sozinho no seu canto... Pensava eu nestas coisas com medo do que irá suceder à jovem e promissora Matilde Campilho (que ainda por cima é bonita e, por isso, tem mais uma razão para os feios implicarem com ela) quando, em pleno Facebook, na página de um escritor estrangeiro, leio qualquer coisa como (desculpem a tradução literal): «Fode à vontade, mas por favor guarda isso para ti.» Vinha a frase a propósito da relação de Mario Vargas Llosa com a socialite espanhola Isabel Preysler, que fez mais uma capa da revista Hola, na qual se anunciava a felicidade do casal numa viagem romântica a Portugal. Ou seja, tu, escritor, podes ter o proveito, mas não a fama... Pois não sei bem o que pensar disto: as revistas deste tipo nem sequer me irritam, são-me indiferentes; se as folheio no dentista ou no cabeleireiro, não apreendo quase nada, pois não sei de quem estão a falar porque, para isso, é preciso ver televisão (e não troco um livro por essa anestesia). Mas porque se enervam tanto as pessoas sérias quando um intelectual aparece ao lado de uma mulher bonita e mundana? O escritor do Facebook dizia que há coisas que, se não pudermos contar que fizemos, perdem a graça, mas que Vargas Llosa não se devia pôr a jeito. Eu não sei se é para dizer que anda com uma mulher gira e com tudo no sítio que ele se deixa fotografar. De qualquer modo, não preciso de defender um senhor que até já recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Espero é que a jovem poetisa, de quem já falei elogiosamente aqui no blogue, não atraia muita gente maldisposta que se vire contra a sua poesia, como os que se viraram há uns anos contra o que Valter Hugo Mãe escreveu, só por causa do seu sucesso internacional.

Comentários

  1. O problema foi as pessoas "bonitas" terem descoberto a literatura e afins.

    Parece que um qualquer "dono da verdade" (talvez do século dezanove) dissera que estas coisas de se gostar de livros apenas estava ao alcance de quem se fechava em casa, por ter por lá espelhos mentirosos...

    Felizmente ou infelizmente há preconceitos para todos os gostos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O problema é as pessoas não descobrirem a leitura. Ponto. O resto são acessórios de linguagem e tristuras do pensamento que entorta.

      Eliminar
  2. O escritor tem de ser um sofredor e não mostrar que está feliz com a vida, assim só causa inveja aos que sofrem mesmo por não conseguir escrever tão bem.
    O sucesso internacional sempre atraíu maiores invejas, mas pelo menos tornam-se escritores e poetas que não ficam indiferentes ao público, invejosos ou não, ame-se ou odeie-se.

    Podemos adorar os livros e ao mesmo tempo odiar o carácter de quem os escreveu. Importante é não ficar indiferente.

    ResponderEliminar
  3. Marketing ! Um escritor que hoje queira viver da escrita tem que se submeter às omnipotentes leis do mercado (não é só Portugal e a Grécia...). Precisa de criar uma imagem, transformar-se numa marca e, sobretudo, promover essa marca aparecendo o mais possível nos media, sejam quais forem as razões porque isso aconteça. Se for por motivos escandalosas, ainda melhor, porque mais basbaques irão reparar e a marca será fortalecida; mesmo que os livros não sejam lidos, avança-se em metafinanciamento literário que pode dar mais € que a venda de livros, olhem para o Miguel Sousa Tavares.
    Outro Miguel, o Torga, recusava as entrevistas e as fotos. Dizia que era nos seus livros que estava a sua criatividade, não nas entrevistas e nas reportagens. Se o queriam conhecer, que lessem os seus escritos.
    Em relação ao Vargas LLosa sou egoísta: temo que não escreva mais nenhum dos seus belíssimos romances por ter as suas energias ocupadas, imagino eu, pela sua de paixão octagenário (oxalá ao seu coração resista à toma crónica de Sialis sublingual). Mas isso é com ele, é a sua vida privada. É óbvio que no caso do Vargas Llosa ele não precisa de aparecer na capa da Hola. Mas outros escritores pagariam qualquer preço para isso..
    A Campilho é de facto gira com o seu ar de "petite" burguesinha de Cascais. O Pedro Mexia promove-a com eficácia. Eu, por mim, não achei a sua poesia interessante. Mas isso sou eu que só tenho ouvido para poesia de ressonância clássica. Boa sorte à Campilho ! Desejo-lhe que depois de Paraty não entre num progressivo esquecimento, como aconteceu com o Valter Hugo Mãe.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Artur,

      Um pequeno reparo: Vargas Llosa fez em Março 79 anos. Daqui a uns meses já lhe pode chamar octogenário.
      Eu partilho do seu receio egoísta: provavelmente já não escreverá mais nenhum livro ao nível dos seus melhores. O penúltimo, "O sonho do Celta" foi uma semi-desilusão para mim. A culpa é dele, que colocou a fasquia demasiado alta. Por mim, a obra dele está bem assim, não necessita de mais acrescentos. Que se dedique a viver os últimos anos a aproveitar o que a vida tem de bom, se for essa a sua vontade.

      Um abraço para si,

      Rui Miguel Almeida

      Eliminar
    2. Claudia da Silva Tomazi14 de julho de 2015 às 05:18

      Bem, certamente gostaria em deixar claro o conceito longevidade expressado através da obra feito colméia a melhor qualidade a longa data e "egoísmo" nem combina a excelência Artur Águas e a vossa apreciação dever-se-ía moderar o prestígio português.

      Eliminar
    3. Prezado Rui Miguel Almeida,
      Permita-me discordar de si relativamente aos dois últimos romances de Mário Vargas Llosa, que adorei.
      O Felícito de “O Herói Discreto” é inolvidável. É a história do vulgar pequeno empresário de camionagem, vindo da pobreza indígena do Peru e “self made man”, que resiste a uma tentativa de chantagem que explora a sua clandestina vida amorosa. Oxalá não esteja a acontecer o mesmo ao Mário: estar loucamente apaixonado por uma mulher que quer essencialmente o seu dinheiro (neste caso, talvez mais posar ao lado de um famoso para as revistas do coração). E regressa um D. Rigoberto elevado pela sabedoria da velhice e é descrito um divertimento cheio de equívocos, as alucinações de um filho que vão sendo, e depois não sendo, delírios… Um romance com uma história exemplar, no sentido ético do termo, e recheada de pequenas paródias e de cenas em que damos enormes risadas, mostrando que a cultura social do Peru não é assim tão diferente da cultura lusitana. Só lendo.
      “O Sonho do Celta” é um extraordinário relato histórico, com recreação da figura do seu protagonista, que nos oferece os detalhes da luta épica de um enormíssimo diplomata irlandês, Roger Casement, que lutou sozinho contra alguns dos mais graves e esquecidos genocídios da primeira metade do século XX: o do imperialismo belga no Congo (“The Heart of Darkness”) e o da exploração de indígenas sul-americanos na produção artesanal da borracha. E sendo gay o herói desta saga, em vez de ser elevado aos altares pelas suas beneméritas intervenções, é pelo contrário alvo da mais furiosa depreciação pessoal durante os seus últimos anos de vida por uma Inglaterra e uma Irlanda ultra-ortodoxas.
      Não peço mais aos romances que leio. Obrigado Vargas Llosa: nunca li romance teu que me tenha desiludido (e que dizer do romance escrito antes destes dois? As “Travessuras da Menina Má”, constroem um inigualável manual daquele raro e habilíssimo erotismo feminino que consegue escravizar os homens).

      Eliminar
    4. Ora somos dois! Gostei muitíssimo d' O Sonho do Celta, e foi um excelente trabalho e tributo a Roger Casement! Talvez saia da esfera habitual do romancista, e por isso tenha causado a tal desilusão, o que se compreende, mas é um excelente trabalho.

      Abraço aos dois Extraordinários cá da Cidade Morena!

      Eliminar
    5. Ora somos três!
      Eu também gostei muito de ler "O Sonho do Celta". Penso que até comentei isso aqui no Horas.
      :-) Antonieta

      Eliminar
    6. Artur e Pacheco,

      Gostei imenso do último romance de Vargas Llosa , para que fique claro. Além do Rigoberto , soube bem reencontrar o Lituma . Gostei bem menos de "O sonho do Celta", isso apenas significa que o considero uns furos abaixo da genialidade que, em minha opinião, é transversal à sua obra. Além deste, entre os que menos gostei está também "O falador".
      Do lado oposto, o meu favorito é "conversa na catedral", está lá a vida toda. Enfim, opiniões.

      Reforço que Vargas Llosa é, tanto quanto a definição faz sentido, o meu escritor favorito.

      Um abraço "a ambos os dois"

      Rui Miguel Almeida

      Eliminar
    7. Extraordinário Rui Almeida... pela minha parte não tem que se justificar, era o que faltava, em particular alguém que me habituou a intervenções inteligentes e sustentadas!

      Creio que "O Sonho do Celta" foge à linha do autor, isto sou eu a discorrer e talvez a asnear... e por isso não me espanta nada aquilo que diz... já eu gosto muitíssimo de ler sobre aquele tema e em particular de biografias.

      Um grande abraço cá da Cidade Morena.

      Eliminar
    8. E “O Herói Discreto” - MAGNÍFICO!

      Eliminar
  4. Bom dia!

    Com que então, o Varguitas anda saído da casca?
    Já aqui o referi, se tivesse de eleger um escritor como favorito, faça isso o sentido que fizer, o nome que tenho no coração é, e julgo que continuará a ser, Mário Vargas Llosa .
    Não sabia que já não estava casado com a prima Patricia , geralmente estas coisas passam-me ao lado. Por curiosidade fui ver quem era essa bela donzela, a tal Isabel Preysler (bendito google) e, para grande espanto meu, quando esperava uma loira na casa dos 30, sai-me na rifa uma senhora de 64 anos, cujo primeiro casamento foi com o Julio Iglesias (esse mesmo!), de quem tem 3 filhos, um deles aquele moço que canta umas coisas de que não gosto nem um bocadinho. A senhora tem o seu charme, isto pelas fotos que vi.
    Grande Varguitas , saíste-me cá um Rigoberto de primeira! (esta só quem o leu pode perceber)

    Quanto às invejas cá do burgo, tenho para mim que o escritor mais invejado deve ser o José Luis Peixoto, de cuja escrita gosto muito, tal como gosto imenso do Valter Hugo Mãe. Posso dizer que já li todos os romances de cada um deles e, quanto a mim, merecem todo o sucesso que têm conhecido.
    A Matilde Campilho (a fazer fé nas fotos, é gira sim senhora) será uma descoberta a fazer.

    E pronto, fiquei todo contente com o Varguitas. Que seja muito feliz com a senhora, é o que lhe desejo!

    Rui Miguel Almeida

    ResponderEliminar
  5. Claudia da Silva Tomazi14 de julho de 2015 às 03:55

    Primeiro - O Brasil é receptivo com estrangeiros a docilidade e carinho a gente a integridade faz-se presente, o bom quer e ser bem quisto faz bem. Notoriedade o melhor argumento.

    Segundo - Escritores são amados, trata-se a natureza o intelecto. Quem escreve e exerce-se têm público.

    Terceiro - Visibilidade com relação a era tecnológica permite a convivência salutar entre idéia e ideal.

    Quarto - Responsabilidade o compromisso.

    ResponderEliminar
  6. Ora essa... eu que gosto de leitura e de livros sou bonito! Pelo menos a minha mãe achava que sim...

    Portanto não vejo qualquer incompatibilidade... e sim a Matilde Campilho é bem bonita, presumo que seja interessante também ... já quanto à beleza do Valter Hugo Mãe, não me pronuncio!
    Eheheh!

    É uma característica bem portuguesa essa: somos invejosos do sucesso e tratamos de deitar abaixo (por ciúme?) os compatriotas que se elevam, tal como em compensação somos solidários na desgraça!

    Funciona assim:
    - X é o melhor, está a ter grande sucesso!
    Coro: Não presta para nada, é um tosco, é burro, é imbecil, enganou o irmão, é mau filho ... etc.
    - Y matou a sogra, a mulher e os filhos, vai apanhar 50 anos de cadeia!
    Coro: Ah... coitado, ele nem era mau tipo, aquilo foi o vinho, eram os ciúmes (a mulher também tinha cá um feitio e sogra infernizava-o...), foi um mau momento... também 50 anos é muito, o pobre.... teve uma vida difícil...

    É assim ou não é? Mesmo nos meios mais "evoluídos" como os da escrita... a inveja e o ciúme, as frustrações por não se conseguir chegar lá toldam a mente e o raciocínio como os condicionam.

    Uma coisa é "gostar" da obra, ver-lhe até defeitos e apontá-los, outra é denegri-la porque não a apreciamos ou porque somos de um clube diferente do autor, ou mesmo por inveja.

    Mas sempre assim será, aliás há um adágio que se aplica inteiramente: "Os cães ladram e a caravana passa!".

    Saudações solidárias cá da Cidade Morena e com votos de sucesso para todos os nossos autores, mesmo daqueles cuja obra não aprecio!

    ResponderEliminar
  7. A mim não me preocupa nada a beleza. Pelo contrário, beleza é fundamental. Se não for exterior, que seja interior. O que me preocupa mais é a utilização da beleza como chamariz. Como aquelas imagens de patas nos canaviais para, sem dó nem piedade por parte dos caçadores, atrair os muito patos que se desenvolvem por entre a vegetação seca que dá pelo nome de palha. Ou seja, por dá cá aquela palha, inundam-se os canaviais de algumas figuras animadas retocadas a pó de arroz e sem asas para voar.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pronto, já cá faltava a inveja embrulhada em songamonguice à la Marcelo Rebelo de Sousa.

      Eliminar
    2. Inveja de que, Joel? Do marketing? Das imagens de marca? Da estética e da beleza? Das asas? Tanto espaço aberto, Joel, tanta liberdade!

      Eliminar
  8. Decididamente, não quero ser famoso. Para além de não me achar bonito - o que me retira, desde logo, qualquer veleidade - receio muito o dia em que, eventualmente, tivesse de estar, durante mais de quatro horas, a autografar livros para mulheres que queriam casar comigo. Garanto-vos que até chorava.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Claudia da Silva Tomazi14 de julho de 2015 às 08:00

      Querido João J. Madeira você têm um valente ar e a maioria torna-se cúmplice o seu notável modo em argumentar, consegue ser suave com palavras.

      Eliminar
  9. Hummm...acho que quando se tem sucesso não se liga assim tanto a quem se irrita por esse motivo; as invejinhas passam ao lado:)). São só mais uma coisa que se diz.

    O que penso ser menos bom - mas sem remédio - é dizer-se tudo o que apetece, como apetece, no Face e noutros lugares que são públicos. Por vezes são, pssst, olhem para mim.

    Espero bem que sim, que os portugueses conquistem o mercado brasileiro de leitura. Mas não foi há muito tempo que ouvi Inês Pedrosa afirmar que, apesar das simpatias que a exuberância brasileira alardeia aos escritores lusos, a venda de livros portugueses não é expressiva no Brasil. Parece que não há assim tanto leitor.

    Muita sorte para a poetisa.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Claudia da Silva Tomazi14 de julho de 2015 às 09:59

      Concordo algumas e discordo noutras coisitas de modo a Beatriz Santos se lhe alcança a visão.

      Eliminar
    2. Doce Cláudia de intrincado falar:), muito obrigada por concordar e discordar.

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório