A filha do juiz

Deu-me para a literatura americana e, depois de Carson McCullers e Salinger, devorei um romance de Eudora Welty. Chama-se A Filha do Optimista e foi dos tais comprados a preço de saldo na Feira do Livro. Diz o New York Times Book Review que é o melhor da autora, mas quanto a isso não faço juízos, até porque o meu conhecimento da obra de Eudora Welty é ainda diminuto e sei que os contos são uma das suas coroas de glória. Mas adiante: enquanto lia, parecia que estava a ver um filme daqueles a preto e branco, passado nos arredores de New Orleans, com aquelas senhoras gordas sentadas num terraço na má-língua, criticando a flausina Fay, muito mais nova do que elas, que era uma pobre dactilógrafa e sacou habilmente o juiz McKelva, o viúvo que nunca se refez completamente da morte de Becky, primeira mulher e mãe da filha – personagem ausente mas, decididamente, a mais forte. O juiz está com um problema de saúde, pelo que Laurel McKelva vem de Chicago de propósito para o acompanhar: o pai é tudo o que tem na vida depois de ter perdido o marido na guerra. E o choque entre Laurel e Fay (entre a contenção e o histerismo) será o motor para a consciência do que aconteceu, as memórias do passado, a percepção dos erros do juiz com Becky e a solidariedade das vizinhas mais velhas e mais novas, sempre implacáveis nos seus comentários. Contando tristes episódios com uma ironia e tanto, Eudora Welty sabe criar ambientes e personagens com extremo realismo e ser por vezes, através da língua afiada das mulheres, de uma maldade que lembra um pouco a nossa Agustina. Uma frase no meio do romance de que gostei, a respeito dos vivos que perdem quem amam (o caso de Laurel, que perdeu os pais e o marido): «A culpa por sobrevivermos àqueles que amamos é justo que a carreguemos; sobreviver-lhes é uma desconsideração que lhes fazemos.» A ler, em suma.

Comentários

  1. Cláudia da Silva Tomazi3 de julho de 2014 às 02:41

    Autores americanos e seus "papa-língua".

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  2. «A culpa por sobrevivermos àqueles que amamos é justo que a carreguemos; sobreviver-lhes é uma desconsideração que lhes fazemos.», tão completamente...

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  3. Tenho problemas com essa frase. Encanta, porque é de uma humildade e uma subjugação extremas. Mas também é a anulação do próprio eu, a tal humildade que considero errada. Não posso estar de acordo.

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  4. MRP haverá algum problema?é que não consigo comentar ...

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  5. Afinal já consigo...

    Confesso, mais uma vez, a minha ignorância (não só sobre a Eudora Welty , como sobre outras escritoras, como ontem se viu...), contudo já esteve em lista de espera, só que são tantos livros novos a sair que lá continua.

    Quando a extraordinária MRP diz: enquanto lia, parecia que estava a ver um filme daqueles a preto e branco, passado nos arredores de New Orleans , com aquelas senhoras gordas sentadas num terraço na má-língua......lembrei-me logo do WINESBURG OHIO" do excelente Sherwood Anderson , onde VI tantas coisas.

    A propósito de VER nos livros nunca mais me esqueci do cágado que VI a subir um passeio em "A LESTE DO PARAÍSO" do gigantesco escritor de Salinas, John Steinbeck que, a par do PAPA VICTOR HUGO, mais coisas me deu a VER.

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  6. Para os interessados na obra desta autora, a editora Antígona tem vindo a publicá-la desde 2008:

    OS VENTOS E OUTROS CONTOS
    http://loja.antigona.pt/product/os-ventos-e-outros-contos

    AS MAÇÃS DOURADAS
    http://loja.antigona.pt/product/as-macas-douradas

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  7. Eu nunca li nada da Eudora Welty, embora já tenha espreitado um livro de contos na livraria, pois é uma das autoras que tenho muita vontade de conhecer.
    Talvez no próximo dia 14 na Bertrand, com 20% desconto, que é o mais parecido com a Feira do Livro que existe aqui no interior centro.
    :-)
    Antonieta

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  8. Cláudia da Silva Tomazi3 de julho de 2014 às 05:37

    Ah...o pequeno mundo do ensaio (meu umbigo esmerado) o mundo acontece depois daquela esquina.

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  9. Essa é uma frase bonita mas nem sempre verdadeira. Na perspectiva de quem se vai: os mortos, se nos gostavam em vida, não quereriam que tivessemos partido com eles. E só a loucura suicida tem por vezes a exigência da morte no colectivo, a pretensão de juntos partirem os que nasceram dispersos.


    Porém, junto ou disperso, para cada um vale o tempo que medeia entre nascimento e morte. O resto é o tempo dos outros e, talvez, o nada próprio. Como dizia Anaximandro, os seres praticam injustiça uns para com os outros, "pagam pena uns aos outros".
    Injustiça e desconsideração natural que, por ser pertença de todos os homens, se anula.
    Parece-me.

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    Respostas
    1. «os mortos, se nos gostavam em vida, não quereriam que tivessemos partido com eles» - concordo inteiramente, Beatriz. E, se nos deram a impressão de que gostavam que partíssemos com eles (ou que não merecíamos viver sem eles) então, não nos amaram. Pelo contrário, foram verdadeiros tiranos!

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    2. Cláudia da Silva Tomazi3 de julho de 2014 às 10:49

      Dona Beatriz conto-lhe no The New York Times Review of Book há escritores (colaboradores) no blog; famosos e famosas, cults e brothers, casca ou sem: Harold Bloom, Amy Knight, Roberto Bolano até François Hollande entre outros.





      Bem...respeito aquela frase a seriedade atribuída.

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    3. É curioso, Cristina; porque eu que isso escrevi, vivo na convicção que, de alguma maneira,os mortos chamam por aqueles de que mais gostam; talvez apenas a forma de dizerem, ""faltas-me". Os entendidos na psicologia humana dirão dessas doenças que aparecem após uma morte doída, que o desgosto as propicia, o organismo debilitado fica mais receptivo, e outras teorias explicativas.

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    4. Ora, D. Cláudia, está fartinha de saber que não entendo o seu dialecto.

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    5. Pode ser, Beatriz, cada um tem as suas convicções.

      Mas ainda em relação à culpa que carregamos ser justa ou não: depois de refletir, penso que exagerei um pouco, há casos e casos. Por exemplo, se é um filho a morrer, haverá uma culpa da qual os pais nunca se livram.
      Mesmo assim, não acho que a culpa seja justa. E, para efeitos de sanidade mental, talvez seja melhor tentar libertarmo-nos dela. Dizer que a culpa é justa é um castigo terrível que infligimos a nós próprios. Será necessário? Merecemos? É essa pergunta que devemos fazer a nós próprios: eu mereço mesmo isso?
      Talvez haja quem ache que é bonito, poético, eu sei lá, carregar com uma culpa dessas, ficar propenso a angústias, tristezas, depressões... Enfim.

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    6. Olá Cristina

      sorry mas só agora há oportunidade.

      Se um filho morre, que culpa podem carregar os pais que não tiveram parte activa na morte?! Como atrás disse, há uma anulação da injustiça se está inscrita na natureza dos seres que a sofrem. Dado termos nascido, temos sempre boa idade para a morte. É meu entendimento que culpa é o que se sente ser dever e, por decisão, não se pratica; mas, como dizia Pessoa, “ter um livro para ler e não o fazer”, até é bom e ninguém – suponho eu – se mortifica por isso. A verdadeira culpabilização surge se o sujeito, com a sua deliberação infractora, prejudica outros; e ainda assim, depende da natureza especifica desse sujeito e do grau de prejuízo, julgo. O povo diz, "há males que vêm por bem".

      Digamos que “culpa justa” soa algo estranho. Há situações em que nos sentimos naturalmente culpados, por sermos responsáveis por elas, por educação, porque somos dados a carregar com o mal do mundo, e etc.
      Quanto ao merecimento é uma categoria paralela a quase tudo que nos sucede na vida :). As pessoas vulgares não agem nem pensam em função do merecem, mas do que pode ser, da voz do possível.

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  10. Li um livro de contos dela (ou era uma novela?). Gostei. Tinha assim um humor sulista que me pareceu o contraponto (claro, não bíblico) da Flannery O'Connor.

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