Os dois irmãos

Há uns livros que, sendo romances, não são só romances. E é este o caso de Cláudio e Constantino, de Luísa Costa Gomes, recentemente publicado pela Dom Quixote e, ainda por cima, com uma capa que dá logo vontade de o comprar e ler num instantinho. É um romance (também) que fala da vida de dois irmãos (Constantino diabolicamente pensante e estridente, Cláudio – o mais novo – melancólico, frágil e sonhador): dois meninos de famílias muito boas (com casa grande, criados, preceptores, avós e muitas tias fantásticas); meninos de outro tempo e de outro país (há vestígios de quando e onde, mas nunca se refere exactamente um lugar ou um ano – e é melhor assim, porque esta história serve, na verdade, a todos os tempos e lugares). A autora chamou-lhe «uma novela rústica em paradoxos», um nome que está certo, bem entendido, mas pode parecer a alguns demasiado «caro» e afastá-los da leitura. Pois que nada vos afaste, caríssimos extraordinários, porque esta pérola é uma espécie de Alice no País das Maravilhas escrita por uma portuguesa, um romance profundamente afectuoso e pleno de graça sobre questões abordadas desde sempre pela Filosofia (o ovo de Colombo, o infinito, o círculo vicioso e muitos outros paradoxos apaixonantes). É também extremamente simples nas suas proposições – ou não fossem os dois irmãos ainda crianças, embora já com um fraquinho pelas primas Florença e Tristeza (os nomes são igualmente bem apanhados, garanto) –, o que torna a leitura escorreita e agradável, embora a linguagem seja especialmente cuidada, nada de equívocos. E tem episódios e personagens inesquecíveis, além de – obviamente – muitas histórias que nos fazem pensar, muito para lá de terminado o romance. Um livro muito raro na nossa literatura, enfim.


 


Comentários

  1. Com esta capa tão simples e tão bonita é começar a semana em beleza.

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  2. Com esta capa deliciosa e com esta recomendação dá mesmo vontade de ir a correr comprar o livro.
    Quanto à autora, apenas li um livro dela: Contos Outra Vez, Grande Prémio do Conto da APE. É o nr. 1 de uma colecção só de autores portugueses premiados «Biblioteca Prestígio», que saíu em 2001 com um jornal, talvez o DN (já não me recordo).
    Boa semana para todos!
    Antonieta

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  3. Já andava com este livro debaixo de olho há uns bons dias. As dúvidas varreram-se-me de vez com este post ... Obrigada! :)

    Desta autora já li dois dos seus romances: o Olhos Verdes e o Ilusão. Do primeiro confesso que não me recordo bem (li-o há bastante tempo, mesmo), mas recordo-me bem do segundo: muito bom! O novo será umas das minhas próximas leituras, sem dúvida.

    E a capa é fantástica, sim.

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  4. Cláudia da Silva Tomazi7 de julho de 2014 às 04:21

    Sinceramente livro tem de ter enunciado e personalidade !


    Seriam elementos que novos autores descartam ?

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  5. António Luiz Pacheco7 de julho de 2014 às 04:33

    Enfim... uma espécie de "João-que-Chora e João-que-Ri", actualizado, alargado e para adultos?

    Creio que será um bom livro, sem dúvida, e tanto que vai para a lista!

    Nos tempos que correm, maus já se sabe, talvez haja uma reviravolta na nossa literatura actual que, e perdoem-me a afirmação iconoclasta de traça literária, classifico de muito fraca, se olharmos aos prémios atribuídos e às editoras!

    Claro é uma opinião... vale o que vale, mas é todavia uma opinião de leitor que tem gostos perfeitamente definidos e de uma pessoa que compra livros - se outro argumento não pesar que ao menos este seja tido em conta!

    Como repetidamente tenho dito, uma literatura que olhando aos autores na moda e de sucesso é escura, depressiva, deprimida e deprimente, até gótica... onde se cultivam e espelham frustrações e a depressão, a falta de alegria de viver, de uma maioria urbana, triste, deprimida, ácida, descrente... dos autores contemporâneos nacionais com uma atividade regular, confesso que compro nada! Os que compro, estão muitas vezes fora do circuito... acho que isto pode querer dizer alguma coisa... os homens do marketing que o analisem...

    Felizmente estão a aparecer bons romances históricos! E até biografias! Pois julgo que são uma forma de esconjurar essa sensação de vazio, de sem-futuro, de sem-nada, que muitos de nós sentimos assim como acusamos um excesso da cultura pesada dos que pensam mas parece que não reflectem, só exorcizam a si mesmos e à sociedade. É o que me transmitem os autores actuais nos seus romances demasiado introspectivos, virados para si mesmos e para um
    público com o qual não me identifico.
    Reparem que não digo que não saibam escrever, ou não seja literatura... longe disso, e muito pelo contrário o que lamento e me parece até um desperdício! Apenas que não me agradam os temas e nem o estilo!

    Espero que surjam outros géneros como este agora, talvez mais ao jeito de fábula, mas que nos falem de outras coisas e nos tragam alguma luz e um pouco de alegria, renovando o ciclo.

    Já há muito tempo que não lia nada da autora, creio que se terá dedicado mais ao jornalismo ou ensino... mas ainda bem que regressa!
    Bem precisamos!

    Saudações da cidade morena.

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    1. Ó Pacheco por falares em romances históricos e biografias vamos lá ver se o livro que hoje irei iniciar, que se inscreve nesse tema (O ASSASSINO DO AQUEDUTO de Anabela Natário) corresponde à minha expectativa depois de A IRMÃ DE FREUD, que acabei ontem (também do mesmo tema) ficar entre as oito e as nove... anda Pacheco...se comprasse os livros que saem todos os dias. nem o €uromilhões me valia

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  6. Cláudia da Silva Tomazi7 de julho de 2014 às 07:05

    Dir-te-ía pretensão: laçar vaga-lumes em vão ?

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  7. Luisa Costa Gomes é ela mesma muito rara. Acredito que o romance valha a pena, é autora que não desanima o leitor.

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  8. Desta autora, tenho O Pequeno Mundo, romance epistolar, de 1989, recomendado para publicação pelo júri do Prémio Literário Círculo de Leitores.

    António Breda Carvalho

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  9. Infelizmente, o meu amado irmão TóZé pôs termo à vida no dia 9 de Outubro de 2012.
    Partilhámos quarenta e nove anos de mundo, quarenta e nove anos de amor e amizade.
    Tínhamos apenas catorze meses de diferença e as nossas memórias confundiam-se, cheias de momentos onde aprendemos a ser cúmplices.
    Desde que o meu irmão morreu, a minha alma tem ventos de Inverno e os dias inteiramente felizes já não poderão existir.
    Talvez por isso, tendo a pensar em todas as histórias de irmãos como secundárias, ao compará-las com a que vivemos.
    Mas sei que é apenas um defeito de amor, uma injustiça para todas as histórias entre irmãos que existem na literatura.
    No entanto, a nossa vida será sempre o melhor livro que vivemos, aquele que melhor conhecemos.
    E, neste livro que é a minha vida, o meu irmão é um dos heróis da minha história, aquele de quem nunca ninguém ouvirá falar, de tão anónimos que cruzamos o mundo.
    Por isso, Cláudio e Constantino que me perdoem, mas o livro da minha vida com o meu irmão é mais bonito.
    Porquê? Porque fala-me dele todos os dias.

    Um abraço extraordinário para todos vós!

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco8 de julho de 2014 às 03:41

      Extraordinário Rui:

      Não era irmão, era meu primo... o Janeca, que desde pequeno foi o meu companheiro, de cachopices e aventuras de trazer por casa, das pescas e ida às rãs, depois dos pássaros, dos primeiros namoros, mais tarde de copos e fadistices, de caçadas... práticamente vivia na minha casa e tinha até argola de guardanapo e lugar cativo à mesa! Éramos de facto como irmãos e andávamos sempre juntos, ao ponto de naquele fatídico dia 4 de Fevereiro de 1996, no regresso de uma caçada, termos um terrível acidente de automóvel que me deixou em coma e o matou...

      O Janeca foi esse irmão que não tive, mas tive... e se entrou no livro da vida também entrou no meu Largueza, como alter-ego do personagem principal e à semelhança do livro da vida... chamei-lhe Zé dos Anjos, era loiro e tinha uma franja comprida, fiz dele um morgado, cavaleiro, com boa figura que agradava às mulheres e um feitio alegre, truculento, brigão, mulherengo, boémio... mas leal, franco e são, como bom ribatejano.

      Não é o único... ninguém é único e nem está só, bastando olhar à sua volta.
      Não o digo como recriminação, antes por solidariedade e pela amizade que entre nós aqui vamos Extraordinariamente ganhando.
      Para que se sinta acompanhado, pois além da memória do seu irmão que o acompanha lá de onde esteja e através da sua memória, tem a nossa companhia... daqueles que o entendem e sentem como o Rui.

      Diria que uma biblioteca não pode ser feita só de um livro, é composta por muitos, e todos são importantes.
      O nosso livro da vida deve compor uma biblioteca igualmente, a da vida... porque esta não se resume a um livro, é uma biblioteca sem dúvida!

      Portanto, e se me permite o conselho e aceita a amizade que lhe pretendo transmitir, abra a porta da estante e coloque nela mais livros! Tenho a certeza de que o seu irmão gostaria, sobretudo pelo amor que tinham e porque não o quereria ver fechar a porta da estante!

      Um grande abraço da cidade morena!

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    2. Amigo e extraordinário Pacheco!
      Gostei muito do seu texto e da forma como falou do seu primo-irmão. É tocante saber que há alguém que compreende as dores que sentimos.
      Lamento a sua perda, dessa maravilhosa referência da sua vida que, percebe-se, é rica de sentimentos, de vivências e de memórias.
      Como diz, e bem, "uma biblioteca não pode ser feita só de um livro".
      Felizmente, a minha tem outros livros bonitos, como a minha mulher, os meus filhos, os meus pais e alguns amigos fiéis.
      É uma biblioteca de afectos, onde só falta o meu amado irmão.
      E é a ela que recorro quando preciso de saber quem sou e para onde vou.
      Obrigado pela amizade!
      Um abraço para a cidade morena

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  10. Este blog havia de ter um sistema igual ao "facebook", simplesmente para podermos pôr um "like". Oh se assim fosse, tantos mas tantos like havia eu de carregar nestes comentários de hoje.
    Saudações lisboetas...

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