O admirável mundo novo

Leio no New York Times um relato na primeira pessoa – «I Was a Digital Best Seller» – de pôr os cabelos em pé. Tony Horwitz, assim se chama a autora, já tinha publicado alguns livros em papel, mas quis dar uma oportunidade ao mundo online, mais ecológico, e aceitou uma encomenda de um livro digital para o The Global Mail. Como a investigação implicava uma viagem (o assunto era o petróleo), recebeu um adiantamento para despesas de deslocação que se esgotou uns dias antes de começar a escrever; mas, animada com o material que recolhera, produziu o texto do livro ao longo do Inverno seguinte, altura em que soube que o jornal negociara a co-publicação do seu livro com uma plataforma digital de renome, a Byliner, conhecida por já ter conseguido vender 75 000 exemplares de vários títulos. Findo o trabalho – e já depois de ter gasto o que não tinha numa garrafa de champanhe a celebrar o fim da tarefa e a sonhar com os lucros – recebeu, no entanto, um telefonema do The Global Mail, explicando que estavam com problemas financeiros e já não podiam publicar-lhe o livro; pior: que a co-edição com a Byliner não tinha, afinal, sido fechada... Neste passo, Tony decidiu (deveria tê-lo feito antes) contactar o seu agente, que conseguiu em 24 horas um contrato com a Byliner, mas um bocado miserável: um adiantamento muito baixo e um terço dos lucros para Tony, sendo que o livro seria vendido apenas a 3 dólares… Uns dias mais tarde, o livro estava na página da Byliner, é um facto, mas sem publicidade, sem comentários nem críticas, perdido entre milhares de outros. Tony apercebeu-se da tragédia e afadigou-se a telefonar a jornalistas e amigos para a ajudarem a publicitar o livro em rádios e jornais e, ao fim de um mês de trabalhos forçados, a obra encontrava-se no Top 25 da Byliner. Só que, quando Tony perguntou quantos exemplares se tinham vendido, recebeu como resposta uns envergonhados 700 ou 800. E, um mês depois, o livro desaparecera completamente da página, como muitos outros, evaporando-se para sempre. Nem a própria autora tinha um livro para pôr na estante – sendo que o texto lhe consumira seis meses de trabalho... Bom, pelos vistos, um best seller digital pode registar vendas de menos de 1000 exemplares, incluindo nos EUA (e portanto convém não nos impressionarmos com os Top das livrarias online); por outro lado, no negócio dos livros em papel, ainda se privilegia o contacto humano, que ajuda muito, e, além disso, os autores têm sempre direito a um certo número de exemplares físicos que podem pôr nas suas estantes.

Comentários

  1. Sou má leitora de livros digitais, não faço ideia das perspectivas de mercado e, ao contrário de tanta gente, quero continuar a ter estantes físicas e a três dimensões, livros de papel com lombadas, alguns já muito amarelos de tempo, cheios de memórias e lugares (nem que sejam memórias salpicadas e gordas de cozinhados). Dá-me prazer sentir-lhes o peso, saber-lhes o cheiro, passar de novo por eles e parar, olhando o que então fui marcado em margens e sublinhados.
    Um livro não é um amigo, mas é um imprescindível e extraordinário objecto de companhia.

    Lamento o debalde da escritora em causa.

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    1. Cláudia da Silva Tomazi15 de julho de 2014 às 06:06

      Dona Beatriz menciona o livro objeto companhia certamente do ponto de vista lúcido embora imprescindível e adianta-se a perspectiva de algo extraordinário.

      Obviamente está a citar do livro objeto físico consistente linear embora imprescindível também virtualmente consistente de conhecimento conceito e lógica aprendizado este que obedece a critérios específicos desde o início estou a falar no volume disponível na rede internet de bibliotecas no espaço virtual acessível globalizada estende-se a cobertura ou lastro a diversidade e aplicativos.

      Bem solidarizo a Dona Beatriz pois nesta era de Brics Papers juntamente a outras bolhas internautas a especular conceito diferenciado prestado a compor ideias da consistência feito livro.

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    2. Cláudia, eu petrifico a lê-la:)

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  2. Numa livraria há o limite da loja para expor os livros físicos, mas são folheados pelos visitantes e o filtro acaba por ser o livreiro que procura atraír com boas obras. Numa livraria online, quem vai estar a ver livros que estão na 30ª ou 47ª página do site? Irão sempre aparecer os livros mais procurados pelos bons comentários.
    Gostei de ler sobre este caso do qual não nos apercebemos enquanto leitores.

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  3. Jose_catarino@sapo.pt15 de julho de 2014 às 02:11

    Só estranho o lamento por não ter produzido um livro em papel: bastaria à autora ir a sites de Print on Demand e em poucos dias receberia os exemplares que tivesse mandado fazer. Não me lembro do nome de sites americanos, mas para nós há, por exemplo, a Publidisa ou a Bubok...
    (Ó Severino, não me ralhes outra vez, quem quer lê ebooks, quem não gosta lê em papel, o importante é que se leia por prazer ...)
    JCC

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  4. Jose_catarino@sapo.pt15 de julho de 2014 às 02:12

    Só estranho o lamento por não ter produzido um livro em papel: bastaria à autora ir a sites de Print on Demand e em poucos dias receberia os exemplares que tivesse mandado fazer. Não me lembro do nome de sites americanos, mas para nós há, por exemplo, a Publidisa ou a Bubok...
    (Ó Severino, não me ralhes outra vez, quem quer lê ebooks, quem não gosta lê em papel, o importante é que se leia por prazer ...)
    JCC

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    1. Ó José Catarino diz o Pacheco (e muito bem) que os e-books têm o seu lugar e vantagens, por exemplo para quem viaja! Não duvido e nem o nego, aceito e compreendo...comungo das palavras dele.

      Devo ainda acrescentar que, se calhar, ao contrário do que eventualmente a grande maioria dos extraordinários, penso até que os e-book poderão, no decorrer do próximo meio século, "arrumar" os livros em papel. Eu bem gostaria de contrariar esta tendência mas não posso parar o vento com as mãos; o mundo está sempre, mas sempre, a cada segundo, em mudança. Por vezes dou comigo a meditar quando digo certas coisas aos meus filhos e penso, mas bolas era isto que o meu pai me dizia e quantas vezes até já digo o que o meu avô me disse e que, na altura, me entrava a dez e saía a dez mil...
      O mundo não pára de girar e quando gira ele está sempre a mudar, e ninguém mas ninguém pode parar a mudança.

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    2. Cláudia da Silva Tomazi15 de julho de 2014 às 04:48

      Bem o tema remonta assunto extraordinário e o Severino emplaca raízes a ninguém ?

      Vai lá Severino manda o mail.

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    3. Resta saber se quando diz aos filhos e repete pais e avós, não conclui que dentro da mudança há invariâncias.

      O mundo pode mudar, mas os homens não se tornam assim tão diferentes. Digamos que as questões humanas são as mesmas só que se vestem de outra forma, consentânea com a época; varia a roupagem, não elas.

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    4. Creio que o homem se adapta às circunstâncias daí eu pensar que no próximo meio século o e-book poderá arrumar o livro em papel.

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    5. Cláudia da Silva Tomazi15 de julho de 2014 às 10:25

      Adapta igual a Descarte a levantar às 05:00 da manhã ?

      igual o polvo o peixe pedra ou girinos ?

      barriga vazia e bolso cheio com balinhas xaxá ?

      Vai Severino conserta o gogó ali : Admirável mundo de Huxley

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  5. Obviamente que convém não nos impressionarmos com os Top das livrarias online mas atenção nem tampouco com os outros Tops (mesmo os dos livros em papel), nem com os prémios disto e daquilo (salvo raras excepções), porque é tudo treta...é apenas o negócio que está implícito, nunca mas nunca estes Tops, estes best sellers foram sinónimos de qualidade, bem pelo contrário. É uma mentira pegada para enganar o consumidor, é o tal o mercado que estes (novos) vendidos e estes trapalhões, por tudo e por nada, botam da boca para fora.

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    1. Mau, mau...então os prémios não valem? Dos tops até concordo, o que mais se lê pode não ser o melhor. Mas sempre supus que um livro premiado há-de ter qualidade. Que raio faz um júri?! premeia os amigos?

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    2. -----------------(salvo raras excepções)----------------

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    3. Beatriz,
      Se ler os livros premiados nos vários concursos que por aí pululam, verá que poucas vezes são grandes livros. Para exemplificar com o prémio Leya: alguns dos textos finalistas publicados pela editora (ou supereditora) são bem melhores que os vencedores; e bastantes óptimos livros terão ficado pelo caminho, ou porque nem sequer chegaram aos elementos do júri (estes apenas lêem, no máximo e às vezes bem menos, dez dos livros concorrentes) ou porque aqueles que lhos fizeram chegar (os "sábios" da editora, que são os verdadeiros poderosos de todo o processo) estão formatados para certos gostos (não são os meus, admito).
      Por isso, à sua pergunta retórica, atrevo-me a responder que os livros premiados terão qualidade, sim. Mas não estarão entre os melhores.
      Os prémios Leya lembram-me "A Romaria", de Manuel Joaquim Reis Ventura, que levou a dianteira sobre "Mensagem", de Fernando Pessoa. Qual a diferença entre os dois? "A Romaria" abordava a poeira dos dias, que é aquilo que editoras e júris apreciam.

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    4. prefiro não acreditar.

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  6. António Luiz Pacheco15 de julho de 2014 às 02:52

    O Mundo Novo ...

    Bem-feita! Digo eu, traça que embora atraída pela luz (das idéias) se alimenta fisicamente do papel, que não do digital ou virtual...

    E digo bem-feita, pois que a senhora quis demais:
    Foi gananciosa, quis ser ecológica e politicamente correcta, quis ser moderna e avançada... pois foi enganada e enganou-se em toda a linha!

    Os livros digitais mais ecológicos que os de papel?
    Desde quando? E em quê? Como?
    Só tontos e desinformados... compare-se uma editora com as máquinas de impressão e uma fábrica de papel, com as tecnologias altamente dispendiosas e os múltiplos componentes que são e produzem materiais e resíduos plásticos, químicos, metálicos (de metais pesados ou radiativos) da indústria digital! A poluição e a extracção, a transformação que gera, e o impacto ambiental de tudo isso...

    O papel vem das árvores... mas estas replantam-se e renovam-se! E nas florestas além de O2 renovado, ainda vivem muitos seres vivos... e no Silicon Valley????? Francamente!
    As mentiras das novas indústrias e dos Al Gores...

    Bem-feita, repito! Bem-feita, bem-feita, bem-feita!

    Os e-books têm o seu lugar e vantagens, por exemplo para quem viaja! Não duvido e nem o nego, aceito e compreendo... mas o papel também as tem! Volto a dizer, tentem forrar a mesa da cozinha ou a gaiola do periquito, pôr debaixo da cama do cão ou embrulhar o peixe, num pc, num ipad ou num artefacto desses...

    Saudações celulósicas da cidade morena!
    PS - ouvi há pouco na Radio Mais que Angola é o país com maior produção livreira da CPLP (os países do Sul do continente africano)... duvido muito... pois a África do Sul tem uma produção muito grande e tem até editoras como a Struik Publishers que são uma referência para livro técnico e científico... mas é bom saber que há interesse nisso!

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    1. António Luiz Pacheco15 de julho de 2014 às 02:55

      PERDÃO: Escrevi CPLP em vez de SADC... era SADC que engloba os países do Sul de África que eu devia ter escrito... os dedos foram mais rápidos que a mente, outra desvantagem do digital!!!!!!

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  7. pois...

    falta o mexer, o cheirar, o folhear e até o marcar...

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    1. Jose_catarino@sapo.pt15 de julho de 2014 às 05:28

      Não, só falta o cheirar. Mexe-se, folheia-se, marca-se, anota-se, compartilham-se excertos no digital, com maior facilidade do que no papel. E aumenta-se o tamanho da letra, acede-se ao dicionário em rodapé entre muitas outras vantagens. Como a de transportar connosco toda uma biblioteca com peso inferior ao de um único livro. Mas atenção: leio muito nos dois suportes, procurando as vantagens de cada um deles.
      JCC

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    2. José Catarino, falo do "mexer" no papel, do som do virar da folha, do marcador de papel.

      claro que se pode fazer tudo no digital, mas é diferente.

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  8. "o livro estava na página da Byliner, é um facto, mas sem publicidade, sem comentários nem críticas, perdido entre milhares de outros" - o destino de 90% dos escritores...

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  9. Cláudia da Silva Tomazi16 de julho de 2014 às 05:24

    Sofisticadas(os) .

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