Que mais inventar?
Já todos vimos livros à venda com ofertas: de lápis, echarpes, perfumes, leques e sei lá que mais. Mas, na generalidade, trata-se de romances levezinhos, de componente romântica, vendidos a senhoras que gostam de histórias da carochinha e que, se não comprassem livros, comprariam as revistas de sociedade (que, não por acaso, também oferecem malas, faqueiros, bolsas de praia e tralha de cozinha). Só que agora vem aí um livro supostamente sério (bem, pelo menos, o autor é mencionado sempre que estamos à espera de saber quem ganha o Prémio Nobel da Literatura – o que considero um exagero, mas há quem não concorde) e traz uma folha de autocolantes de brinde para os leitores enfeitarem as páginas do romance... Não, não é brincadeira: trata-se do próximo livro de Haruki Murakami e a dita folhinha inclui ilustrações de cinco artistas japoneses famosos. Ao que parece, o nome do protagonista – em japonês, Tsukuru – significa «construir» e, assim, é dada ao leitor a possibilidade de ir construindo qualquer coisa ao longo da leitura, colando aqui e ali um dos bonitos stickers. Não sei se a ideia foi do marketing editorial, se do autor, porque os japoneses, ao que sei, apreciam brinquedos na idade adulta (vi uma reportagem sobre a matéria há uns anos e lembro-me de um administrador da SONY que coleccionava Barbies, tinha mais de 300); também não sei se aqui na LeYa os autocolantes se irão manter, mas lá que me parece mais uma forma de infantilizar o leitor, parece. Um dia destes, ainda vendem o Roth com páginas para colorir. Nem quero imaginar quais vão ser as ilustrações...
A versão e-book de certeza que não terá os autocolantes, mas arranjarão alguma forma do leitor se distraír do texto.
ResponderEliminarA partir daqui poderiam editar livros com música a acompanhar a leitura.
Ou autocolantes para fazermos a capa ao nosso gosto. Mais do que a criatividade do escritor, há que puxar pela do editor.
Bom fim de semana a todos!
Já vi, no blog do Henrique, muitos desenhos que davam belas capas, interessantes ilustrações. E até belos auto-colantes para os leitores personalizarem a interpretação da leitura - como lhes compete... que eles também fazem parte do processo do livro.
Eliminar(Esta ideia do livro interactivo dá-me que pensar. Se calhar com o tal e-book...)
Recordo o realizador norte americano, Michael Moore:-o capitalista vende-nos a corda com que se há-de enforcar se puder ganhar um dólar com isso.
ResponderEliminarAfinal este Murakami (e gostei dos livro que dele já li, embora sempre com um cheirinho a 575...), é igualzinho, sem tirar nem pôr, àqueles livrinhos que vejo dentro de saquinhos com lacinhos e que tanto me entristecem... eles vendem-se por dez réis de mel coado, afinal parece que tudo e todos têm um preço...infelizmente. O carácter e a dignidade parecem ser valores da pré história e é preciso andar sempre com uma vela acesa para os encontrar (afinal, como o outro... já dizia há mais de mil anos).
Pode ser mais uma forma de incentivar a leitura...de literatura! Não me parece grave. Um bom fim de semana.
ResponderEliminarQue cromos!
ResponderEliminarHá excepções bem simpáticas e originais e eu lembro-me já desta: o chapéu de chuva que recebi quando comprei o livro do Afonso Cruz (esse, Para onde vão os chapéus de chuva :)
ResponderEliminarBom fim de semana Extraordinários
Ana Peixoto
Será infantilizar o leitor, por certo, mas eu diria que de cada vez que alguém larga um écran ou revista cor de rosa para pegar num livro, o saldo é positivo.
ResponderEliminarA única coisa que eu gostaria que me oferecessem com um livro seria um chocolate para acompanhar a leitura! Sobretudo no Inverno... ;)
ResponderEliminarMarta Correia
"Roth para colorir" devia ser um espectáculo. eheheh
ResponderEliminarDe Murakami só li "Crónica do Pássaro de Corda". Até percebo a sedução de um ritmo narrativo quase hipnótico, o adormecimento em vagas sucessivas de palavras sem sobressaltos... Pois. Mas dificilmente me convencerão que o que ali está contado não se contava em metade dos caracteres. E, já agora, com um bocadinho mais de tripas à mistura. Dito isto, já dei para o Murakami. Com ou sem autocolantes.
ResponderEliminar"Sinaleiros do bem são aqueles que o praticam"
ResponderEliminarLivro da Sabedoria de Kabus
( Persa, século II d.C. )
Qual significado inventar-se ?! Haveriá-se questionar marketing editorial ou sinal de tempos em prol competitividade...
Necessidade coisa outra; eis palavra expressa pensamento este flui idéia.
A idéia por sua vez, acentua ideal fazendo-se meta:
- o patrocínio altura
- a constância argumento
Por vezes aparecem livros que oferecem letras. Uns caracteres pretos normalmente vincados em páginas brancas. Apresentam-se bem. Juntinhas em manchas quase uniformes nas folhas que as recebem. Os olhos vagueiam por elas e tentam passar ao cérebro qualquer coisa que com ele fale. E nada. Acaba-se o livro e arruma-se na estante não um livro, mas um monte de folhas mascarradas.
ResponderEliminarMas o que eu gosto, gosto mesmo, é daqueles livros em que as letras desaparecem e se transformam numa planície de África, no interior do coração de uma personagem, da neve a cair no mar, dos cabelos como árvores a enlaçar o mundo. Eu, que não sei dançar, já me vi a bailar descalço sobre gelo quente. Já me vi a chorar perante a incompreensão pelo vilão apanhado, já me ri com trapalhadas iguais às que faço e não confesso. Quando arrumo esse livro sem letras, não é um volume que deponho na prateleira. É um pouco da minha vida a que, bastas vezes, volto.
Quando conheço uma história, não quero malas, lápis, chapéus de chuva ou rebuçados. Quero letras que desapareçam. Porque o que eu gosto, gosto mesmo, é de livros com livros lá dentro.
«mascarradas ou mascavadas... ou livros connosco lá dentro!» Sem dúvida!
EliminarÉ bem verdade. Mas o pior é que há gente que gosta dessas palermices. Desconfio dos japoneses desde que vi um programa em que eles, para se sentirem mais felizes e menos sós, iam fazer festas a uns animais que estão só para o efeito. Falaram-me em solidão, na lendária falta de espaço...mas no dito programa tb havia um ou dois rapazinhos que preferiam fazer festas aos bichos a investir numa amizade com uma pessoa. Diziam que sofriam menos e outras balelas. Como se sofrer não faça parte e se possa alienar de todo, supondo que se continua a ser pessoa.
ResponderEliminarSe nos põem um marcador dentro do livro é uma ideia bonita e útil; tudo o que vai além disso - não sendo outro livro - é quase sempre um estorvo