Diários do inferno

Não é preciso gostar especialmente de textos diarísticos para pegarmos nos Diários de George Orwell, o famoso autor de O Triunfo dos Porcos. Estes incluem muitos episódios vividos pelo seu autor entre 1931 e 1949 (morreria tuberculoso no ano seguinte) nas mais de setecentas páginas da tradução portuguesa agora publicada, incluindo as viagens que realizou na juventude; mas são também reflexões muito importantes em termos de observação social (condições de vida dos mineiros, por exemplo) feitas por um homem que, relativamente bem-nascido na então Birmânia, decide ainda jovem abandonar o bem-bom familiar e expiar a culpa da sua «superioridade» vivendo entre mendigos e operários nas ruas de Londres e nos bairros de lata de Paris. Porém, as páginas dominantes nesta longa compilação dos seus cadernos – onze, para ser mais concreta – são as de comentário político, nomeadamente durante os anos da Segunda Guerra Mundial, em que o jornalista e escritor britânico assistiu ao dealbar dos regimes totalitários na Europa – na Espanha de Franco, na Alemanha de Hitler e na União Soviética –, que acabaram muito provavelmente por inspirar e servir de preâmbulo às suas obras mais emblemáticas entre nós: a atrás referida e, acima de tudo, a conhecida distopia 1984; aliás, falta neste volume um conjunto de textos apreendidos pelos esbirros de Estaline que contêm seguramente anotações preciosas – ao que parece, um diário da sua permanência na Guerra Civil espanhola – e que ainda hoje estará guardado nos Arquivos de Moscovo. Orwell combateu em Espanha ao lado de uma milícia de tendência trotskista, tendo sido ferido no pescoço. Não podendo alistar-se na Guerra Mundial em 1939 por causa da sua saúde débil, foi como correspondente da BBC Índia que, posteriormente, comentou o conflito, num momento em que já era um conceituado jornalista, famoso pela denúncia das injustiças sociais e grande opositor do totalitarismo. Portanto, para quem se interessa pela história da Europa no século XX – mesmo que não seja um grande apreciador de diários –, esta é uma boa sugestão de leitura.


 


Comentários

  1. Sobre a sua vivência entre mendigos e operários nas ruas de Londres e nos bairros de lata de Paris apreciei "Na Penúria em Paris e em Londres" (da ANTÍGONA), que li já há uns tempos; gosto deste tipo de Diários e irei estar atento e, logo que possível, quero lê-lo, pois a vivência de George Orwell é o exemplo de uma vida intensa de um homem muito interessante. Obrigado por mais esta excelente sugestão.

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  2. Cláudia da Silva Tomazi29 de julho de 2014 às 03:37

    Dita simetria centralizada .

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  3. Este, sim, irá fazer parte do meu cardápio de ruminante de bits e bytes. Deixem-me dar uma galegada: mas não há nada melhor para um "devorista" de palavras, sejam elas absorvidas, sejam elas excretadas, do que ficção "diarística" contida na realidade. Junta-se às palavras de Sartre, que chega (por agora) de achaques, floreados e eflúvios de nenúfares.

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  4. Cara Maria do Rosário Pedreira: a mais recente tradução, entre nós, de «Animal Farm», traduziu o título do livro (que, é claro, conheceremos por muito tempo como «Triunfo dos Porcos») como «A Quinta dos Animais». Trata-se de mais uma tradução excelente de Paulo Faria (Antígona, 2008), que talvez fosse justo lembrar. Mesmo que o título «Triunfo dos Porcos» esteja tão tatuado à nossa memória colectiva...

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    1. Fez bem em dizer. Paulo faria é um grande tradutor.

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    2. Penso que uma das anteriores traduções do "Animal Farm" é do José Pacheco Pereira. Será dele a criativa tradução (de que gosto!) do título para "O Triunfo dos Porcos"?

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    3. Já agora, meto a minha colher para dizer que gosto mais do título «A Quinta dos Animais».

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  5. António Luiz Pacheco29 de julho de 2014 às 04:56

    Descobri G. Orwell em 1984. aquando da onda Orwelliana desencadeada então!

    Era apresentado sempre como comunista, um antifascista que lutou na Guerra Civil Espanhola... hoje é diferente e diz-se com rigor que ele foi um anti-totalitarista!
    Convém fazer a diferença e a justiça a este homem extraordinário e livre!

    Um livro a ler, sem dúvida!
    Aliás sou leitor habitual deste género, onde se viaja pelo Mundo dos homens e o outro, através da mente e dos olhos de quem escreve! Sendo pessoa de vulto, vale sempre a pena ler o que têm para dizer e saber o seu pensar ou sentir, mesmo que não se concorde ou sinta diferente.

    Saudações livres de Cabinda prisioneira...

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  6. A palavra que nasceu comigo em 1949 foi criada por George Orwell no seu livro “1984”.
    É “newspeack”.

    São já longos os anos de vida da nova palavra, e consumado que está o “triunfo dos porcos”, podemos actualmente traduzi-la para português como “paleio neoliberal”.

    Em 1984 tinha eu já os meus bons 35 anos, mas, nessa altura, entretido com as minhas/nossas utopias, não reparei a tempo que, debaixo dos nossos narizes, estava em crescendo o paleio que levou à consagração global da sociedade de consumo, supra-sumo do domínio totalitarista do capitalismo pela alta finança internacional.

    E agora, quase 30 anos passados, em que deram, afinal, as nossas utopias?

    Admitamos: deixamo-nos ir no paleio, não soubemos denunciar o newspeack – não soubemos valorizar as nossas causas.

    Em suma, não seguimos esta recomendação de Orwell, que se encontra numa carta a um amigo, datada de 1944 (que talvez seja referida nos “Diários” hoje aqui trazidos):
    «Desde que a guerra contra o totalitarismo começou, em 1936 [na Guerra Civil de Espanha], creio que a nossa causa é a melhor. Mas para que continue a ser a melhor, necessitamos duma autocrítica constante.»

    Ora aí está! – A nossa causa é a melhor.

    Um dado importante é que tudo o que agora é real começou por ser uma utopia.

    E se a História vale de alguma coisa, este dado também e importante: – tudo o que agora é utopia será, mais tarde ou mais cedo, realidade.

    Assim saibamos nós – para que a nossa causa continue a ser a melhor – fazer constantemente a autocrítica.

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    1. Cláudia da Silva Tomazi29 de julho de 2014 às 05:46

      Caro Joaquim Jordão se a palavra " newspeack " nasceu com carinho na próxima nasce a que jeito ?

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    2. Ó JJ nós precisamos é de empreendedores, tipo Miguéis Relvas e se tivéssemos a sorte de ter pelo menos 10 Ricardos Salgados, 100 Oliveira's e Costa's , 1.000 Dias Loureiros, não sei quantos Duartes Limas com um Paços Cu elho e um cavaco seríamos realmente um país empreendedor, ultra-moderno , ultra liberal e que ninguém tivesse pena de nós pois ninguém nos segurava... assim continuaremos uns pelintras...de bandeira na lapela a vender comunidades...

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    3. António Luiz Pacheco29 de julho de 2014 às 07:14

      Interessante reflexão, se me permitem opinar, Extraordinário J.Jordão - e passe a cacofonia.

      Newspeack é também a proposta ao Oldspeack, o inglês clássico e recorrente na imprensa britânica, mas que não ia ao encontro do Engsoc que a modernidade exigia ou que os modernos queriam impor... isso já não sei... Lembro-me de ver isto algures numa daquelas muitas coisas que a gente vai lendo por aí!

      Orwell foi um visionário, a história e a literatura estão repletas deles.
      Pois que seja mais um desafio e uma razão para que mergulhemos na leitura!

      Mas, é um pau de-dois-bicos, porque se ajuda a manter a capacidade de discernir e de pensar por nós-mesmos, a literatura é igualmente uma forma de alienação e de condicionar pela propaganda o pensamento de cada um.

      Saudações literárias de Cabinda para Amarante!

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  7. Cláudia da Silva Tomazi29 de julho de 2014 às 07:33

    Enfim do abaco à bacora há quem entenda .

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  8. Mais uma boa sugestão de leitura da MRP. Fiquei curioso, pois identifico-me com as posições de Orwell. Infelizmente dele só conheço Animal Farm. O último livro que li, na semana passada, é um diário: O diário de António Maria, o grande cronista brasileiro da época da bossa nova e autor de clássicos da canção brasileira. Um diário nada político, mas todo virado para as alegrias e dores do próprio diarista.

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  9. Como alguém já disse acima, devem ser interessantes os diários de quem discorre de forma original e sabe passar à escrita o discorrido.

    Apraz-me a leitura de diários.

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    1. Beatriz - já leu Conta-Corrente, do Vergílio Ferreira?

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    2. Não. Mas iria gostar bastante, decerto. Tenho de lê-lo, é mesmo um must have. Os de Miguel Torga são uma maravilha.

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  10. E o ASeverino já leu os Diários do Miguel Torga?
    Absolutamente indispensáveis, na minha opinião.
    :-)
    Antonieta

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    1. Ainda não li mas tenho-os.

      Em 2004 a PLANETA AGOSTINI editou a obra completa de MIGUEL TORGA em 27 volumes, que na altura comprei, um a um; mas, não sei porquê, falta-me um volume (PORTUGAL -de 1950-). Quero muito lê-la (a obra completa), mas o problema é que quero ler tudo e quando acabo um livro ando ali às voltas completamente zonzo sem saber em qual hei-de pegar, ainda por cima requisito livros em pelo menos duas bibliotecas, e ainda ontem trouxe mais cinco...e quando é que leio os que tenho em casa????

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