Partida ao meio
A Casa Fernando Pessoa meteu-me numa camisa de doze varas, mas agora já não há como recuar. Amanhã, pelas 17h30, participarei numa conversa no âmbito do Congresso de Fernando Pessoa – e, diga-se de passagem, irei dividida ao meio. Trata-se de juntar a uma mesma mesa uma espécie de gente a dobrar, ou seja, intervenientes que, além da escrita, têm uma segunda actividade ligada aos livros que afecta (ou não) a sua produção literária. Editores, tradutores, antologiadores, serão prejudicados como escritores por fazerem o que fazem no dia-a-dia? A matéria onde metem a mão no quotidiano ajuda-os a alargar os horizontes da sua obra ou, pelo contrário, castra-a ainda mais? O tempo (que não têm) é um problema para os seus escritos, tantas vezes dentro da cabeça mas impossibilitados de serem passados a letra de forma? Como convivem na mesma pessoa as duas personagens? Bom, as minhas respostas dou-as lá, e se quiserem sabê-las é ir, meus senhores.
Quer dizer: estas pessoas “partidas ao meio”, sendo, como diz, “gente a dobrar”, para mostrarem o que valem têm de ser capazes de se desdobrar entre a eira e o nabal – e assim alcançar a antiga utopia versejada por Alexandre O’Neill:
ResponderEliminar(...)
No céu (para colorir)
a nuvem, pontual,
aguarda a vez de ser
chovida no nabal,
enquanto o Sol dardeja
na eira proverbial.
(...)
"...serão prejudicados como escritores por fazerem o que fazem no dia-a-dia? A matéria onde metem a mão no quotidiano ajuda-os a alargar os horizontes da sua obra ou, pelo contrário, castra-a ainda mais? O tempo (que não têm) é um problema para os seus escritos, tantas vezes dentro da cabeça mas impossibilitados de serem passados a letra de forma? Como convivem na mesma pessoa as duas personagens?"
ResponderEliminarAtrás das reticências desta citação, não caberão outras profissões? Pedreiro de corpo moído, taxista de noites perdidas, empresário de cabeça cheia? Tantos exemplos. Não será o estômago o maior empecilho da criação?
Ora bem! Bem gostava de ouvir. Tudo o que é vida alarga com certeza os horizontes, mas o tempo que não temos é um castrador terrível que não nos decepando a vontade, anula o acto.
ResponderEliminarRosário, se eu fosse famoso e me convidassem isso para mim era canja.
ResponderEliminarPor outro lado, as frustrações, as vivências, as arrelias do quotidiano dão matéria para a escrita. Escrever como catarse, escrever para construir mundos alternativos.
ResponderEliminarJCC
O Fernando além de Poeta era Pessoa, além de poemas escrevia cartas comerciais. E havia de fazer mais coisas pois ele era mais que dois seres.
ResponderEliminarAlgum texto que a Rosário vá escrever e ler na Casa Fernando Pessoa e que depois possa partilhar aqui com os que vivem longe de Lisboa?
ResponderEliminarDesta vez não levo texto, será uma conversa e espero as perguntas para poder responder. Um abraço.
EliminarObrigado pela resposta ! Espero que a troca de ideias tenha sido interessante e que a Rosário tenha saído com a jura: "vou organizar a minha vida com tempo de escrever um novo romance".
EliminarÉ onze varas, camisa de onze varas.
ResponderEliminarNão me pergunte porquê, não sei.
Afinal, está aqui, onze varas:
Eliminarhttp://www.terra.com.br/curiosidades/cultura/cultura_17.htm