Os novos jornalistas

Conheço alguns jornalistas que escrevem e falam bem e sou até admiradora da prosa e da inteligência de alguns. Também sei de outros que, não sendo brilhantes, fazem apesar de tudo o seu trabalho competentemente – e trabalham muito, a avaliar pela quantidade de páginas que nos oferecem semanalmente. E, porém, na mesma semana em que tive conhecimento dessa notícia dramática que é o despedimento de cerca de 60 jornalistas – entre profissionais do Diário de Notícias, TSF, Jornal de Notícias e O Jogo, alguns muito bons –, tomo contacto com histórias de outros que são de bradar aos céus. Alguém publicou, por exemplo, a notícia, com fotografia e tudo, de que Maria João Avillez iria receber a mais alta condecoração do Estado a título póstumo. Ora, certamente a confundiram com a irmã, Maria José Nogueira Pinto, pois Maria João está vivíssima da costa. Desagradável, claro, matar alguém antes de tempo e assustar os amigos... Numa conversa com o Manel, fico a saber que um jornalista de uma revista de grande tiragem lhe telefonou por causa de um artigo sobre Herberto Helder que tinha de escrever e que, quando o Manel lhe explicou que o poeta não dá entrevistas e já não sai praticamente de casa, perguntou onde arranja ele então inspiração para os poemas... Não contente com isso, acaba a conversa a perguntar se Herberto cozinha bem, uma vez que passa tanto tempo em casa (em casa só se cozinha, está visto). Não deve ter ideia nenhuma da idade do poeta, nem de quem é, nem do que escreve, mas a verdade é que foi a ele que pediram o artigo, o que parece ainda mais estranho. E não é tudo: também me contam que, por causa dos itens do orçamento de Estado chumbados pelo Tribunal Constitucional, uma jovem jornalista disse na redacção onde está a estagiar que a Constituição é realmente um livro muito chato, que detestou ler porque tem partes que não se percebem. Há mais, claro, mas fico por aqui para não cansar. Em vez destes estagiários tontos sem editores que os encaminhem e ensinem, devíamos ter alguns dos jornalistas que todos os anos são despedidos. Não me parece que os jornais sobrevivam com estes miúdos, mas dizem-nos que é justamente para poderem sobreviver que despedem quem despedem...

Comentários

  1. O problema da ignorância dos jornalistas é magistralmente tratado por Mário de Carvalho em Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, obra que já tem uns bons anitos.
    JCC

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  2. noto alguma inocência nas palavras da Rosário.

    numa época em que o dinheiro é a única coisa que conta, é normal que patrões e até directores de jornais prefiram ter jornalistas estagiários praticamente de graça, a pagar ordenados de dois mil euros (que nem é nada demais, se pensarmos que qualquer assessor dos ministérios, com vinte e poucos anos recebe mais de três mil biscas...) a jornalistas competentes, que ainda por cima são capazes de serem incómodos, ao não aceitarem muitas das ingerências que entram pelas redacções...

    infelizmente, a qualidade passou a ter uma importância relativa.

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  3. Todos temos de aprender e todos cometemos erros pelo caminho. Sem querer dividir o mundo em preto e branco - tal coisa não existe - os exemplos que Maria do Rosário Pedreira assinala são, muito provavelmente, de pessoas que já estando a trabalhar, auferem uma pequena miséria. Algumas serão novas de mais para conhecer as figuras sobre quem escrevem, outras ainda não terão tido oportunidade de criar calo na profissão e no mundo que as rodeia. Se há erros que não são admissíveis, até porque os textos publicados devem ser lidos por mais do que uma pessoa, a verdade é que, no caso de Herberto Helder, a atitude da jornalista revela vontade de trabalhar e arranjar uma história apesar das adversidades. Se foi por caminhos espinhosos, não há qualquer dúvida, mas não desistiu e isso também devia ser de louvar. São miúdos mas, daqui a uns anos, não muitos, serão profissionais que tiveram de crescer a pulso, muitas vezes sem ajuda dos tais editores pagos a peso de ouro que, de tão preocupados com o fim do jornalismo, deixaram de o alimentar para ser melhor todos os dias.

    De uma jornalista em stand by com mais de dez anos de carteira.

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  4. António Luiz Pacheco25 de junho de 2014 às 03:45

    Não me espanta nada!

    Sempre assim foi, e recordo que houve jornalistas despedidos (saneados...) dos jornais e TV por razões políticas, após o 25 de Abril!

    Agora há jornalistas despedidos porque outros fazem o trabalho mais barato...
    Como então a qualidade pouco conta, na altura porque importava noticiar o que interessava e como interessava! Hoje, porque a catadupa de informação que se obtém na net ou nas cadeias de TV internacionais (ditas "independentes") consegue suprir a falta de profissionalismo, de verve e tudo o mais...
    O que conta é informar e não o "como" ( a qualidade). Aliás, desde que haja escândalo, drama, romance... é o que basta!

    Este panorama interessa ao que se pretende:
    - A alienação do leitor/"espetador", e, a rentabilização financeira, pois o que vale é aquele tipo de notícia sem qualquer tipo de preocupação literária mas sendo o que vende, também rende páginas de publicidade!

    Não duvidem os Extraordinários de que existe interesse em acabar com gente como nós, aqui deste blog e outros... em acabar com a informação qualitativa, com o pensar por si e na identidade própria.
    O liberalismo, nascido das fusões da esquerda pseudo-libertária e irresponsável com a nova direita não-tradicional que tem estado oculta, com uma profunda raiz economicista e de geração espontânea, surgida da necessidade de equilibrar a tal esquerda dita social mas irrealista e não sustentável, este apregoado liberalismo que se diz anti-racista, pro-gay, pro-animal, pelos direitos humanos, ecologista, antiviolência, que se apregoa religioso e socialmente tolerante... é na verdade protofascista, pois ao pretender englobar tudo numa amálgama confusa, contraditória e até opressora, exclui tudo aquilo que não faz parte ou não possa controlar, algo do género: o que não esteja nele regulado é proibido!

    O fim é controlar tudo... o pensamento e as vidas, e, sem dúvida que a destruição, seleção e controle da informação é um passo fundamental para isso!
    As ligações e fins dos Bilderberg, ou dos Skull and Bones, passam por aí... pelas cadeias da informação e o seu domínio.

    Desde a Inquisição, a propaganda NAZI e a agit prop, que sempre foi o sonho dos tiranos ou dos totalitários - daí a minha referência às purgas do pós-25 de Abril.

    Saudações da cidade morena!

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    1. Ó Pacheco - a vila morena conheço agora a cidade morena é que me está a escapar...

      Ana Pacheco...

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    2. António Luiz Pacheco25 de junho de 2014 às 06:21

      Benguela, a cidade morena!
      É onde me encontro actualmente... e muito contente diga-se de passagem!

      Mas fizeste bem em perguntar... afinal de Cláudia todos temos um pouco... ahahah!
      Com o maior respeito pela Cláudia, notem!

      Um abraço

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  5. Cláudia da Silva Tomazi25 de junho de 2014 às 04:56

    As vezes engana-se fazer juízo exemplefico trazendo à tona escandalosa atitude de Gertrude Stein contra um jornalista na altura denominou-o "geração perdida" quando na realidade seria futuro Nobel Ernest Hemingway em resposta disse-lhe :

    - back go home.

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    1. António Luiz Pacheco25 de junho de 2014 às 06:26

      Hum... mas comparar o "Papá" a esta outra classe de jornalistas... a Cláudia não conhecerá talvez a realidade a que a Nossa Extraordinária Anfitriã alude... prémios Nobel algum deles, talvez da Paz ou da Física, da literatura jamais! Se bem que um vencedor do Nobel tenha começado exactamente por fazer uma purga política no jornal onde foi diretor! Anos depois queixou-se de ser preterido ou mesmo segregado por razões políticas e auto-exilou-se, trazendo-nos à lembrança o adágio: "Quem com ferro mata, com ferro morre!".

      Saudações da cidade morena para si!

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  6. Perdeu-se, infelizmente (penso eu), a milenar e intrínseca arte de os mais velhos passarem o conhecimento para os mais novos, assim se conservando o espírito, a qualidade, enfim, a cultura das empresas/dos jornais/dos clubes/das instituições, etc.etc., algo que está na génese do ser humano e animal.

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    1. Cláudia da Silva Tomazi25 de junho de 2014 às 06:31

      Bem Severino o jornalista Eric Frosie do L'Equipe têm opinião formada lá vencedores (segundo diz) o DNA agora só falta nos dizer que você Severino também é jornaleiro.

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    2. Ó Cláudia lamento dizer mas, com grande pena minha, não entendi a sua resposta e, acredite, gostava sinceramente de a perceber, de a entender.

      Saberá a Cláudia o que é um jornaleiro em Portugal? é que é bem diferente de um jornalista.

      JORNALEIRO-operário que trabalha à jorna; também poderá ser um vendedor de jornais
      JORNALISTA-Pessoa que por profissão (ou hábito) escreve em jornais

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    3. não vou por aí Severino.

      hoje existe mais proximidade nas redacções que há trinta, quarenta anos e cinquenta anos, em que alguns jornalistas eram tratados por senhor fulano tal.

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    4. Cláudia da Silva Tomazi25 de junho de 2014 às 13:09

      Claro lusa diferença, brasileiro jornalista não é reconhecida classe de categoria profissional.

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  7. Cláudia da Silva Tomazi25 de junho de 2014 às 06:59

    Critério desempate: Jingle bell, jingle bell... 1940.

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  8. Apenas uma "pequena" (enorme em termos humanos) correcção: não são 60 os jornalistas a serem despedidos no grupo Controlinveste, mas sim 160.

    Rui Miguel Almeida

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    1. caro Rui,

      poderão não ser sessenta, mas também não serão os 160, porque neste número não estão englobados apenas jornalistas, há também pessoal com funções de apoio técnico e logístico ao grupo.

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    2. Olá Luis,

      Erro meu, então. Retive de memória uma notícia em que seriam dispensados 160 colaboradores (140 por despedimento colectivo e 20 por acordo, ou algo assim). Deduzi que fossem todos jornalistas. Pensei que a nossa anfitriã tivesse comido um 1 ao digitar o número "mágico".

      Cumprimentos,

      Rui Miguel Almeida

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  9. Sem jornalistas e o seu código deontológico (pena é que nem todos o sigam) o que é que nos resta?

    Boatos e o diz que disse?

    O que será feito da verdadeira noticia?

    Terá espaço entre as páginas cor-de-rosa do Correio da Manhã?

    O que acontecerá à seriedade das respostas e -
    ainda mais importante - à seriedade das perguntas?

    O caminho bifurcado do futuro segue o seu caminho... Os informados e os desligados... A isso seremos reduzidos.

    Nas reuniões dos Bilderberg devem estar satisfeitos. O caminho para o anarcocapitalismo segue imparável.

    Há-de chegar o dia em que para se ter liberdade teremos de se pagar a um empresa e não a um estado.

    Questão:
    Como se mata a cidadania?

    Resposta:
    Ignorância, boatos infundados, mentiras, falácias, inverdades, invenções e, acima de tudo, desinformação.





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    1. Excelente, esta análise do Vítor Ferreira (na minha perspectiva, claro).

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  10. A forma como o Extraordinário Pacheco interpreta a ação de Saramago no Diário de Notícias é a mesma, creio, de Miguel Sousa Tavares quando lhe fez uma longa entrevista na televisão. Mas Saramago contraditou-o e contou a sua versão. Sousa Tavares ouviu-o e respondeu-lhe "Está bem, concedo-lhe" e preparou-se para lançar outra questão. Saramago interrompeu-o e disse-lhe "Não Miguel, não me concede nada. Eu vou repetir". E repetiu perante o evidente mal-estar do jornalista. Sousa Tavares ouviu, ouviu e no fim passou à questão seguinte.

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    1. António Luiz Pacheco25 de junho de 2014 às 15:22

      Posso estar a interpretar mal... e não sei qual a de Miguel Sousa Tavares, como não conheço a versão de Saramago. Apenas conheço a versão que corre e me foi relatada por alguém que sofreu com ela... e foi essa mesma: foram despedidos jornalistas (e outros colaboradores) do jornal, por "falta de confiança política", ou seja porque não eram do PCP e da confiança da direção.
      Aconteceu o mesmo em outros jornais e na RTP, e em muitas empresas onde comunistas ou ditos revolucionários foram guindados às chefias.
      E isto é um facto, não é uma interpretação...

      Mas aguardo com curiosidade tanto a interpretação de MSTavares quanto o que lhe disse Saramago nessa entrevista.

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