Blues café

Estamos sempre a tempo de apanhar o comboio do passado – e eu estou apostada em fazer ainda algumas viagens que deveria ter empreendido há muitos anos. A Feira do Livro ajuda-me normalmente a recuperar o tempo perdido com os seus saldos, e este ano não foi excepção. Por uns míseros euritos – já não sei se dois, se três –, comprei essa pequena maravilha que faltava às minhas leituras (sim, é uma vergonha, e nem tenho desculpa, pois foi um dos livros de juventude do Manel) chamada A Balada do Café Triste, de Carson McCullers, escrito em 1951 (a tradução é de José Guardado Moreira, embora o escritor José Rodrigues Miguéis tenha traduzido outros livros da autora) e considerado por Tennessee Williams uma das obras-primas da literatura em língua inglesa. As personagens tinham tudo para dar errado – uma estrábica, um corcunda e um ex-presidiário – mas a verdade é que ficam ao nosso lado todo o tempo como amigos que não queremos deixar e dos quais nos vamos apiedando à vez (ou com os quais nos vamos irritando). E, como se estivéssemos dentro do café (que abre as suas portas por acaso e as fecha para sempre depois de um combate desigual), vamos prestando atenção a todos os que por lá se sentam bebendo o whisky que Miss Amelia destila (a muitos as mulheres não os deixam beber em casa) e acompanhando, com respeito e alguma mágoa, a vida desta rapariga rica do Sul que esteve casada apenas dez dias e se apaixonou uns anos mais tarde por uma criatura bastante atípica. Mas não é a história que importa, é uma maneira de escrever brilhante, com apartes inesperados, interpelações curiosas ao leitor e descrições belíssimas. Tristes, como o café, ficamos por ser tão pequenino, tão rápido de ler.

Comentários

  1. Gosto muito da Carson McCullers e juntaria a este outros dois títulos:
    O Coração é um Caçador Solitário e o Reflexos num Olho Dourado, que deu origem a um excelente filme com o Marlon Brando e a Elizabeth Taylor.
    Comprei recentemente os Contos Escolhidos (tradução de Ana Teresa Pereira) e só posso recomendar.
    Aqui não há Feiras do Livro, nem livros a 2 ou 3 euros, ainda assim valeram bem o que paguei por eles.
    Bem, aparecem livros baratos mas não de autores que me interessem...
    Antonieta

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  2. Cláudia da Silva Tomazi26 de junho de 2014 às 03:36

    Facto este ela entende a boa leitura.

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  3. Há muitos anos li um livro (O Coração é um caçador solitário) da Carson McCullers mas "passou-me ao lado" mas foi há tantos anos que, "calhando", agora até serei capaz de adorar...creio que isto acontece-nos a todos nós leitores, ou não?

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  4. Carson é um dos meus escritores preferidos. Amo tudo o que dela li, que foi muito. É uma paixão que vem da adolescência, que começou com o filme e depois o livro The Heart is a Lonely Hunter, continuou com The Ballad of the Sad Cafe (leitura obrigatória nas aulas de inglês no British Council em Lx!) e nunca mais parou até hoje. Procurem os filmes baseados nas suas obras, que geralmente são bons. Mas não esqueçam de ler os livros, que são melhores e inesquecíveis.

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  5. A propósito de Café ando há uns anos para ler um livro que não consigo encontrar (não sei se é bom-alguém leu?), "CAFÉ HUGO" do Adolfo Garcia Ortega.

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  6. Livros que noutros tempos me passaram ao lado e hoje considere deliciosos, não me lembro de nenhum, embora em jovem tenha gostado muito d'A Ponte sobre o Drina (Ivo Andric ) e há poucos anos tenha gostado muitíssimo.
    O inverso é que tem ocorrido com alguma frequência, a ponto de me perguntar "como é que eu gostei disto?".

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    Respostas
    1. amalivros - absolutamente!

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    2. António Luiz Pacheco27 de junho de 2014 às 04:01

      Não deixa de ser curiosa a constatação...

      Claro que na nossa vida temos fases, e sobretudo amadurecemos ou evoluímos, mas isso não tem de significar que se deixe de apreciar, antes que se alargue o leque das nossas preferências, pois são novas portas que se nos abrem!

      Hoje já não leio Enid Blyton... não porque deixei de gostar, mas porque passei a ter outros interesses! No entanto gostei dos livros "Uma aventura..." ou dos "Cinco" ... e ainda gosto, só que avancei e estou noutro patamar.

      Nunca me sucedeu ter gostado de um livro, e depois ter alterado o sentimento para com ele, se bem que, possa ter diminuído o entusiasmo pelo género, mas deixar de gostar, nunca!

      Também não consigo deixar de gostar das pessoas, por muito que me desiludam ou magoem, o que já aconteceu...

      Saudações africanas!

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