Americanos intranquilos
Aqui há uns tempos, alguém quis retirar As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, dos programas de ensino nos EUA, alegando que tinha passagens racistas e ignorando completamente a época em que o livro fora escrito. A guerra, tanto quanto sei, foi perdida, mas deixou lastro... Leio, um pouco abespinhada, que os estudantes de várias universidades norte-americanas (do Michigan à Califórnia) se juntaram para pedir aos professores de Literatura que certas obras venham acompanhadas de uma espécie de advertência (como as bolinhas vermelhas ao canto nos programas televisivos que podem afectar pessoas mais sensíveis) para a eventualidade de ficarem perturbados ao longo da leitura. Alguns alegaram sofrer de stress pós-traumático ao ler obras com cenas de violência sexual, racismo, o Vietname e misoginia (raparigas que foram violadas na infância, veteranos de guerra e negros marginalizados estão entre os que reclamam um aviso sobre o que vão ler). Alguns professores ficaram irritados, dizendo que os alunos deviam confiar no seu bom-senso e que, além disso, provocar faz parte da sua função e aceitar desafios torna-se fundamental para crescer intelectualmente. Um docente de sociologia achou até ridículo que os alunos fossem poupados às coisas que os chocam ou magoam, defendendo que, sem enfrentarem os seus fantasmas, nunca mais se libertarão deles. Harold Bloom diz que toda a literatura é «trauma» e que as reivindicações não devem ser levadas a sério. Mas os estudantes estão a unir-se, Estado a Estado, para exigir os avisos. A questão está, pois, longe de estar resolvida.
Não me parece que isto vá só acontecer na América mas em todo o mundo. Eu, a Rosário e grande parte dos Extraordinários pertencemos já a outras gerações (as "antigas"), moldadas em mundos em presença e não a distância; aprendente da relatividade das coisas com um tempo consequência apaziguadora de grandes conflitos mundiais. Está hoje já na berlinda uma (nova) geração profundamente individualista, criada e gerada em ambientes compartimentados, apontada à competitividade e ao sucesso, sem perceber que o sucesso de uns implica (mas não devia!) em grande medida a derrota de outros. Uma geração que nem deve perguntar-se para que serve a sociologia.
ResponderEliminarBom dia,
ResponderEliminarHá uns meses atrás descobri um escritor que me ficou cá dentro e de quem quero ler tudo o que conseguir encontrar: Camilo José Cela.
Tomando como amostra o único livro que li dele, estou aqui a imaginar o caos que seria se ele fosse americano e estudado nas escolas.
Já para não falar de Henry Miller e tantos, tantos outros.
Apetece-me deixar um anacronismo importado dos states: WTF?
Bom São João!
Rui Miguel Almeida
Neste Admirável Mundo Novo que estamos a construir torna-se imperativo dotar os bombeiros de meios para queimar os livros que incomodam, como em Farenheit 451. Em Portugal não teremos esta necessidade porque quase ninguém lê obras literárias. Até nisso somos abençoados.
ResponderEliminarJCC
Estas notícias são inquietantes. Parece que uma mentalidade totalitária está a regressar, insidiosamente.
ResponderEliminarEntre nós, o ridículo não chega a tanto, digo, às bolinhas vermelhas para livros, mas também temos tabus. Por exemplo, rejeita-se o que é "pesado", em nome do "acessível", suspeita-se do humor, do escárnio e maldizer, em nome do politicamente correcto, defende-se o delico-doce ou, tão-só, o banal. O formatado, o indiferenciado e o banal imperam.
Os novos programas de Português vêm ao arrepio desta mentalidade, e tantas são as críticas...
A América no seu melhor... a terra dos "blisters" e do plastificado, asséptico, onde todavia campeia o KKK com o racismo e homofobia, o machismo e uma falsa moral sem limites que vai da indústria do sexo à exportação de armamento e violência militar, ou política, sob uma aparência democrática e republicana, que gera as maiores hipocrisias!
ResponderEliminarTambém na Europa, há uma vaga de bem-pensantes que se presumem social, política e ecologicamente correctos, e pretendem impor a sua nova ordem e moral, mas não passam de protofascistas.
Há de facto uma tentativa de escamotear as coisas como são, naturais, puras e duras... é a Natureza made by Walt Disney e o síndroma do bambi, é pretender que não há dor, sangue, suor, e lágrimas só de emoção... é já uma geração ignorante do que é a humanidade, pelo bem e pelo mal, que até pretende que os animais tenham direitos ao ponto de haver partidos que os representem!
Afinal é a desumanização!
Pois quando se perder a noção ou o conhecimento do que é a dor, a humilhação, a opressão do próprio ser humano, perde-se a condição humana e a razão para as combater, pois não se combate e limita o que não se conhece e pior, sem conhecer o mal como valorizar o bem?
Saudações da cidade morena.
Concordo com o que diz.
EliminarParece-me que as opiniões dos jovens americanos pouco deviam contar. Afinal, aprender também é traumático. E se eles se juntam numa petição contra a escola?! Curar uma doença até exige dor e, por vezes, cirurgia. Mas não se pode atender as lágrimas do doente. Assim em educação. Têm de ser outros, mais velhos e conhecedores a avaliar o que é bom ou mau para os jovens. E deixá-los marinar num mundo de artificio e em tons rosa não será boa ideia.
Esses jovens estão infantilizados. Culpa nossa - dos adultos - talvez
É verdade Extraordinária Beatriz!
EliminarE, resume muitíssimo bem numa única palavra:
- Infantilização!
A corrente actual tende a infantilizar, por um lado cada vez mais cedo se faz o que dantes estava reservado aos adultos, saltando degraus na escada do amadurecimento, mas por outro lado se mantém o alheamento das responsabilidades, pessoais e colectivas.
Não sei se em Ricardo ou em que outra peça, o fantástico Shakespeare deixa-nos ainda uma das suas sábias análises:
"Os velhos desconfiam dos jovens, porque já foram jovens!".
Mais do que nunca são hoje os jovens quem desconfia dos velhos, e, com ou sem razão, desprezam o capital de experiência vivida daqueles que viveram o que a eles ainda falta e pelo que se vê, talvez nunca vão viver!
O sistema, social e político, económico, parece-me que se baseia nessa infantilização, para manipular e conduzir o rebanho, reservando a uma elite o estatuto de pastor e possuindo até cães de guarda e de pastor...
Saudações da cidade morena para si!
Faz lembrar os argumentos dos que querem impedir os exames no primeiro ciclo pois, segundo eles, as pobres das criancinhas podem ficar traumatizadas.
ResponderEliminarA dar conta destes escritos, é caso para acreditar na existência de uma corrente de pensamento que prefere encobrir e lavar a história para formatar as novas gerações.
Acredito que uns poucos, mais endinheirados e virados para o anarcocapitalismo, têm na seguinte frase a sua grande máxima: Há que criar nos jovens de hoje os imbecis de amanhã.
Na realidade até é bem simples, limite-se o acesso de uma vasta franja da população à cultura e neles teremos as futuras ferramentas (mão-de-obra barata) para o futuro.
Ai, ai... O futuro...
Eu não acredito em bruxas, mas...
E se eles se puserem a pensar no ato em que nasceram, angustiante, violento, doloroso, talvez comecem a elaborar petições para acabar com ele. Então sim... um mundo sem sofrimento, perfeito, vazio de humanos.
ResponderEliminarInteressantíssima associação de idéias, esta, se me permite, Extraordinária/o Amalivros!
EliminarO acto de nascer é doloroso sim, para quem o pratica, a mãe e suponho que o nascituro... é afinal tirar alguém a alguém, uma passagem.
O terceiro sexo que alguns pretendem impor, não permite e nem goza/sofre desta introdução ou passagem, pelo o nascimento, pretende que esta seja pela adopção... incompleta portanto. E sim, faz parte dessa geração ou parte da sociedade que vive de uma forma etérea, afastada e na irrealidade.
É a modernidade que ainda não entendo, e sobre que me interrogo.
A minha dúvida não é para ser confundida com homofobia, não... Ela é sobre a Natureza e a oportunidade ou lugar deste pretendido terceiro sexo... afinal os seres vivos nascem, crescem, reproduzem-se e morrem, por isso onde é que ele se encaixa?