Leitura e desenvolvimento

Quando fui pela primeira vez a Buenos Aires, fiquei completamente rendida ao respeito que os porteños têm pelos livros. As livrarias eram lindas e estavam, muitas delas, abertas até à meia-noite. Havia livros à venda por todo o lado, imensos a preço de saldo, o que facilitava a compra, mesmo em tempos de crise; e viam-se muitas crianças a ler nos jardins e adultos com livros debaixo do braço. Ao contrário de outras cidades latino-americanas, ainda de certa forma terceiro-mundistas (no Brasil também, está claro), Buenos Aires respira civilização e cultura e fiquei a saber que, na Argentina, a alfabetização generalizada começou ainda no século XIX (saber ler torna-nos, claro, mais civilizados). Também a Noruega passou de país extremamente atrasado e pobre para um dos que têm actualmente melhor nível de vida (efectivamente, um dos mais ricos de todo o mundo). E não se tratou apenas do petróleo. As pessoas – sobretudo as mulheres – foram todas ensinadas a ler há muito tempo; em dada altura, nem podiam casar-se as iletradas – por não poderem ler a Bíblia em família (a religião tinha muito peso) e porque se considerou que, não sabendo ler as bulas dos remédios, poriam em risco a saúde dos filhos... Uma lição a tirar daqui: leitura e desenvolvimento andam de mãos dadas.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco20 de junho de 2014 às 02:17

    A Argentina é em minha opinião, um país muito pouco Sul-americano!
    Aliás tive essa sensação também em Santiago, onde senti que estava na Europa, e Montevideo então... o Uruguai que ontem derrotou a Inglaterra é assim como a Suíça da América!

    E nenhum deles tem petróleo... mas tem gente de qualidade, e cultura!
    Muita cultura, diria que europeizada pelo seu melhor, só que pouco conhecida cá deste lado do Atlântico para quem América do Sul significa:
    - Ditaduras e revoluções, jogadores de futebol, bife, fruta, pescada e pouco mais. Só que bife, pescada e fruta alimentam! E ajudam o cérebro...

    Ficará surpreso quem a visite, de ambos os lados dos Andes, que vale a pena ter a sorte de atravessar de cá para lá, logo ao nascer do Sol!

    Saudações da cidade morena!

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    1. A propósito de Uruguai -conhecem Mário Benedetti? então não deixem de ler "A TRÉGUA".

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    2. Ainda a propósito de Uruguai (ontem torci por eles contra os arrogantes Ingleses), comparem o Presidente do Uruguai (José Mujica ) com o Cavaco...vejam quem é José Mujica ; onde mora; como se desloca, etc etc vale bem a pena.

      Obrigado MRP por nos possibilitar tudo isto e faça o possível por todos os dias escrever qualquer coisa, mínima que seja, como eu sei como é difícil arranjar tema para todos os dias, oh se sei...porque todos os dias aqui se aprende qualquer coisa, se viaja para qualquer parte do mundo, se lê um novo livro, se dialoga com mais ou menos veemência.Obrigado Maria do Rosário Pedreira

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    3. Obrigada a si por cá vir. E olhe, adorei A Trégua, é um belíssimo romance! Desculpe aquilo do acento no Helder ontem, mas parece que ele fica ofendido quando lho põem...

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    4. Nenhum probleema até porque não acredito que tenha lido já que se o HH não tem telemóvel também não deverá ter computador; ou então isso de ser eremita já faria parte do marketing...

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  2. Sou leitora assídua e apreciadora do presente blogue contudo considero que o post de hoje foi um tiro ao lado no porta-aviões, visto que a Argentina encontra-se à beira do incumprimento. Por isso parece-me que a conclusão não está correcta, ademais face a um dos exemplos dados. Apesar de enquanto apreciadores de livros e cultura em geral, isso nos entristecer, a verdade é que há muitos país com ampla e diversificada actividade cultural que não são prósperos e vice-versa.

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    1. António Luiz Pacheco20 de junho de 2014 às 02:30

      Não é bem assim Extraordinária Tânia, se me permite que discorde...

      É verdade que desenvolvimento e cultura não são sempre directamente proporcionais, e temos o exemplo de Cuba, país atrasado em termos de desenvolvimento económico (paupérrimo), todavia com uma atividade cultural notável!

      Mas, a Argentina, de que a Nossa Extraordinária Anfitriã logo no início refere "a crise", tem de ser vista de um modo especial. Quem está em crise e incumprimento é o Estado, o governo é que faliu!
      Não a Argentina, pois ao contrário da Europa ali há uma outra dinâmica comercial e de exportações que manteve um certo nível de vida, originado pelo desenvolvimento que já vinha de trás... e que me atrevo a dizer se manteve, porque a força de economia Argentina não são os subsídios como na UE, mas isso sou eu a pensar na Argentina das haciendas de ganado e onde americanos ricos (e europeus) vão caçar... na Argentina que produz e que vive bem.

      Porque a principal riqueza da Argentina, é de facto o povo, a atitude e a mentalidade.

      Saudações da cidade morena!

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    2. Há incumprimentos que cumprem as regras: da cultura e desenvolvimento. Muito cuidado com a mensagem actual do contabilista mor : o equilíbrio das contas públicas é uma idiotice de maus economistas. O desenvolvimento gerador de desenvolvimento através de investimentos duradouros é o verdadeiro cumpridor de um povo e de uma nação. Tudo o resto são frases de maus copistas sem rasgo e com o conhecimento propiciado por um umbigo contaminado de lixo.

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    3. Lá vem o incumprimento, os mercados, as bolsas; Ó Tânia aqui fala-se de livros, de cultura, deixa para lá essa conversa dos novos liberais...dos novos empreendedores, bla bla bla....fala de livros que é disso que a gente gosta...

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    4. Caro Severino. Mas olhe que o mercado, o incumprimento, as bolsas também são para aqui chamados. É que se os deixarmos com rédea solta com o argumento de que não são cultura (ai, ai, que não são!), bem pode a MRP e nós com ela pregarmos a Frei Bento da abundância ou a São Jorge padroeiro dos livros, que estes ficarão nos mercados agonizando com distantes afectos e suspiros por adopção.

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  3. Incumprimento do quê, Tânia? Importa-se de explicar o conceito?

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  4. Na Inglaterra o Forster's Education Act de 1870 previa a escolaridade obrigatória de todas as crianças, independentemente de sexo ou classe social e, nessa dependência, floresceu a literatura infanto-juvenil e a imprensa dedicada só ao público jovem.

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  5. Na Noruega por exemplo, a cada novo escritor publicado, o Estado tem o compromisso de adquir, na primeira edição de cada livro, nada mais nada menos do que mil exemplares para distribuir pelas redes de bibliotecas. Ora se isto não é atitude e pujança cultural não sei o que poderá ser.
    Um abraço e bom fim de semana.

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  6. Cláudia da Silva Tomazi20 de junho de 2014 às 03:58

    Nível Senhores.

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  7. Repare-se que MRP fala de Buenos Aires, e podemos talvez estender a impressão à região Rio Platense, e portanto a Montevideu. A Argentina profunda é capaz de ser algo diferente.

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    1. António Luiz Pacheco20 de junho de 2014 às 04:44

      Tem razão Extraordinário Paulo, na sua observação sobre as duas margens do rio de La Plata que são comparáveis, como na separação que faz para com a Argentina ... é claro que a pampa é um outro Mundo, fantástico aliás... puro e duro, rude, isolado e remoto mas, também de lá nos chega excelente literatura, sinal de que há "solo fértil" se me permitem a comparação.

      E a região do rio Negro, entre outras, zonas fortes de produção de fruta, ricas portanto, no sentido que lhe dá o nosso Extraordinário Pedro Almeida Sande.

      Ou seja, há mesmo desenvolvimento económico a par dessa outra "crise" , mas não me parece que seja comparável à que vivemos... verifico que a Argentina mantém as suas actividades sejam elas do turismo cinegético (é um dos maiores destinos do Mundo), das carnes e coiros, das frutas e ligadas ao mel!

      A título de curiosidade, este país era o maior productor mundial de mel antes de a China tomar a dianteira com o seu mel aldrabado (como é costume), de uso industrial mas vendido como para consumo, graças às habilidades dos Chineses e dos apaniguados do grande comércio! Felizmente esse mel foi proibido nos EUA e tem já fortes restricções na UE.
      A Argentina aluga colmeias para a Califórnia, onde vão polinizar os imensos pomares daquele estado Norte-americano, a apicultura de transumância levada ao extremo! Vão de avião e existem até corretores de abelhas! Só nos EUA!!!!

      Por isso nada do que diz a Nossa Extraordinária Anfitriã me espanta, e só espanta que Argentina, Uruguai e Chile sejam destinos pouco frequentados por nós portugueses... ou talvez não, afinal é por falta de informação e porque não estão na moda...

      Saudações da cidade morena.

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    2. Ó Pacheco espanta-te que Argentina, Uruguai e Chile sejam destinos pouco frequentados por nós portugueses; e a mim espanta-me que penses que qualquer português chegue ao fim do mês e o ordenado lhe chegue para viajar até às Américas...
      táxe a brincar ó kê (como se diz em Olhão). Anda Pacheco

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    3. António Luiz Pacheco20 de junho de 2014 às 09:50

      Hum... pois tens razão, em parte ó Severino!

      Mas há portugueses que viajam, independentemente da crise e da falta de dinheiro como há os que nunca o fazem, mesmo tendo meios!
      Estou a falar dos que ainda vão para Fortaleza, Punta Cana, Varadero, Maiorca... e as agências empacotam e remetem... vão para lá nem eles sabem fazer o quê ou para quê... é moda!
      Só trazem de lá bronzeado e t-shirts.

      A América do Sul, que não está na moda, pode ser além de barata, uma surpresa... falo para aqueles que possam ainda viajar, e há muito mais do que se diz ou pensa... só que também não interessa falar nisso, agora até é chique estar "teso" e alardear que já os filhos vestem a roupa dos primos... como se isso fosse novidade ou moda, a minha geração cresceu assim, mesmo sem sermos pobres, mas os pais eram austeros e as mães poupadas, e geriam bem a casa!

      Eheheh!

      Um abraço da cidade morena! Olha que não estou a turismo... ahahah!

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    4. Estou a falar dos que ainda vão para Fortaleza, Punta Cana, Varadero, Maiorca... e as agências empacotam e remetem... vão para lá que nem tordos, e não saem do Resort...

      NESTE ASPECTO TENS ABSOLUTA RAZÃO, Pacheco!

      Anda Pacheco

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  8. É difícil ter uma boa ideia por dia, cinco dias por semana, e registá-la em crónica apurada como o é cada uma das que lemos diariamente neste blogue, demais a mais quando tal se sobrepõe aos afazeres pessoais e profissionais. A Rosário terá, suponho, alguma falta de tempo para reflectir com um mínimo de cuidado sobre algumas das matérias que nos traz, como talvez tenha sucedido hoje, em que recorreu a generalizações, sempre falaciosas. Terá falta de tempo para procurar contra-exemplos, sempre úteis em qualquer argumentação. Por exemplo: Buenos Aires não é a Argentina, nem sequer está para ela como Lisboa está para Portugal, pois se trata de país muito maior, mais variado na geografia, no clima, na estrutura social e, seguramente, na cultura... E a Argentina está novamente em situação económica difícil, talvez à beira de nova bancarrota, na sequência da de 2001 (não confirmei a data). Terá o governo talento para a obviar, evitando que as mulheres voltem outra vez para as ruas a bater nas panelas vazias, como então fizeram, lembram-se? É preciso não esquecer, até porque foi há muito pouco tempo. E dizer que a Noruega era país pobre e atrasado! Com quais o compara nessa época? Com a vizinha Suécia, com a Escócia, com Portugal? E essa lei a proibir as analfabetas de casar, por muito verdadeira que seja, carece de prova para que a aceitemos. Coisa de esclarecer em que período vigorou, se se aplicou unicamente às mulheres ou também aos homens, se foi ou não cumprida... É que nós, seus leitores atentos, somos exigentes, queremos saber tudo ou, pelo menos, onde podemos comprovar afirmações chocantes como essa. Se me permite o atrevimento, sugiro que quando cair na tentação de recorrer a generalizações e tomar um exemplo que a encanta pela realidade de toda uma nação e essa nação por farol para nós -- modalize um pouco.
    JCC

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    1. Tem razão em muita coisa, José Catarino. Fui já ao Norte da Argentina, que é muito pobre - mas, mesmo assim, muito mais interessado pela cultura do que a nossa província: estive num encontro sobre leitura em que as pessoas pagavam entrada e tive cerca de 1000 pessoas a ouvir-me. E, quanto ao caso da Noruega, quem mo contou foi Guilherme d'Oliveira Martins, pessoa muito culta de quem nem me atrevo a desconfiar. Mas, sim, fez bem em fazer o reparo. Não devemos emprenhar pelos ouvidos nem reproduzir o que não confirmámos.

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    2. Rosário: muito me impressionou e sensibilizou a grandeza de carácter que evidenciou na resposta. A humildade é qualidade dos grandes. Não fosse o caso e teria sido despachado, como já me sucedeu noutros blogues em situações idênticas, com um " Não precisa de por cá passar."
      Fui treinado para utilizar a dúvida metódica, para procurar contra-argumentos, para não valorizar uma informação pela fonte, nem que seja o Papa da área, mas pela justeza dos argumentos que a sustentam. Levei muito nas orelhas, e eu não era nenhuma criança, da minha orientadora por avançar com afirmações sem a devida sustentação. Tanto que outro teria desistido - ela, a Professora Palmira Marrafa, pode confirmá-lo. Por isso, quando leio algo penso sempre "Porquê? Em que se baseia para dizer isso?" E o respeito por si e pelo seu - nosso! - blogue levou-me a fazer o alerta.
      JCC

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    3. Não há dúvida de que a cultura e a educação são a base do desenvolvimento. Mas isso de proibir as analfabetas de casar é uma violação dos Direitos Humanos. A intenção até pode ser boa. Mas de boas intenções... já se sabe!

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  9. E má economia é isto: «Mais de 60% dos empregos gerados são contratos sem termo» Passos Coelho diz que «não há precariedade laboral» mas sim «estabilidade laboral»?! A deficiente cultura económico financeira de um povo, que sistematicamente faz tomar a nuvem por Juno.

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    1. E diz mais (se não foi ele foi um gémeo -eles são todos iguais e parecidos-pelo menos todos trazem na lapela a bandeira de Portugal-patriotas-que acabaram com o feriado do 1º.Dezembro), dizem eles: Portugal está melhor, os Portugueses é que não.

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    2. Cláudia da Silva Tomazi23 de junho de 2014 às 03:42

      Cá nós (terno lugar a lapela).

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  10. “yo" quer dizer tudo | desculpem, talvez esteja descontextualizado do tema de hoje | talvez não, se “yo" quer dizer tudo, então digo “yo"
    .
    .
    .
    | parabéns à MRP e ao JCC |
    .
    .
    .
    “yo" = App para mensagens ocas !!!

    _OY_

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  11. E Buenos Aires tem uma das livrarias que mais gostaria de conhecer, a Ateneo. Maravilhosa!

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